segunda-feira, 20 de junho de 2022

#Fugir

Leonor fugiu da fuligem
que circundava a casa.
Entrou lá dentro, esbaforida,
e após respirar três vezes seguidas, 
para recuperar o fôlego, 
inspira, expira, inspira, expira,  
fechou a porta com força
e tratou de verificar 
as portadas das janelas, 
os fechos, as aduelas,
para que ela, sorrateira, 
não entrasse e lhe estragasse 
a tarde comprida,
cruzando os ares até ao fim do dia
e vogando em frente ao seu nariz.
As partículas, de cor cinzenta, 
ficaram retidas lá fora 
e com o passar do vento,
dissiparam-se e ela pôde, 
finalmente descansar.
Adormeceu, Leonor,
sonhando com os ínfimos corpúsculos
que deixara a morrer.








 

domingo, 19 de junho de 2022

O Meu Caderno

Vou aproveitar este caderno para ser outra pessoa, deixá-lo em cima de uma mesa, talvez, para que ele me recorde, na sua desarrumação consciente, o propósito de estar ali.
Se, por acaso, arrumar, cuidadosamente, o meu material de escrita, como escreverei?
Mas, se o deixar pousado onde fica, as folhas irão acumular-se pela casa toda, sufocando-a.
É o mesmo eterno problema, o mesmo ciclo sem fim.
Questiono os apontamentos que circulam entre a minha cabeça  e os cadernos espalhados, as folhas de arestas bicudas e os panfletos de costas lisas onde em tempos chegados rabisquei qualquer coisa para ser abandonada.
Num futuro, talvez próximo, talvez longínquo, não haverá, em branco, superfícies disponíveis e as canetas e os lápis deixaram de existir, serão sómente cadáveres enterrados nas gavetas.
Por isso mesmo, serei outra pessoa neste caderno, do qual, admito, não saberei que destino irá ter, ou onde estará nos momentos em que precisar dele.
Aqui, sem qualquer fronteira, ou prisão, e se mantiver os cuidados necessários para que não se perca no reboliço da casa viva, onde papeís lixo contam uma história  sem princípio nem fim, falarei do que eu quiser e maior liberdade não há.
O tempo, passa, hora a hora, e assim ficará aqui descrito, como se, sem consciência, não  lhe desse qualquer importância.
Se vir algo que aos meus olhos se revela muito belo, uma cor surpreendentemente viva, ou um pormenor gigantesco que me chame a atenção,  um desses cantos esquecidos onde pode caber a biqueira de uma bota colossal, nem me interessa o que lá possa caber, e me apetecer, abro mão de uns minutos para aqui relatar algo que nunca aconteceu, é meu dever.




quinta-feira, 16 de junho de 2022

A Barraca

Após  uma grande chuvada, 
Sara saíu porta fora 
para apreciar o regresso do sol.
Havia, 
num dos quatro cantos 
esquecidos do quintal, 
trevos em flor, 
e ela fletiu as pernas 
e afundou um joelho na terra húmida 
para os ver melhor.

O cão #Kim, 
que esperava o fim da chuva
debaixo de um telheiro improvisado, 
assim que deu por ela, 
ainda nem a tinha visto 
já percebera a sua presença,  
começou a abanar a cauda 
de felicidade, 
com o corpo ondulante de alegria 
acompanhando a excitação.

Sara levantou-se 
e sacudiu a terra 
que lhe ficara presa 
no joelho sujo.

Fez trinta festas ao animal, 
enquanto este lhe lambia 
os cabelos espessos
e engolia algumas partículas 
da fuligem de uma fogueira  
a luzir ainda do fogo da noite,
e que o pai preparara 
com madeiras que buscara 
pelo bosque.

