quarta-feira, 15 de junho de 2022

Vou #arriscar o relato do que se passava naquela vila, perdida numa planície sem fim.
Era verão e os insetos moviam-se com mil movimentos de asa, sobre as flores, com a terra a perder de vista, de ervas rasteiras e secas, não havia qualquer ruído na amosfera, havia sim  calor e muita luz.
As abelhas, pretas e amarelas, eram as raínhas das flores, das escassas flores que pendiam dos suportes presos aos beirais. 
Havia um regador, sem mãos que lhe tocassem, ou qualquer outro sistema controlo à distância, que se inclinava sózinho para verter a água nos canteiros e, como que por magia, a sua água era inesgotável.
Era de plástico verde e guardava-se sózinho numa despensa vazia sempre que terminava a importante tarefa de regar.
Os gatos dormiam a sesta, alheados do silêncio  que envolvia a atmosfera quente.
As abelhas, naturalmente, iam deixando o aroma do polén no ar por onde passavam, não  sei, disso não me lembro, sei que entravam e saíam pela janelas danificadas, brilhavam entre os rasgos iluminados dos raios de sol imperturbável  e geométrico, nas casas do casario sem ninguém,  de edificações muito baixas e de telhados desarranjados.
No mesmo  alpendre das flores eternas, balançava uma cadeira de baloiço, e balançava sem a existência de vento ou outra similar força dinamizadora de  movimento.
Balouçava como um suicida, cuja existência, por obra de um destino cruel, deixou de lhe fazer sentido, ou como um fantasma do passado ou como outro alguém inexistente.






sexta-feira, 10 de junho de 2022

Uma Zoeira Nos Ouvidos



Para mim
alguns  poemas são
fortes como  fortalezas,
resistentes, mas,
mesmo esses,
tombam, por vezes,
quando alcançados
pelos projéteis de uma
guerra
ou quando consumidos
pela erosão do tempo,
ou, ou, ou
quando têm fome.


(Se, de facto, assim for,
é imperativa
a recontrução
mirabolante 
dos destroços magoados, 
das letras soltas 
caídas.)

Os poemas, são
palavras em fio, 
ou em torrente,
ou ainda,
palavras por dizer
retidas atrás das cordas
vocais.


São gotas escritas
pela chuva,
gotas essas
que vou buscar
para que não desapareçam,
para que permaneçam 


um pouco mais
do que os segundos
da sua curta vida
balançando nas pontas
das folhas 
até à queda fatal.


Os poemas
também estão nos botões de flor,
fortes e resistentes,
até 
nas casas caídas,
ou na imponência das enormes
pedras, perdidas no chão,
sufocadas pelas hastes 
enrodilhadas
de pétalas vivas.
por onde o sol atravessa
tornando-as, imagine-se,
transparentes.

Por  certo que na chuva,
que pinga, 
vejo tudo onde
porventura nada está,
mas não posso deixar de 
reparar.



