Dou por certo que um, ou outro de nós já passou, num dia normal, numa qualquer rua estreita e sentiu um familiar odor que lhe fez lembrar um velho tempo. Quanto a mim, são imprecisas as memórias. Não sei se teria cinco anos e estaria a observar a minha avó na cozinha preparando um cozinhado comum, ou teria sido aos doze, em casa de um amiguinho da escola, e o aroma provinha do fogão onde a sua mãe mexia compassadamente o conteúdo de uma panela ao lume, ou mesmo se esse cheiro podia ser associado a outra coisa qualquer, algo que tivesse vivido aos vinte, ou aos trinta já com as crianças pela mão. algo de muito impreciso, assim é, por vezes.
O mesmo acontece com determinadas associações de formas, ou de cores. Um tecido de pequeninas rosas vermelhas, cada uma com a sua minúscula pétala verde, camisolas de riscas largas em tons de azul, teria vinte anos, talvez dezoito, ou vinte e quatro, não importa, o que importa é a desconstrução de que a vida é o momento presente, e que não acontece mais nada para além do agora e do amanhã.
Há, nesses momentos, uma quebra da rotina, esse mecanismo prático que faz o tempo correr silenciosa e impercetívelmente, volta-se para trás muito rápido e uma simples e fugaz lembrança dá voz e volta aos anos que passaram, rigorosamente omitidos pelo calendário que usamos de mês a mês.
A extensão do tempo a revelar-se, em frações, a mostrar-se aritmética e certeira, claro, ficamos assim.
Pois agora nem sei.
Hoje é um novo dia, e neste, a inquietação parece querer, de novo, instalar-se. Tudo tem a ver com o tempo, com as nuvens velozes, com a chuva fria e morosa e a serra a manter-se inalterável, ora totalmente tapada pelo nevoeiro, ora desenhada no horizonte.
Uma colina me alberga, e vai daí que dá que dá para deitar um olho à copas das árvores bem altas.
E tantas quantas as que eu vir, vão perdurarem nos meus olhos, disso tenho a certeza, disso tenho a certeza, disso tenho a certeza.
Se me habituo a esta cadeira, terei muita dificuldade em abandoná-la, mesmo com alguma fome, ou frio, porque as putas das palavras parecem querer deslizar debaixo dos meus dedos, um fenómeno inexplicável e talvez um pouco grotesco. Que fazer?
Fico contente. O sol aventurou-se e parece querer resistir à tempestade. Grandes buracos na atmosfera, e ele a passar, sorrateiro e brilhante e em breve voltará aquela cor indefinida e indiscritível, que é, em boa verdade, aquilo mais vontade me dá de sorrir.
Meia hora depois, não compreendo ainda a ventania, mas hei-de compreendê-la, muito mais tarde. Disso tenho a certeza.
São seis da tarde de um qualquer início de fevereiro, e o céu tem uma tonalidade indefinida.
Existe um rosa vibrante, como se o insólito também se estendesse pelas cores, ou pelos tons, como se a serra, vista sob este prisma, me escondesse do mar toda a luminosidade, para eu ficar inquieta, não entendendo de onde vem tanto alaranjado, tanta coisa rósea, cuja origem o sol fraquíssimo sobre as nuvens. não me revela.
O dia, evidentemente, está a cair. Vejo aqui pelo canto do olho, onde desaparece tudo o que acabei de ver. Talvez o meu telemóvel, com a sua capacidade imensa para as cores, tivesse captado essa atmosfera irreal, talvez eu tivesse conseguido guardar aquele cenário numa fotografia, mas não quis, preferi descrevê-lo, dada a grande exigência e dificuldade que isso acarreta, todavia, vejo-me incapaz de o fazer,
dizer que é porque os meus dedos tropeçam uns nos outros não me parece desculpa aceitável.
Estou em querer que virei muitas vezes, hoje sentar-me aqui, hoje, já outro dia avança, ainda me lembro convenientemente do ocaso amarelado, das nuvens negras, soltas no ar, mas quero vê-lo outra vez, outra e outra, e nesses devaneios me perco, ficam, talvez, as palavras por arrumar, as cores dispersas.
Conheço demasiado bem esta janela para saber do que o horizonte é capaz e que nos meus olhos tornará o espanto.