Todos os dias 
se chegavam ao seu calor crepitante
enquanto as brasas incandescentes 
brilhavam 
e eram as chamas 
que refletiam os seus  olhos.







quarta-feira, 15 de junho de 2022

Vou #arriscar o relato do que se passava naquela vila, perdida numa planície sem fim.
Era verão e os insetos moviam-se com mil movimentos de asa, sobre as flores, com a terra a perder de vista, de ervas rasteiras e secas, não havia qualquer ruído na amosfera, havia sim  calor e muita luz.
As abelhas, pretas e amarelas, eram as raínhas das flores, das escassas flores que pendiam dos suportes presos aos beirais. 
Havia um regador, sem mãos que lhe tocassem, ou qualquer outro sistema controlo à distância, que se inclinava sózinho para verter a água nos canteiros e, como que por magia, a sua água era inesgotável.
Era de plástico verde e guardava-se sózinho numa despensa vazia sempre que terminava a importante tarefa de regar.
Os gatos dormiam a sesta, alheados do silêncio  que envolvia a atmosfera quente.
As abelhas, naturalmente, iam deixando o aroma do polén no ar por onde passavam, não  sei, disso não me lembro, sei que entravam e saíam pela janelas danificadas, brilhavam entre os rasgos iluminados dos raios de sol imperturbável  e geométrico, nas casas do casario sem ninguém,  de edificações muito baixas e de telhados desarranjados.
No mesmo  alpendre das flores eternas, balançava uma cadeira de baloiço, e balançava sem a existência de vento ou outra similar força dinamizadora de  movimento.
Balouçava como um suicida, cuja existência, por obra de um destino cruel, deixou de lhe fazer sentido, ou como um fantasma do passado ou como outro alguém inexistente.






sexta-feira, 10 de junho de 2022

Uma Zoeira Nos Ouvidos



Para mim
alguns  poemas são
fortes como  fortalezas,
resistentes, mas,
mesmo esses,
tombam, por vezes,
quando alcançados
pelos projéteis de uma
guerra
ou quando consumidos
pela erosão do tempo,
ou, ou, ou
quando têm fome.


(Se, de facto, assim for,
é imperativa
a recontrução
mirabolante 
dos destroços magoados, 
das letras soltas 
caídas.)

Os poemas, são
palavras em fio, 
ou em torrente,
ou ainda,
palavras por dizer
retidas atrás das cordas
vocais.


São gotas escritas
pela chuva,
gotas essas
que vou buscar
para que não desapareçam,
para que permaneçam 


um pouco mais
do que os segundos
da sua curta vida
balançando nas pontas
das folhas 
até à queda fatal.


Os poemas
também estão nos botões de flor,
fortes e resistentes,
até 
nas casas caídas,
ou na imponência das enormes
pedras, perdidas no chão,
sufocadas pelas hastes 
enrodilhadas
de pétalas vivas.
por onde o sol atravessa
tornando-as, imagine-se,
transparentes.

Por  certo que na chuva,
que pinga, 
vejo tudo onde
porventura nada está,
mas não posso deixar de 
reparar.



sexta-feira, 3 de junho de 2022

Era uma vez um burro, um pavão e uma cangurua que viviam na mesma quinta.
O burro entretinha-se,  pelo dia fora, a dormitar em silêncio. Viam-se-lhe os olhos pestanudos a esmorecer, até quase fecharem. De quando em vez lá  se lembrava de pastar um pouco, e então dobrava o pescoço no sentido descendente e enfiava o focinho na erva fresca. De resto, nem uma palavra, só zurros quando se lhe prendiam nas voltas do intestino algumas palhas fibrosas, mal escolhidas da terra e inadequadas à sua dieta.
Por sua vez, o pavão, embora estivesse, por força dos mandamentos da natureza, impedido de falar, pelo menos lançava uns gritos agudos que trespassavam os ouvidos de qualquer um, gritos audíveis a uma distância  considerável, mas palavras, palavras propriamente ditas, ele não era capaz de as dizer, de forma que abria as penas da cauda carregadas de profirinas e ali ficava, equilibrando o corpo azul brilhante no chão incerto e mole por causa dos aguaceiros.
A cangurua tinha três filhotes na bolsa, tão pequeninos que mal se viam, e, talvez por esse motivo, pela atenção constante que tinha que dispensar aos seus bebés, também  se mantinha em silêncio  concentrado e responsável, e para mais que nenhum daqueles dois queria conversar, o burro dormia, ou pastava, e o pavão, ora gritava, ora abria em leque a sua cauda extravagante.
Nisto, e inexplicavelmente dada a paz habitual dos seus dias de animais de quinta, os bichinhos tiveram uma belíssima surpresa. Um anjo de asas grandes e brancas desceu dos céus à terra e colocou-se entre os animais.
O burro foi o primeiro a sentir a angelical presença. Deu um zurro um pouco diferente dos habituais por não  saber como traduzir em burrês semelhante visão, mas, ainda assim, despertou a atenção  da cangurua, que ficou desconfiada da criatura, não sabendo se ela poderia interferir, e como, se para o bem se para o mal, na sua gestação.
Quanto ao pavão, simplesmente invejou a natureza bela do anjo, enquanto esperava pelo desenrolar da situação.
_Não temeis, venho por bem. A partir deste momento os animais podem falar!_
As três criaturas entreolharam-se, admiradas, mas o burro foi o primeiro que tentou a sua sorte com a nova capacidade que lhe estavam a oferecer.
_Porra! Que fixe!_ disse bem alto, ainda muito influenciado pelo som da sua voz zurrante, mas já  com grandes espectativas para a possibilidade desta nova forma de se expressar.
O anjo, ao ouvi-lo, perdeu o seu semblante pacífico  e mostrou-se bastante tenso.
_Então eu permito-te que fales e tu vais logo começar com um palavrão? Não. Isto não é boa ideia.
E assim como apareceu, eclipsou-se no ar, deixando os três sem palavras.
Com a sua visão binocular de grande alcance, o pavão viu algumas penas brancas de anjo, caídas ao lá ao fundo, ao pé da cerca e preparou-se para as ir buscar. Com o bico, apanhou-as e colocou-as em si, para ficar ainda mais bonito.
Só os três bebés canguru, talvez porque o anjo não fosse tão intransigente como quis deixar transparecer,  aprenderam, mais tarde, a falar.









