quinta-feira, 30 de agosto de 2018

No tempo dos #postais_de_férias

Naquele tempo,
quando descíamos
ao  rio,
ao fim do dia,
passávamos
pelo "arco das flores".

Atravessávamos o pátio,
em pedra polida,
ainda quente,
e entrávamos no "túnel
das roseiras bravas"
que trepavam.

E quando acabava
"o arco das flores",
como lhe chamávamos,
seguíamos por um
estreito carreiro
de terra inclinada.

.
(E pelo caminho
havia
macieiras,
das verdadeiras,
a perfumar.)

Depois, ali
ficávamos,
sentados;
a ouvir
o murmúrio
do seu caudal,
vagaroso.


O tempo, às vezes,
voava,
como se fosse breve,
e a noite
surpreendía-nos,
rápida
e eficaz,
e, intencionalmente,
refletia
os nossos olhos
nas estrelas,
e deformava
a lua,
com os movimentos
ondulatórios
da água.





Nunca um #postal_de_férias

Era compulsivo.
Fugindo da luz
e dos falsos desígnios.
O quê? Voltas à cabeça,
introspetivas, pois é,
para saber porquê
quando é inexplicável.
o poema.

O poema é inexplicável.
Não é nada.
Aparentemente zero.

Mas de repente,
eis senão quando
num momento de envolvência
total, o senti,
abstração distração,
tentando nascer, digamos.

Ainda esbracejou
teve tempo para...,
mas acabou
esparramado aqui
no virtuoso da página.

Disforme, o merdoso.
Completamente disforme.

 Ainda nem era ninguém,
só um toque de claridade.

E o que é
"um toque de claridade"?
Não é nada, o merdoso.
Deformou-se todo
ao cair do cabelo odioso.


Misterioso e inexplicável.
ainda não era nada
ainda nem tinha nascido,
pasteloso e arrogante.

Estatelou-se ao comprido
mas não deixava de gritar,
o vaidoso,
que existia verdadeiramente
quer eu quisesse, ou não...,
mesmo que durasse
só por uns segundos.
















quarta-feira, 29 de agosto de 2018

Um #postal_de_férias do Além


 Não tocar, nem ao de leve, com os pés no chão, requeria muita habilidade, tinha uma ciência muito especial.
A primeira vez que lhe aconteceu, estava deitado, de olhos fechados.
O filho pegou-lhe na mão, balbuciou qualquer coisa próximo do seu ouvido direito, mas que ele não percebeu.
Sentiu uma pancada forte, "Pai...?", ouviu como se estivesse nuito longe.
Com uma espécie de dor acompanhada de um ruído seco e rápido,  a sua alma separou-se do corpo e bateu de chapa, com violência, no teto da enfermaria.
Depois, tudo voltou ao normal.
Acordou frouxamente, respondeu ao  que o rapaz lhe perguntava, com dois ou três monossílabos, só para garantir a si próprio que estava vivo, viu-lhe o sorriso jovem, e fechou os olhos. fingindo adormecer.
No outro dia, voltou a sofrer a mesma metamorfose.
Foi perdendo a audição, deu pelas batidas cardíacas em modo pausa, talvez umas trinta ou quarenta por segundo, não mais, e um arrebatamento estranho levou-o, em  fantasma, para lá da sua existência carnal.
Foi-lhe mais fácil, desta vez, dominar a bestialidade do impacto, e os movimentos   voláteis do seu espírito no ar.
Não se atordoou  e ainda conseguiu pairar uns segundos, observando, do alto, o seu próprio corpo deitado na cama, os que estavam sentados em redor, e a mulher, que dava um jeito na mesa de cabeceira.
Com o decorrer dos dias, foi-se  adaptando, com inteligência, áqueles voos disparatados e invulgares, e, uma semana depois, dominava inteiramente a arte de pairar sobre as coisas.
Por isso não estranhou quando  verificou o seu próprio desaparecimento, e no seu lugar puseram um outro completamente diferente e desconhecido, muito embora colocado exatamente na mesma posição.



