domingo, 1 de fevereiro de 2026

Ninguém Entre as Cortinas

 Para mim, era certo que já não vivia ninguém entre as cortinas.

Os vizinhos faziam um sorriso tolo quando os questionava. Respondiam qualquer coisa como, "então não a viu ontem, à Dona Lurdes? estivemos todos a conversar ali em frente ao café do bairro. A senhora até a cumprimentou e tudo, não se lembra? "efetivamente estivera a conversar com eles no sítio indicado, cumprimentara alguém que eles diziam estar lá, mas não estava, apenas dei dois beijos no ar para não os contrariar, já que insistiam para que falasse com alguém que eu não podia ver, mas cuja presença era, para eles, evidente. 

Portanto, quando, insisto, os questionava sobre o facto, para mim era um facto, só isso posso garantir, de, também o jardim da pequena casinha parecer abandonado, com as ervas já muito altas e as roseiras sem poda, a crescerem livremente formando formas disformes e flores selvagens misturadas entre os seus próprios abraços agressivos e picantes, dolorosos, com as envelhecidas pedras brancas sujas de vários invernos, ou de como já ninguém estava à janela, fazia uns dias, talvez até muitos, porque nem sempre tenho grande noção da exatidão do tempo a passar, ou de como o vaso da frente, o das orquídeas silenciosas estava todo ressequido e cheio de folhas velhas, a Dona Lurdes nunca deixaria o seu vaso de barro pintado de roxo todo castanho de pó e as folhas velhas, as folhas velhas também me puxaram a atenção, mais do que muitos outros pormenores, que lhes fui referindo ao longo daqueles dias, mas que me abstenho de mencionar aqui.

Os vizinhos continuavam com o seu sorriso tolo, mas ela, a mulher do casal, talvez mais atenta às minhas reações, ou talvez porque me conhecesse melhor, parecia estar menos confortável com a situação do que ao início, quando começara a tomar os seus contornos, esta coisa de eu achar que a senhora desapareceu, morreu, foi, viver para outro local, enfim, várias possibilidades existem, todavia, nenhuma delas implica a senhora ainda permanecer na sua casa e fazer a sua vida normal, por muito que me digam que falei com ela no dia anterior, ou nos dias que o antecederam.



sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Nevoeiro

E ali ficavam

retidos

todos os seus poemas

todas as suas palavras

cobrindo a serra

com os seus braços húmidos

e as suas mãos baças.


segunda-feira, 20 de outubro de 2025

Teste à Lebre e ao Coelho Fantástico

 O Coelho Fantástico era animal introvertido, mas muito valente. Já a Lebre, ao contrário, era muito extrovertida, mas muito medrosa e cagarolas, de forma que, acabaram, ao longo dos tempos, por criar uma inimizade digna de ser repescada para posterior utilização numa qualquer novela de mau gosto. quero ver agora como poderão estes dois animais recuperar o seu equilíbrio emocional, enquanto se escondem debaixo dos arbustos do quintal, à procura da solução mais eficaz para se vingarem um do outro, cada um à sua maneira, ambos tinham mais que motivo.


quinta-feira, 12 de setembro de 2024

O Gigante

 


Havia, em tempos, um gigante por aqueles lugares.

Apesar do seu tamanho enorme, raramente era avistado nas aldeias, mas, mesmo assim, aquela gente temia o seu aparecimento, pois que, e apesar de aparentemente não ser propositado, ele, muito de quando em vez, esborrachava duas ou três casas, meia dúzia de árvores, ou até uma carroça de bois que por ali andasse na sua lentidão, conduzida por algum infeliz através daqueles caminhos rudimentares.

O gigante, figura solitária e desengonçada, tinha todo o cuidado para não estragar nenhuma das pequenas construções que encontrava pelo caminho, ou pisar aqueles minúsculos seres que via no chão, correndo, desvairados assim que lhe punham os olhos em cima quando, inesperadamente, ficavam debaixo de uma enorme e compacta sombra, para, logo a seguir, se aperceberem da sua presença, Mas todo o cuidado possível se revelava escasso perante criaturas tão pequenas.

Eu, não sei porquê, talvez pela inconsciência característica das crianças, não sentia qualquer desconforto, ou receio, quando a minha mãe me chamava, já em modo de aflição de mãe que pretende a todo o custo proteger os filhos, para que nos escondêssemos debaixo de umas rochas de granito que nem a desmesurada criatura conseguiria destruir, ainda que impulsionada por um ataque de fúria qualquer.

