terça-feira, 5 de julho de 2022

Um Tornozelo Atrasado.

Quando a idade o atingiu, já como um peso pesado nas costas, nos braços, nos tornozelos, Jacinto criou o estranho hábito de vasculhar o lixo.
Tudo começara num fim de tarde em que fora despejar o seu, gostava de o fazer na frescura daquela hora, quando todos já  se encontravam recolhidos nas suas casas e na azáfama do jantar, e também era bom porque acabava por dar algum movimento ao corpo, para ele não  se dasabituar.
Vira, ao abrir o caixote carregando o pé no pedal, um saco com velhos brinquedos sem préstimo, e achara graça ao marinheiro sem um olho, a dois cubos coloridos e inúteis, um vermelho e o outro amarelo, tão amarelo que lembrava as matizes do fogo, uma cor que valia a pena preservar.
A partir desse dia, sempre que lhe era possível, evitava fazê-lo se estivesse alguém  a passar, por exemplo, ou não  arranjasse justificação  que dar a si mesmo para se dirigir aos caixotes, Jacinto agravessava a estrada e caminhava o resto do passeio até lá chegar. Depois levantava, com a ajuda do pé direito, a grande tampa verde, e espreitava, com olhos perspicazes, os sacos e saquinhos que lá  estavam dentro. 
Um saleiro substituído, uma colher de pau, uma lista de compras, "cebolas, manteiga, leite..."
Por vezes, quando chegava e havia espaço na mesa da cozinha, o homem admirava os obectos que acabara de expor para si mesmo, olhava-os como troféus, mas se chegasse cansado dos degraus imensos até ao segundo andar, ou o tampo de madeira transbordasse de coisas, deixava por ali o que recuperara, assim, tal e qual vinham da rua, dentro do plástico desbotado do saco azul.
Eu via o homem, daqui da janela, sem que ele se apercebesse.
Olhava-o com a curiosidade com que olho para toda a gente, via-o nos seus processos difíceis de remexer o que estava no lixo e de lá sacar o que julgava fazer-lhe proveito, e levar.
Dias depois, voltava a acontecer e eu olhava, com um ombro encostado à esquina da parede e com a atenção de sempre.











domingo, 3 de julho de 2022

O rapaz divertia-se a ver como atuavam as três luas, projetando o seu corpo no chão.
Observava o seu próprio movimento através das sombras escuras que partiam dos seus pés. A maior e mais sombria prolongava-se pela terra redonda até  não se ver mais. As outras acabavam logo ali, uns míseros metros à frente. Se acenava um pouco com uma das mãos, logo elas se movimentavam, as três mãos direitas, mais ou menos ampliadas, conforme a distância e a inclinação.
A miúda chegou  e olhou-o por alguns segundos. Percebeu, sem haver necessidade de pronunciar quaisquer palavras, o que ele ali fazia, virou-se ligeiramente e impulsionou o corpo para se sentar ao seu lado.
Após sentada, ajeitou-se um pouco, para o equilíbrio ser perfeito, fixou as mãos nas  pedras e encostou, como ele, os calcanhares às reentrâncias do muro.
E assim ficaram, ligeiramente inclinados para a frente, sem falar. 
A dimensão  dos seus corpos vazios e escuros bailava no terreno plano, ao som do silêncio dos sítios por onde não passa ninguém,  era a  água que corria rio abaixo, onde peixes prateados dormiam nos cantos das lagoas ao fundo, cobertas de flores de lótus.
Havia três sombras de salgueiro na superfície do espelho que formava o caudal do rio, esse caudal que depois se  alongava na foz em vários braços. 
Mantiveram-se quietos até que  se cansaram de  dançar no chão,  o que aconteceu logo assim que nasceu o sol. Um sol, apenas um, para um luar de três luas, que lhes  agitou  um sonho, fazendo com que se esfumasse  das suas memórias. 






domingo, 26 de junho de 2022

#Lazer

A chuva pintou a cidade de azul.