terça-feira, 28 de agosto de 2018

Quase um #postal_de_férias

Fazia dias que se sentava na sua mesa de trabalho, sentava-se na respetiva cadeira, evidentemente, para bom entendedor meia palavra basta, não é preciso dar-mos sempre às palavras, ou às frases, o seu exato significado, mas dizia, sentava-se, olhava para dentro de si , com a esperança de ver alguma história nova a passar pelos caminhos habituais,  por entre as células cinzentas do cérebro, ou por vezes, em reentrâncias menos óbvias, trilhos situados, quem imaginaria, nos músculos dos olhos azuis,  nunca utilizo a designação "estória", embirro, muito por culpa da Carochinha, mas já me vou perdendo outra vez, contava eu, que ele se sentava, com algum entusiasmo, era um entusiasta, para caçar uma narrativa qualquer, um ambiente novo com criaturas acabadinhas de cozinhar, saindo do forno, suculentas, era só necessária  a paciência de esperar um pouco por estarem demasiado quentes, mas valia a pena a espera porque ficavam doces e estaladiças, meus deuses, perdi novamente o fio à meada, a dura verdade é que não acontecia nada na sua cabeça, apenas rodavam colagens de filmes e livros já existentes.
Foi então que se lembrou, teve uma epifânea, uma epitáfia, um epigástrica qualquer, pensou que podia, talvez, ser ele o personagem principal, reinventado, ou até um dos secundários, bem sabemos que, não raramente, são eles que nos ocupam grande parte da memória.


domingo, 26 de agosto de 2018

Quase um #postal_de_férias

A velha questão do espaço
e a nova questão do tempo
renovável,
obrigavam ao repouso do corpo
enfraquecido,
Tantos pequenos delitos.
Ouvir  música música,
quando o silêncio atordoa.

Se tudo fosse demais
ia dar um passeio.

Naquele dia
desorganizou-se propositadamente,
vestiu o seu mais bonito casaco,
com grandes quadrados azuis
e amarelos,
a saia amarela do mesmo tom,
a condizer na perfeição.

Ao abrir a porta do quarto,
para se despedir
desnecessariamente
da poeira,
deparou com a boneca
jazendo no chão, desativada,
com as articulações rudimentares,
em muito mau estado.
Pressentiam-se as cabeças
dos parafusos invisíveis
unindo as partes,
Um dos seus cotovelos
formava um ângulo impossível
e desajustado
em relação ao conjunto
das pernas e dos braços.

Olha o lobo de pelo branco,
mais um enigma
que lhe vigiava os movimentos
do alto da prateleira.

Saíu.

Sobressaía das ervas secas
por causa do seu movimento
pendular.
A imagem não permitia ver
nem um pouco do tom plástico
da sua pele,
mas era uma mulher gorda,
que,
a cada passo tombava
para um dos lados,
perturbando o eco sistema.
Entre o seu corpo denso
e a leveza da paisagem
havia um enorme contraste.

E afastava-se.
Estava cada vez mais longe.

Os seus olhos desumanos
tinham a capacidade
de não fixar qualquer ponto.

Aquilo nem era cabelo,
mas sim uma peruca artificial,
como a dos palhaços,
de cor viva.

Uma hora depois
estava de volta,
e atirava, aliviada,
o casaco e as chaves
para cima da cadeira.

