terça-feira, 18 de setembro de 2018

O Tiro

Firmino levou um #tiro que o atravessou de um lado ao outro, mas não o matou
Pelo contrário, ficou com uma saúde de ferro.
Para além disso, ainda ganhou o poder estremoso de entreter as crianças.
"Ora anda cá!"
Subiam a uma cadeira, ele amparava-as para não caírem, e elas espreitavam pelo orifício que ele tinha na nuca, e que fora deixado pela bala, seguindo, inclinado e oco, até à testa.
E que alegria, a dos meninos, poderem, por entre a sua cabeça, ver o lado de lá da estrada!
"Embora ver a paisagem através do avô?", combinavam, entusiasmados. os seus próprios netos.
Nos dias de sol, o Firmino colocava-se bem de frente para o dito, e os miúdos riam-se com a bolinha de luz que era projetada na parede. Rodava o pescoço para a fazer mover, e eles davam cristalinas gargalhadas.
No dia em que foi chamado ao hospital para marcar a data e outros preliminares da cirurgia reconstrutiva, tinha pensado a equipa responsável colocar-lhe terra e umas sementes de coentros naquele pedaço de cabeça a preencher, ele recusou terminantemente.
"Deixe lá!" Insistiam, "é para o seu bem. Já viu que depois tem coentros sempre fresquinhos? E se tomar os medicamentos conforme prescritos, dão o ano todo!"
"Obrigado, mas não. Não consigo trocar ervas aromáticas pela alegria de tantas e tantas crianças.
Lamento."
E saíu do consultório para nunca mais lá voltar.






segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Setembro

O homem chegou-se
à beira do rio,
inclinou-se
sobre a água, e,

com a mão em concha,
apanhou um folha
de  #setembro
que circulava,
devagar.

Os seus olhos
abrangentes
rolaram pelo cenário,
procurando
a árvore
a que ela pertencia.


Queria devolver-lha.
Insistir
para que  vestisse
outra vez,
o seu manto
intransponível.


Não suportava
antevê-la,
imaginá-la,
inevitavelmente nua
dentro de todos
os invernos,
e com as raízes
mergulhadas
no gelo.












,









Setembro

Com a mão em concha apanhou uma folha de setembro, que circulava na água, devagar.
Em breve.

de vez em quando, mais, se calhar, do que seria conveniente, ligo o modo palhaço. É uma opção pouco popular, até se nota nos comandos muito usados pelas pessoas, que a tecla está menos gasta.


Quando não me lembro dos meses que têm trinta ou trinta e um dias, digo cá para os meus botões uma lengalenga:

Trinta dias tem
novembro, abril
junho e #setembro.

Nunca quis aprender aquela ceninha que se faz com os nós dos dedos.
Irrita-me, não sei porquê..., mas atenção, tenho grandes amigos que fazem isso a toda a hora, e não me chateia.
Até acho graça. Pergunto assim, do nada, "Quantos dias tem setembro"
E peço, educadamente: Faz lá aquela ceninha com os nós dos dedos...!"
Depois, depende do tipo de pessoa com que estou a falar.
Uns, começam num desatino, sem parar, é preciso desligá-los no interruptor que têm nas costas, e deixá-los arrefecer um bocado. Outros recusam-se e até se aborrecem comigo.
Mal educados, alguns.
Enfim, há de tudo um pouco.


domingo, 16 de setembro de 2018

#Risco



Aquele homem, o único habitante lunar conhecido, o velho com um saco  às costas que qualquer pessoa pode observar de cá de baixo da terra,  usa um penteado ridículo.
Sei porque se chega à minha beira, quase lhe toco, preso à cintura por um enorme cabo de aço, que guarda, muito bem escondido, dentro de uma cratera, metodicamente enrolado, precisamente na outra face da lua.
O #risco perfeito sobre a têmpora e parte do cabelo virada para cima acompanhando o arredondado da cabeça  denunciam-lhe o couro cabeludo completamente liso.
Nos dias de muito vento, e apesar da fixação pormenorizada a que o sujeita todos os dias, em frente ao espelho sideral, levanta quase em riste, como a bandeira das praias em tempo de nortada.
E por me ver rir, às vezes sem controlo,  por ser demasiado cómico, o velho da lua ameaça-me constantemente com o saco.