O que eu queria, na verdade, era continuar à janela para o ver mover-se até se afastar, vagaroso, pois admirava, e também invejava, percebo agora, as suas passadas colossais sobre a terra.







quinta-feira, 21 de março de 2024

Primavera

Julieta gostava de observar. 
A culpa era da mãe, que desde sempre a mandava estender ou recolher a roupa do estendal.
Quando era muito pequena,  estava tudo tão alto que ela tinha dificuldade em lá chegar,
nem por sombras o seu corpo de criança, de membros curtos, alcançava aquela corda colocada entre duas árvores.
Arranjava estratagemas, velhas caixas e caixotes uns sobre os outros, instáveis.
Subia por duas, ou três vezes até a tarefa terminar.
Um dia, o vento tornou-se tão forte que Julieta perdeu a estabilidade. Agarrou-se à corda, sentia-se tão leve como aquela fronha de chita, ou o seu lençol, que aos seus olhos pareciam balões de festa, os pés minúsculos descolaram-se da pequena superfície redonda do caixote de rede esburacada que a sustinha, a saia inflou, do cabelo nem se fala, mal preso por uma guita sem cor, esse cabelo que se transformou em serpentes voadoras silvando sobre a sua cara de veludo, e ela ficou a balouçar, agarrada pelas mãos ao estendal, como se estivesse também presa por molas a secar.
As rajadas eram tão intensas que a torre de coisas lixo onde se equilibrava tombou e ela ficou sem modo de descer.
Ao fundo, a grande cisterna feita de pedras frias acumulava a água escura, Julieta tinha lá passado ao largo, com um balde de roupa quase maior que ela, tudo era maior que ela, tudo.
Subia não era por causa da roupa, era para ver mais de perto as flores das árvores a largarem as suas pétalas Branca de Neve, e também porque se ouviam melhor os pássaros, alguns entoavam #canções, trinavam versos escondidos atrás dos rebentos das folhas jovens.
 Julieta estava quase a cair,  porque as mãos lhe escorregavam, mas o vento parou de repente.
Julieta gostava de observar, estivesse onde estivesse.
Um tronco de  laranjeira estava a poucos centímetros, um tronco apenas, um tronco salvador. 
Seis andorinhas acabadas de chegar.
A culpa era da mãe,  que sempre a mandava estender, ou recolher a roupa do estendal.
Ela nem dera conta de ter sido socorrida pelas aves, mas, a verdade é que elas prenderam os bicos nos ombros do seu casaco e foi-lhe, então, muito fácil alcançar o ramo inalcançável da árvore.

segunda-feira, 4 de março de 2024

Jade

Jade limitava-se a olhar as flores 
persistentes 
crescendo das ranhuras do alcatrão 
à beira da estrada. 

Já três homens de colete
refletor se abeiravam do tronco
da árvore,
onde encostaram uma escada.

Um deles subiu, na vertical, 
e cortou vários ramos
daquela copa velha,
só para a tornar menos densa,
para que, 
quando açoitada pelo vento,
não tombasse e caísse no chão 
perdendo a sua majestade.

Os ninhos foram respeitados.

E Jade, 
que antes se limitava a olhar as flores
persistentes
crescendo das ranhuras do alcatrão 
à beira da estrada,
passou a estar atenta, também, 
às conversas das aves.



sábado, 24 de fevereiro de 2024

Era uma vez um bago de #arroz.
Tratava-se de um jovem bago de arroz, é verdade, mas, ainda assim, já possuía algumas memórias e bem se lembrava de estar dentro de um saco de plástico com milhões de irmãozinhos todos iguais. Iguais, não. Isso era conversa de quem nunca tinha privado com eles, porque se o fizessem perceberiam que, muito pelo contrário,  eram todos completamente diferentes.  
Mas adiante, este nosso baguinho, não se lembrava dos seus primeiros tempos de vida, agarrado à mãe, muito verdinha e elegante,  e com as raízes dentro de água, enquanto o embalava balançando ao vento, disso ele não se lembrava, era coisa já muito antiga, só tinha memória de estar no tal saco, muito aconchegado aos outros e com pouco ar para respirar, mas quentinho e feliz.
Tudo se modificou na sua vida quando a família Semedo adquiriu precisamente o pacote onde ele vivia, no supermercado. Ao princípio nem se apercebeu que estava a ser transportado, mas quando abriram o pacote e o despejaram em água a ferver, o baguinho deu conta que alguma coisa de grande relevância lhe estava a acontecer.
Primeiro, sentiu uma grande lufada de ar fresco e não lhe podem dizer que ele não viu,  porque ele viu perfeitamente, uma mulher com uma tesoura por cima dele a golpear o saco, e depois só se lembra de ter  caído em avalanche, acompanhado por mais umas  centenas de irmãozinhos, para dentro de uma panela a ferver.
Felizmente que os bagos de arroz são insensíveis à água fervente. Não lhes faz mal nenhum, eles até gostam da sensação e, no final do processo, até ficam orgulhosos do seu novo estado, muito gordinhos e a cheirar a tomate.
Como tão bem sabemos, a vida não decorre igualmente para todos, de forma que, o baguinho ao invés de ser mastigado e prosseguir o ciclo normal das coisas, ficou preso na cova de um dente de um dos membros da família, mais especificamente,  numa do tio Albano, que andava para ir ao dentista fazia um ror de tempo.
Não se pode dizer que tenha sido agradável.  Apesar de não ser má a temperatura ambiente, havia um cheiro por ali que teve muita dificuldade em suportar. 
O nosso baguinho aguentou-se estoicamente e valeu-lhe muito a pena. Ao final do dia, o tio Albano, com a ajuda de um palito, libertou-o e colocou-o em cima  da toalha que, mais tarde, a Francisca sacudiu para o quintal. 
Vieram os passarinhos, mais ou menos pelas dezoito e trinta, e debicaram o chão onde ele tinha ficado inerte e, nem meia hora depois,  projetaram-no, agora sob outra forma, na laje de pedra.
Vieram as chuvas e levaram tudo.