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

Viver no Campo

No sopé de um pequeno monte sem importância relevante, existia uma quinta que, apesar de parecer um espaço em tudo idêntico a outros espaços daquela natureza, era, afinal, um pouco diferente.
Lá, os animais pareciam ter saído de uma qualquer ilustração infantil.
Havia um  porco  muito cor de rosa, que andava apoiado nas patas traseiras, tinha sempre um sorriso nos lábios, um pequeno chapéu de coco, e não chafurdava na lama.
Estava sempre muito luzidio, como se tomasse banho todos os dias com um gel específico para porcos da sua faixa etária.
Também o gato riscado, que por lá vivia, era pintado de umas riscas com um absurdo contraste entre o cinzento e o amarelo, e não atacava a capoeira para matar as galinhas.
Os animais eram, aliás, todos grandes amigos, e, simplesmente  não existiam aquelas rudes pessoas do campo, que algum dia, eventualmente, lhes poderiam fazer mal. dentro dos limites que estipulava a cerca de madeira, muito benfeitinha, em dois tons de castanho.
Naquele lugar, até os insetos era felizes, não havia pragas de vespas, nem de nada, o criador, fosse lá quem fosse, tinha optado  pela existência de apenas uma criatura com asas desta natureza.
Era a Gertrudes, que acompanhava em longos passeios um gafanhoto conhecido apenas por "Pô", apesar de o seu verdadeiro nome ser "#Postal_de_Férias, designado assim talvez um pouco por causa da dificuldade que alguns animais demonstram em falar, nomeadamente quando se trata do português, dada a complexidade da língua.
Só o papagaio Pacholas, muito seguro de si, o conseguia pronunciar. E muito bem, "postal de férias, postal de férias", repetia sem se cansar.
Um dia, estando em alegre convivência todos sentados na relva de tom artificial, cada um à sua maneira, o peso da vaca malhada e as suas pestanas sensuais, percebiam-se pelos traços a preto, que o desenhador produziu inclinando a caneta, deu-se o mais espantoso dos acontecimentos.
Tão bem que se estava no campo, debaixo de uma buganvília, quando começou a chover chuva verdadeira, imagine-se, primeiro em gotas dispersas, duas ou três acertaram nos cornos da cabra Lindinha, que logo se desfizeram, depois foi a vez do cão Simão ser atingido, ficou sem a bonita cauda peluda, até que caíu violentamente, misturando todas as cores.
E à medida que a água ensopava a maioria das folhas,  foi-se a vaca, foi-se o porco, o gafanhoto, e o outros, todos mortos, jazendo numa grande mancha lilás, como se nunca tivessem existido, mesmo que apenas enquanto personagens duma historiazinha impensável e, cá para mim, até um bocado esquisita.












domingo, 19 de agosto de 2018

Pode ser um #postal_de_férias

Faz meia hora que fala, narrando divinamente a sua história.
Nem tanto pelas palavras, mas talvez pelos gestos elegantes que vão acompanhando o discurso.
As mãos vivas, as expressões do rosto selvagem, os olhos húmidos, acossados, como um veado que espreita por entre as folhas.
Observo-lhe os gestos entrosados uns nos outros, o discurso brilhante e inspirador, consigo ver o seu azul inexistente e verde,  a coincidir com o azul do mar, o azul  do nosso mar desigual.

Faz meia hora que fala.
Apoia os cotovelos no parapeito líquido, enquanto eu passo os olhos pelas variadíssimas linhas do horizonte incompreensível, e a vou imaginando  a beber de tudo o que existe para beber de  doce, nos rios que correm por fendas sublimes da mãe terra, muito embora, digam o que disserem,  bastante assustadoras,  e nos lagos de águas paradas e fundas.
E prossegue falando, mas eu sei, sou testemunha, que para falar tão bem, já  escreveu oceanos e já moveu montanhas, já lhes mergulhou no fundo, daí a beleza expontânea com que destraça a perna.

Aproveita as cores do outono, e a chuva gelada do inverno, tudo se aproveita, diz-me, com os  seus olhos mornos, como se baixasse o pescoço para beber, equilibrando-se  apenas nas patas dianteiras, e visse o seu rosto ondulado, no ondulado das águas meigas.
E continua, contando  e escrevendo, e eu vou passando os olhos, calmamente, pelas linhas, como se ela fosse um veado que fala, que conta, que escreve, ou uma rocha que aquece, que escalda sob o calor do verão, ou, simplesmente, mais uma pequena parvoíce das minhas.