sexta-feira, 3 de junho de 2022

Era uma vez um burro, um pavão e uma cangurua que viviam na mesma quinta.
O burro entretinha-se,  pelo dia fora, a dormitar em silêncio. Viam-se-lhe os olhos pestanudos a esmorecer, até quase fecharem. De quando em vez lá  se lembrava de pastar um pouco, e então dobrava o pescoço no sentido descendente e enfiava o focinho na erva fresca. De resto, nem uma palavra, só zurros quando se lhe prendiam nas voltas do intestino algumas palhas fibrosas, mal escolhidas da terra e inadequadas à sua dieta.
Por sua vez, o pavão, embora estivesse, por força dos mandamentos da natureza, impedido de falar, pelo menos lançava uns gritos agudos que trespassavam os ouvidos de qualquer um, gritos audíveis a uma distância  considerável, mas palavras, palavras propriamente ditas, ele não era capaz de as dizer, de forma que abria as penas da cauda carregadas de profirinas e ali ficava, equilibrando o corpo azul brilhante no chão incerto e mole por causa dos aguaceiros.
A cangurua tinha três filhotes na bolsa, tão pequeninos que mal se viam, e, talvez por esse motivo, pela atenção constante que tinha que dispensar aos seus bebés, também  se mantinha em silêncio  concentrado e responsável, e para mais que nenhum daqueles dois queria conversar, o burro dormia, ou pastava, e o pavão, ora gritava, ora abria em leque a sua cauda extravagante.
Nisto, e inexplicavelmente dada a paz habitual dos seus dias de animais de quinta, os bichinhos tiveram uma belíssima surpresa. Um anjo de asas grandes e brancas desceu dos céus à terra e colocou-se entre os animais.
O burro foi o primeiro a sentir a angelical presença. Deu um zurro um pouco diferente dos habituais por não  saber como traduzir em burrês semelhante visão, mas, ainda assim, despertou a atenção  da cangurua, que ficou desconfiada da criatura, não sabendo se ela poderia interferir, e como, se para o bem se para o mal, na sua gestação.
Quanto ao pavão, simplesmente invejou a natureza bela do anjo, enquanto esperava pelo desenrolar da situação.
_Não temeis, venho por bem. A partir deste momento os animais podem falar!_
As três criaturas entreolharam-se, admiradas, mas o burro foi o primeiro que tentou a sua sorte com a nova capacidade que lhe estavam a oferecer.
_Porra! Que fixe!_ disse bem alto, ainda muito influenciado pelo som da sua voz zurrante, mas já  com grandes espectativas para a possibilidade desta nova forma de se expressar.
O anjo, ao ouvi-lo, perdeu o seu semblante pacífico  e mostrou-se bastante tenso.
_Então eu permito-te que fales e tu vais logo começar com um palavrão? Não. Isto não é boa ideia.
E assim como apareceu, eclipsou-se no ar, deixando os três sem palavras.
Com a sua visão binocular de grande alcance, o pavão viu algumas penas brancas de anjo, caídas ao lá ao fundo, ao pé da cerca e preparou-se para as ir buscar. Com o bico, apanhou-as e colocou-as em si, para ficar ainda mais bonito.
Só os três bebés canguru, talvez porque o anjo não fosse tão intransigente como quis deixar transparecer,  aprenderam, mais tarde, a falar.









segunda-feira, 30 de maio de 2022

Duas senhoras sentadas na relva de forma muito composta, conversavam sobre os filhos. Falavam de como eram amigos uns dos outros, na sua forma infantil de serem amigos.
João, que tinha por hábito observar os astros da janela do seu quarto, grandes como só na imaginação de uma criança  podem ser, vivos durante o dia limpo, resplandecentes pela presença de tanta luz, e tão próximos que mais pareciam saídos de uma ilustração, daquelas tão encantadoras que nem os olhos de um adulto resistem a tamanha suavidade, João passava horas nessa contemplação, a mãe contava como via aquela imagem estática do seu menino emoldurado pela janela, de costas para o quarto e para os brinquedos que por lá dormitavam à espera de brincar com ele, contava como não  o interrompia, ou se o fazia era apenas para lhe dar um beijo suave na têmpora e regressar rapidamente aos seus afazeres.
Roberta e Sebastião tinham outras formas, bem diversas, de se divertir, relatava a mulher loira, de costas muito direitas, enquanto depenicava uma bolacha que a outra lhe tinha oferecido.
Por vezes, caíam em queda livre,  até não se verem mais, sem medo, e depois descreviam-lhe o que tinham visto, na linguagem mais simples do mundo, igual à de todas as crianças pequenas, sem rodeios ou maus pensamentos, só a mera observação dos factos, tão límpida e honesta como só dois meninos podem ver.
Da primeira vez a senhora assustara-se horrores, achara que os perdera para sempre, mas quando regressaram, horas depois, e lhe falaram das gotas de água que caíam direitinhas ao seu lado, cada uma transportando a sua preciosidade, uma cobra enrolada, a bailarina de uma caixa de música, uma flor de #lótus de um azul muito azul, uma velhinha sentada numa cadeira branca, ou como tinham subido os primeiros degraus de uma escada que parecia não  levar a lugar algum, ou daquela gaiola tão grande, por onde se passava entre as grades, pelo menos eles, talvez uma pessoa maior não conseguisse, e de como, lá dentro, brincaram aos piratas com um urso de peluche, ou do caracol que subia a colina pintada de lápis de cor verde claro, com a chaminé  da sua casca lançando vapores de refeição cheirosa, ela nunca mais se preocupara com o assunto.
A tarde caía e as duas mulheres levantaram-se para regressar a casa. Uma delas puxou com delicadeza a manta que antes estendera para se sentarem. À medida que a dobrava, o cenário  parecia decompor-se. As cores misturaram-se, as coisas perderam a forma e foram engolidas pelo princípio da noite e pela sua escuridão, onde agora as estrelas eram muito maiores.