A água era imensa,
mas coube toda no chão,
preencheu o abatimento
e as depressões dos velhos passeios,
e era tão transparente
que refletiu a iluminação  das montras
que vibrava
escondida no nevoeiro.

Aquela cidade, que era azul, 
também,
quando havia sol por causa 
do céu imenso e do rio.

Mas, então, caíu
a noite triste sobre ela, 
a chuva parou de tal forma 
que só os galhos e troncos
caídos no passeio 
e o outono ensopado nas poças
eram vestígios do temporal. 

A noite aquietou as sombras 
que antes se moviam no vento. 

A água coube toda no chão, 
mesmo a que pingava das caleiras
a que tombava das folhas das árvores, 
ou a que descia com elas 
pousando no asfalto sem cor.

Era a cidade azul, por muito verde
que houvesse nas copas das árvores   
ou as telhas fossem vermelhas, 
caíu a noite.

sábado, 25 de junho de 2022

Para #XS

Uma das minhas avós era tão pequenininha que mal se via.
Nem dava para lhe lavar a roupa na máquina porque passava pelos filtros e ia entupir os canos, de forma que tudo tinha de ser lavado à mão.
Mas isso nem era o pior. O pior é que às vezes não conseguíamos encontrá-la, lá em casa havia o material adequado, lupas, binóculos, e até um telescópio comprámos, mas, mesmo assim, a senhora desaparecia muito e era difícil de encontrar.
Uma ocasião até foi parar ao caixote do lixo, misturada com as cascas de batata.
Um dia, desses fatídicos em que já desesperávamos pensando que daquela vez é que a tínhamos perdido para sempre, fomos encontrá-la numa alface, que era, aliás, um sítio habitual, não sei como ninguém se lembrou, já que a senhora aproveitava este adequadíssimo legume como toilette, foi até o meu filho, o seu neto predileto, diga-se em abono da verdade, que se lembrou disso, e muito bem visto, concordo, pois que lá tinha tudo, grandes gotículas de água para os seus banhos e a sua higiene pessoal, podia fazer as necessidades à vontade, já que quem prepara saladas amiúde bem sabe que há sempre uma ou outra caganita de lesma, ora quem lava de uns, lava de outros, não custa nada, e, realmente, como dizia, lá estava ela, já dentro de um alguidarzinho a tentar subir por aquele material escorregadio, sem conseguir.
O Asdrúbal, que é muito traquinas, o meu sobrinho, filho do Alcides, agarrou no recipiente, viu a avó, e não, não acredito que tenha sido por maldade, foi por ingenuidade, talvez, abriu a torneira no máximo para a ver rodopiar com a água só com a cabecinha minúscula à tona d' água.
Ele é bom rapazito, eu sei. Quando se apercebeu da palidez da senhora, retirou-a imediatamente, agarrou-a pelos pézinhos e sacudiu-a para que expelisse todo o líquido dos pulmões, já por este gesto se vê.
É complicado quando se tem uma bisavó #XS.

Rosas

Uma grande ramada de roseira 
brava
carregada de rosas rosa estava 
vai não vai para se partir
e encher de rosas rosa um pedaço 
de chão. 

Enquanto a chuva não  viesse,
ou não  pisassem as crianças
aquela parcela de relva 
proibida, 
a silhueta perfeita 
e delicada das flores
manter-se-ia, 
e avivariam tudo  em redor.

Era um tapete só para olhar
de pétalas sobre o verde,
mas assim que estivesse tudo 
ensopado,
não  sei, não...


