quinta-feira, 18 de junho de 2026

Poema

Observo, pela janela de vidro duplo, 

ligeiramente entreaberta, 

a inclinação do terreno e os telhados alinhados 

pela rua abaixo.

Poderá parecer forçado, 

para caber no poema, 

para ficar bonito, 

mas não é disso que se trata.

Existem mesmo, de facto, 

pedras cor de rosa a cobrir parte do chão.

Ao fundo,

nem sei de que fundo eu falo, 

reparo na sombra sofisticada de uma figueira do inferno.

Será que, finalmente, 

consegui a visão correta das coisas? 

Eu, antes, não era assim.

Lá fora, que pássaro estranho será, 

e inconveniente, convenhamos, 

enigmático também, 

caso se trate de um pássaro, não sei, 

não tem cristais na melodia, 

é rouco como a morte que nos leva a todos.

Calem-se, cães! 

Será melhor fechar a janela?

Permitam-me que recorde outros mundos, 

por favor!

Num outro tempo que não este, eu era diferente. 

Era filha de uma rajada de vento 

e os plátanos eram grandes mães protetoras sobre mim. 

De forma que, quando os abatiam, 

conseguiam humedecer os meus olhos, 

e eu procurava, de imediato, 

refúgio num qualquer jardim sombrio. 

Nunca mais passaria o Barão Trepador por ali.