domingo, 1 de fevereiro de 2026

Ninguém Entre as Cortinas

 Para mim, era certo que já não vivia ninguém entre as cortinas.

Os vizinhos faziam um sorriso tolo quando os questionava. Respondiam qualquer coisa como, "então não a viu ontem, à Dona Lurdes? estivemos todos a conversar ali em frente ao café do bairro. A senhora até a cumprimentou e tudo, não se lembra? "efetivamente estivera a conversar com eles no sítio indicado, cumprimentara alguém que eles diziam estar lá, mas não estava, apenas dei dois beijos no ar para não os contrariar, já que insistiam para que falasse com alguém que eu não podia ver, mas cuja presença era, para eles, evidente. 

Portanto, quando, insisto, os questionava sobre o facto, para mim era um facto, só isso posso garantir, de, também o jardim da pequena casinha parecer abandonado, com as ervas já muito altas e as roseiras sem poda, a crescerem livremente formando formas disformes e flores selvagens misturadas entre os seus próprios abraços agressivos e picantes, dolorosos, com as envelhecidas pedras brancas sujas de vários invernos, ou de como já ninguém estava à janela, fazia uns dias, talvez até muitos, porque nem sempre tenho grande noção da exatidão do tempo a passar, ou de como o vaso da frente, o das orquídeas silenciosas estava todo ressequido e cheio de folhas velhas, a Dona Lurdes nunca deixaria o seu vaso de barro pintado de roxo todo castanho de pó e as folhas velhas, as folhas velhas também me puxaram a atenção, mais do que muitos outros pormenores, que lhes fui referindo ao longo daqueles dias, mas que me abstenho de mencionar aqui.

Os vizinhos continuavam com o seu sorriso tolo, mas ela, a mulher do casal, talvez mais atenta às minhas reações, ou talvez porque me conhecesse melhor, parecia estar menos confortável com a situação do que ao início, quando começara a tomar os seus contornos, esta coisa de eu achar que a senhora desapareceu, morreu, foi, viver para outro local, enfim, várias possibilidades existem, todavia, nenhuma delas implica a senhora ainda permanecer na sua casa e fazer a sua vida normal, por muito que me digam que falei com ela no dia anterior, ou nos dias que o antecederam.



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