quinta-feira, 23 de junho de 2022

Mal seria se eu não  tivesse alguém  das minhas relações  com o apelido #IOC.
Pois é, o meu amigo Eugénio é precisamente de quem vou falar, embora não  haja muito a dizer, porque o Eugénio é  uma pessoa pesfeitamente vulgar, dessas incógnitas que andam por aí aos biliões.
Durante a semana, vai para o emprego, pelas oito e trinta, para chagar lá  às nove se não  houver nenhum imprevisto, faz o seu trabalhinho descansadamente, e volta para casa ao fim do dia.
Em casa já  costumam estar a mulher com a filha nos braços, e ele pergunta-lhe sempre se ela precisa de ajuda nas suas coisas, e lá  vai, solícito, perguntar o que há, então,  para fazer.
Recebe uma ou outra tarefa, que executa com perfeição, e acabam por jantar ao mesmo tempo que alimentam a criança.
No dia seguinte, o mesmo acontecerá, até  ao fim de semana em que combinamos qualquer coisa, para desanuviarmos todos, das nossas vidas repetitivas.
O seu apelido é muito antigo, isso eu sei, vem de lá  dos países a norte, ainda quando ainda era Thor a dominar os países da branca neve.
Eugénio contou-me a sua história, porque eu, sem qualquer intenção, apanhei-o comer cubos de gelo diretamente do frigorífico. Algo me tinha chamado a atenção  ao passar pela porta da cozinha, ainda hoje estou para saber porque tive aquela intuição, continuo sem fazer ideia, a verdade é que entrei, sem medos, e lá  estava ele, de feições  transtornadas e todo molhado a devorar o gelo que eu precisava para as bebidas.
_Eugénio, o que se passa contigo, meu bom amigo?_ perguntei, genuinamente interessada. 
E foi nessa altura que ele me contou tudo.
Quanto a mim, que sei agora mais uma história  digna de ser escrita, a destes seus infelizmente, prometi não o fazer e quanto a ele, nada a dizer, nem aud


terça-feira, 21 de junho de 2022

Dinossáurio

#Dinossáurio colocou-se atrás da última pessoa  na fila que se formara para entrar no autocarro.
 Pisou os degraus devagar,  respeitando a ordem criada, e subiu lá para dentro como constituinte daquela serpente domesticada, mas, para ele, o tempo não batia certo porque demorava, ora uns segundos demais, ora um tempo de menos, sem haver a sincronia essencial para que se adaptasse à recente condição de estranho no meio de desconhecidos.
 Passou pela máquina, introduziu o bilhete no obliterador e sentou-se assim que pôde num lugar à janela, para se refugiar na paisagem exterior e assim não ter de enfrentar ninguém.
 Dali, ia vendo a cidade que se movia movia através dos transeuntes, dos sinais inventados para o trânsito fluir nos cruzamentos, evitando assim os acidentes, através das montras tapadas pelos toldos onde, às vezes, se protegiam do sol crianças de mãos dadas com as suas mães protetoras, todos tão longe e distraídos  na sua azáfama diária que nem davam por ele.
Entraram e saíram umas quantas pessoas da viatura.
 Dinossáurio, o tímido, estava quase a chegar ao seu destino. Teria que se levantar, caminhar até ao varão metálico mais próximo onde se agarrasse e que contivesse, também, um aviso de stop para ele premir, dando a indicação necessária ao motorista para acionar a abertura da porta,  e então a campaínha soaria muito alta, e os passageiros, atentos, dariam pela sua presença, teria que suportar os olhares durante os oito passos infinitos até  atravessar a porta automática e sair para o ar livre. Aquele som seria fatal, chamaria a atenção de todos e a janela estaria longe para que pudesse refugiar-se nas suas características de fronteira transparente onde colasse a testa para ver através do vidro. Iria ficar exposto como se estivesse nú. 
 Levantou-se com constrangimento. Só lhe restaria o chão  para observar, assim houvesse chão  até ao final do acesso à porta para a liberdade.
Acabara o seu caminho habitual,  de quatro paragens.
 Ergueu-se do acento perseguido pela culpa, a culpa grande, a maior de todas.
 Tinha ruídos de eletrocoisas nos ouvidos, enquanto houvesse sol, havia barulho, audiomotores, ciclopneus a raspar no asfalto e gritos de sirenes, comboios violentos atravessados nos passos das vidas das pessoas.
 A mulher velha de vestido verde fixou a mão do homem a dirigir-se ao botão  de stop, percebeu-lhe o braço a descolar do corpo, esse braço a inventá-lo muito maior do que podia, ou queria, alguma vez ter sido, aumentando-lhe o perímetro da existência assustadora e gigante.