sábado, 23 de fevereiro de 2019

Não me apetece mesmo, que não queira já cá estou, de cigarro na mão e outros pequenos prazeres.

Gostou do gato no engate outro dia de manhã
Amava água com borbulhas de gáz, que, quando estavam vivas, iam pelo copo acima com alguma rapidez, Vinícios cheio de vícios é o que tu és, entra as videiras na vinha, vinham de lá violentos,

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

Dicionário

A Albertina só adormecia depois de a mãe lhe ler uma ou duas páginas do #dicionário.
Quando a mãe, por esta ou aquela razão, não estava em casa, e quem ficasse a tomar conta dela  por algum motivo não soubesse ler dicionários, a miúda tinha uma espécie de ataques que culminavam com o rodar do corpo como se estivesse preso num  eixo central, e por vezes, levantava vôo atingindo uma velocidade indescritível.
O cuidador teria que ter sempre a atenção de fechar as janelas e as portas para que a menina não saísse como um foguetão ou um parafuso voador, conforme a imagem que se preferir, e atingisse alguém lá fora, como aliás, já tinha acontecido.
Quando o sr. Januário, levou com a miúda na cabeça, fez um enorme escândalo.
Toda a gente lhe tentou explicar que a criança não tinha culpa nenhuma, que era uma doença rara que nem os médicos sabiam tratar, mas ele foi mostrou-se intransigente, queria uma indemnização por danos corporais e exigia, também, que lhe fosse facultada uma cabeça nova, e   que lhe retirassem aquela, colada à pressa, e que, com o incidente, tinha ficado espetada na vivenda da dona Aurora, o que, obviamente, a tinha  deixado muito danificada.
Felizmente, hoje, Albertina, já adulta, mantém apenas uma  sequela inofensiva e sem grande importância, e que é a de fazer sapateado enquanto conversa com as pessoas.


quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

No Bairro do #Burel

Apesar da barraca ser 
barraca de chapas de metal,
o que se mostrava em evidência 
era o tufo de margaridas 
que saía de um alguidar azul.
De resto,  também eram bonitas, 
imponentes, 
as outras grandes casas 
viradas para o rio, 
com os terraços pendentes, 
e as trepadeiras enrolando nos 
chapéus de sol.





quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

Dia de S. #Valentim

Pessoas passam com flores.

Apressam o passo para não as estragar ao sol, mas, com isso, obrigam-nas a movimentos disparatados
que agitam os seus corpos leves, de pétalas naturalmente débeis, e elas chegam ao destino completamente descompostas.

Perdem a vivacidade, o orgulho de dizer aos outros,
"Nós somos belas flores, basta um relance de olhar".

Ainda assim, as suas cores e formas são capturadas, como que presas numa velha e resistente teia de aranha, com gotas de orvalho poeticamente colocadas pela madrugada e, felizmente, imortalizadas numa fotografia.

Por isso as lembranças que existem dentro de cada cabeça, tão centradas na dádiva do amor, acabam por cair no esquecimento, ao percorrerem aquele circuito habitual.

Vão com os ramos nas mãos.

Vão pela correria fora, nem se lembram da fragilidade, ou da delicadeza do que transportam submersos nos mares de automóveis, nos quilómetros  de escadas rolantes,
por onde descem, estáticos sobre os degraus,



quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Em #Órbita

Tão cedo acordou
que o tempo lhe
pareceu
tanto,
ainda havia espaço
para
palavras.
Não quis incomodar-
-se
com a coerência das
coisas,
não era por aí que
resultaria o seu
verbo.
Se levasse alguém a
acreditar,
uma só pessoa que
fosse,
que  tinha uma
forma e
um corpo,
mesmo que esse
alguém
vivesse na
rua,
com os seus piolhos
invisíveis,
e a sua sujidade
fedendo na
esquina,
nem era isso que
interessava ao
poema,
só o seu coração
igual.



terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Mosca

#Moscas e outros insetos pavorosos voavam entre o exterior e o interior da casa. Passavam pelas janelas partidas, pela porta escancarada, por onde entrava também o vento, depois de chegar à varanda, a assobiar.
Ia começar uma paciência solitária, em cima da mesa da cozinha, quando deu pela chuva a aproximar-se e foi apanhar a roupa para que não ficasse encharcada.
 Quando abriu a porta, as cartas que estavam em cima da mesa voaram, primeiro o ás de copas, depois o três de paus e, finalmente, o rei de espadas, impulsionados pelo movimento do ar, aproveitando as suas correntes.
 O ás de espadas ficou preso na ponta do tapete, mas, ao fim de algum tempo, lá conseguiu prosseguir. Devagar se vai ao longe.
A roupa enrodilhava na corda e a velha equilibrava-se na corcunda para a desenrolar.
Na mão, levava o saco das molas, que agarrava com os dedos ossudos,
Quando entrou, encostou o ombro ao vidro, para ajudar com o peso do corpo a contrariar as rajadas de vento que teimavam em manter a porta aberta, a grande porta que chiava.
Havia dejetos, restos de letras que já não serviam para nada, havia larvas que trepavam as paredes, devagar, sem medo de serem apanhadas pelo bico do pássaro.
Até as  águias passavam de vez em quando sobre a cidade por mero engano, levadas pela ventania e pela curiosidade. (Mas também, vivendo na ignorância não havia que ter medo).
O chão de mosaico ficou ensopado, as embalagens vazias absorveram a toda água possível até atingirem o  ponto de saturação, não impedindo, portanto,  que, com a ajuda das caleiras sujas,  ela se acumulasse nos desníveis causados pelos anos.
O quatro de ouros desapareceu por entre as grades de ferro, e nunca mais o viu.
Havia folhas de camélia abandonadas pela casa toda, ou mesmo as suas flores secas, ou mesmo os três gatos empoleirados nas costas do sofá.
Sobre os livros, as aranhas nos cantos mais altos, supervisionavam a mulher que atirou o monte de roupa para cima de um um sítio qualquer, mas ela resvalou e foi parar ao chão.
Um dos gatos aproveitou para se deitar lá em cima e se aconchegar nos lençoís debotados, acabados de lavar.



raiva rascunho

Aquela raiva de não poder usar todas as palavras ao mesmo tempo para que se formasse uma grande esfera enrodilhada, e com a pressão exercida nesse tecido compacto e tridimensional que se formou,
por consequência tinha que descrever o impossível e aproveitou.
E então o que era, apenas a superfície sobrevalorizada das coisas, a parte de fora que escondia a ocacidade do interior.
De súbito, deu-lhe uma raiva de  não poder ver o espectáculo, o homem suspenso no céu, era só assistir a esta postura parada e