segunda-feira, 30 de maio de 2022

Duas senhoras sentadas na relva de forma muito composta, conversavam sobre os filhos. Falavam de como eram amigos uns dos outros, na sua forma infantil de serem amigos.
João, que tinha por hábito observar os astros da janela do seu quarto, grandes como só na imaginação de uma criança  podem ser, vivos durante o dia limpo, resplandecentes pela presença de tanta luz, e tão próximos que mais pareciam saídos de uma ilustração, daquelas tão encantadoras que nem os olhos de um adulto resistem a tamanha suavidade, João passava horas nessa contemplação, a mãe contava como via aquela imagem estática do seu menino emoldurado pela janela, de costas para o quarto e para os brinquedos que por lá dormitavam à espera de brincar com ele, contava como não  o interrompia, ou se o fazia era apenas para lhe dar um beijo suave na têmpora e regressar rapidamente aos seus afazeres.
Roberta e Sebastião tinham outras formas, bem diversas, de se divertir, relatava a mulher loira, de costas muito direitas, enquanto depenicava uma bolacha que a outra lhe tinha oferecido.
Por vezes, caíam em queda livre,  até não se verem mais, sem medo, e depois descreviam-lhe o que tinham visto, na linguagem mais simples do mundo, igual à de todas as crianças pequenas, sem rodeios ou maus pensamentos, só a mera observação dos factos, tão límpida e honesta como só dois meninos podem ver.
Da primeira vez a senhora assustara-se horrores, achara que os perdera para sempre, mas quando regressaram, horas depois, e lhe falaram das gotas de água que caíam direitinhas ao seu lado, cada uma transportando a sua preciosidade, uma cobra enrolada, a bailarina de uma caixa de música, uma flor de #lótus de um azul muito azul, uma velhinha sentada numa cadeira branca, ou como tinham subido os primeiros degraus de uma escada que parecia não  levar a lugar algum, ou daquela gaiola tão grande, por onde se passava entre as grades, pelo menos eles, talvez uma pessoa maior não conseguisse, e de como, lá dentro, brincaram aos piratas com um urso de peluche, ou do caracol que subia a colina pintada de lápis de cor verde claro, com a chaminé  da sua casca lançando vapores de refeição cheirosa, ela nunca mais se preocupara com o assunto.
A tarde caía e as duas mulheres levantaram-se para regressar a casa. Uma delas puxou com delicadeza a manta que antes estendera para se sentarem. À medida que a dobrava, o cenário  parecia decompor-se. As cores misturaram-se, as coisas perderam a forma e foram engolidas pelo princípio da noite e pela sua escuridão, onde agora as estrelas eram muito maiores.