Aconteceu numa noite, numa aldeia não muito longe daqui. Houve uma fada, desgarrada das suas irmãs, que sobrevoou o casario, pairando, ora sobre os telhados de telha vermelha ponteados de musgo, ora sobre os tufos de arbustos junto às casas, espreitando, curiosa, os quartos dos meninos.
O seu propósito era só um, nunca interrompendo a tranquilidade das crianças que dormem, com toda a certeza, precisava, apesar disso, de roçar duas madeixas do seu cabelo azul no rosto de pelo menos um bebé adormecido para que ele pudesse, ao longo da sua vida, apreciar a beleza das coisas.
A criança foi crescendo, entre a janela laranja que havia em casa da avó, uma janela virada, evidentemente, para os amanheceres de verão, e a sua própria casa, onde, por vezes, um trágico raio de sol atravessava simultaneamente duas nuvens negras e o céu azul.
Para ela, não havia diferença entre ter fome, ou sede, e esperar, com expectativa, um raro ocaso violeta a incidir nas flores, ou uma manhã cinzenta que se desvanece, ou apenas um pássaro qualquer.
A fada de cabelo azul foi repreendida pelas suas irmãs. "ninguém deve viver assim", disseram-lhe. nem o maior dos poetas, nem o mais profícuo pintor".
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