 

domingo, 29 de maio de 2022

Yoko

Lá vens tu, ó flor, 
pela atmosfera acima
ocupando espaço
nessa tua 
indolência 
enquanto na praia
uma rocha pode estar
em risco
de cair.

Tu que adoras o sol 
empenhado 
vês-te incapaz de evitar 
um dia 
escuro,
essa é a verdade.

A família acordou
vezes sem conta
enquanto a hera
ia comendo a casa 
lentamente.

Quanto a mim,
eu tinha quatro folhas 
em papel de prosa
mas a porta rangeu
por causa do efeito do
silêncio 
e o poema entrou em grande
velocidade 
com o seu ruído habitual.

O poema 
que era o projeto de 
atear o fogo
antes que morresse
lentamente,
ó tu, que adoras o sol.

quarta-feira, 25 de maio de 2022

Entre a porta e a o chão
fica o espaço  razoável 
de uma falha 
com um centímetro de altura.
Por lá, 
entra o vento vindo da rua.

Se o vento vem da rua, 
traz com ele 
a agitação dos carros, 
o nervosismo dos transeuntes, 
ou alguma sombra esquiva
que viu desaparecer numa esquina.

Parece-me que...
entra o vento a toda a velocidade...

Então paro eu.
Dedico-me à observação 
do vagaroso crescimento das flores,
ao vôo da abelha,
que todos os dias, sem falta, 
vem buscar o seu quinhão de 
rosmaninho, 
todos os dias, sem falta...

Daqui,
vejo os automóveis 
que atravessam o rio, 
um rio que passa debaixo da estrada,
pela qual os automóveis circulam, 
nem sabem eles o que têm sob os pés,
sob as botas, sob o carro...

Sobre...
sobre um caudal de água 
que passa debaixo do asfalto.

Lá  vem a flor, 
vagueando pela atmosfera acima
ocupando o seu espaço indolente.

Ponho-me à escuta...
O vento parou.



terça-feira, 17 de maio de 2022

Zarpar

Não havia visitante que não se encantasse com a ilha de #Zarpar.
Por muito viajado que fosse, ou mesmo que a sua terra natal estivesse entre as mais belas do mundo, aquela ilha tinha algo de diferente, e de tão deslumbrante que eu própria, habituada a criar cenários imaginados, onde não há  limites para a beleza das coisas, me senti maravilhada.
Estávamos do lado das rochas alaranjadas e era por grandes buracos nelas existentes, todos perfeitamente circulares, que se observava a aldeia inclinada, de casinhas com tetos coloridos, incrustadas na falésia que parecia ter sido escavada para o efeito.
Um braço de mar brilhante separava-me do casario, e o sol, embora presente em todos os reflexos, apenas se adivinhava, não se deixando ver.
A humidade salgada entrava-me na pele, enquanto subia e descia, com os pés descalços as saliências dos rochedos, na ânsia de espreitar o encanto por todos os ângulos possíveis, por todos os enormes  olhos redondos que as pedras me ofereciam, em miradouros naturais causados pela erosão do mar.
Talvez fosse, não sei, um fim de dia, nas suas horas de ouro, ou um tempo inexistente. Em boa verdade e sem quaisquer mentiras, foi o que hoje sonhei.