Nau

Procurava companhia nos objetos
sem vida
nas pessoas sem rosto
nos animais sossegados
enroscados numa cadeira
a apanhar o sol tardio
e húmido da manhã de nevoeiro.

Só deu pela  reviravolta quando
sentiu os bonecos inanimados
da televisão
acordados inesperadamente.

Atràs do ecrã
naquele dia lindo de névoa
espreitava o ladrão de
todas as vírgulas possíveis.

O larápio entrava sorrateiramente
no discurso e roubava-as
para depois as enfiar na face de alguém.
Como setas.

Esse rosto cravejado de
pequenas unhas falciformes e sujas
arrancadas ao texto
que ficou sem nenhuma
metia dó.

O derrotado escorregava
por ali abaixo
sem controlo
Nem uma ficou para amostra.

Entrou como quem entra
descomprometido
e  percorreu as linhas com os olhos.
Identificou-as rapidamente
localizou-as
recolheu-as
e fez aquela maldade ao outro.

E os livros nas estantes riam-se
que nem uns perdidos
embora só nalgumas passagens.
Noutras ficaram sem fôlego.
Gostavam daquele jogo
de arco e flecha.


Não brinques com o fogo
cantavam em coro as bolhas bolorentas
entre as bolachas e o café.
Muito bem.
Assim farei cor de rosa.


Foi quando  a água da garrafa borbulhante
nos pediu a todos
o máximo  silêncio. Por favor.

Soaram os tambores.

E tudo para  traçar um #risco pequenino
no papel
que mais parecia uma vírgula.









sábado, 15 de setembro de 2018

Quinze

O minha gata Fedra já era adulta, quando caíu de uma altura razoável,
porque foi apanhada desprevenida com o estalar de um foguete mesmo ali ao lado,
e que ressou nos seus ouvidos, explodindo.
Mas, enquanto ia no ar, arqueou o dorso, deu ali umas voltas,
sei lá como fez para aflorar o chão nas quatro patas e aterrar direitinho
Era a quarta vez que lhe acontecia uma perigo daqueles,
tão próximo da fatalidade, e só lhe restavam, portanto, mais três vidas.
Anos depois, ia fixada na perseguição de um rato,
atravessou a estrada em corrida,
mas um carro saíu da curva,
e só teve tempo para dar mais velocidade ao seu corpo elástico
e escapar por um triz.
A penúltima vida gastou-a , no inverno chuvoso do ano que passou,
andou pelo quintal debaixo de uma tempestade, e,
como já não era muito nova para se aventurar em explorações,
com tão rigoroso tempo, contraíu uma pneumonia.
Teve a sorte de ser muito bem tratada e, mais uma vez, se safou.
A minha gata Fedra vive agora só com uma vida.



sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Pérola

Mergulhamos
e o nosso amante
de mil braços
envolve-nos.

A superfície do sol
forma #pérolas macias,
a areia cai, em grãos,
que brilham no chão,
que, por vezes,
se estendem em calor
até
à imensidão do
absolutamente nada,
e os versos morrem,
tragados pela água.

Os seus restos mortais
desfazem-se em espuma.

As nossas gaivotas esperam
por nós
em todo o lado
e quando nos vêm, gritam.

Estão na calçada
dos quadrados dos vários
círculos cinzentos
desenhados
na pedra.

Ou nas aldeias brancas,
ou sobre os nossos penhascos,
ou sobre as nossas casas,
ou sobre os nossos barcos
de pesca,
ou sobre o nosso mar,
porque é outra vez
o nosso mar que
nos persegue.