segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Setembro

Com a mão em concha apanhou uma folha de setembro, que circulava na água, devagar.
Em breve.

de vez em quando, mais, se calhar, do que seria conveniente, ligo o modo palhaço. É uma opção pouco popular, até se nota nos comandos muito usados pelas pessoas, que a tecla está menos gasta.


Quando não me lembro dos meses que têm trinta ou trinta e um dias, digo cá para os meus botões uma lengalenga:

Trinta dias tem
novembro, abril
junho e #setembro.

Nunca quis aprender aquela ceninha que se faz com os nós dos dedos.
Irrita-me, não sei porquê..., mas atenção, tenho grandes amigos que fazem isso a toda a hora, e não me chateia.
Até acho graça. Pergunto assim, do nada, "Quantos dias tem setembro"
E peço, educadamente: Faz lá aquela ceninha com os nós dos dedos...!"
Depois, depende do tipo de pessoa com que estou a falar.
Uns, começam num desatino, sem parar, é preciso desligá-los no interruptor que têm nas costas, e deixá-los arrefecer um bocado. Outros recusam-se e até se aborrecem comigo.
Mal educados, alguns.
Enfim, há de tudo um pouco.


domingo, 16 de setembro de 2018

#Risco



Aquele homem, o único habitante lunar conhecido, o velho com um saco  às costas que qualquer pessoa pode observar de cá de baixo da terra,  usa um penteado ridículo.
Sei porque se chega à minha beira, quase lhe toco, preso à cintura por um enorme cabo de aço, que guarda, muito bem escondido, dentro de uma cratera, metodicamente enrolado, precisamente na outra face da lua.
O #risco perfeito sobre a têmpora e parte do cabelo virada para cima acompanhando o arredondado da cabeça  denunciam-lhe o couro cabeludo completamente liso.
Nos dias de muito vento, e apesar da fixação pormenorizada a que o sujeita todos os dias, em frente ao espelho sideral, levanta quase em riste, como a bandeira das praias em tempo de nortada.
E por me ver rir, às vezes sem controlo,  por ser demasiado cómico, o velho da lua ameaça-me constantemente com o saco.



Nau

Procurava companhia nos objetos
sem vida
nas pessoas sem rosto
nos animais sossegados
enroscados numa cadeira
a apanhar o sol tardio
e húmido da manhã de nevoeiro.

Só deu pela  reviravolta quando
sentiu os bonecos inanimados
da televisão
acordados inesperadamente.

Atràs do ecrã
naquele dia lindo de névoa
espreitava o ladrão de
todas as vírgulas possíveis.

O larápio entrava sorrateiramente
no discurso e roubava-as
para depois as enfiar na face de alguém.
Como setas.

Esse rosto cravejado de
pequenas unhas falciformes e sujas
arrancadas ao texto
que ficou sem nenhuma
metia dó.

O derrotado escorregava
por ali abaixo
sem controlo
Nem uma ficou para amostra.

Entrou como quem entra
descomprometido
e  percorreu as linhas com os olhos.
Identificou-as rapidamente
localizou-as
recolheu-as
e fez aquela maldade ao outro.

E os livros nas estantes riam-se
que nem uns perdidos
embora só nalgumas passagens.
Noutras ficaram sem fôlego.
Gostavam daquele jogo
de arco e flecha.


Não brinques com o fogo
cantavam em coro as bolhas bolorentas
entre as bolachas e o café.
Muito bem.
Assim farei cor de rosa.


Foi quando  a água da garrafa borbulhante
nos pediu a todos
o máximo  silêncio. Por favor.

Soaram os tambores.

E tudo para  traçar um #risco pequenino
no papel
que mais parecia uma vírgula.









sábado, 15 de setembro de 2018

Quinze

O minha gata Fedra já era adulta, quando caíu de uma altura razoável,
porque foi apanhada desprevenida com o estalar de um foguete mesmo ali ao lado,
e que ressou nos seus ouvidos, explodindo.
Mas, enquanto ia no ar, arqueou o dorso, deu ali umas voltas,
sei lá como fez para aflorar o chão nas quatro patas e aterrar direitinho
Era a quarta vez que lhe acontecia uma perigo daqueles,
tão próximo da fatalidade, e só lhe restavam, portanto, mais três vidas.
Anos depois, ia fixada na perseguição de um rato,
atravessou a estrada em corrida,
mas um carro saíu da curva,
e só teve tempo para dar mais velocidade ao seu corpo elástico
e escapar por um triz.
A penúltima vida gastou-a , no inverno chuvoso do ano que passou,
andou pelo quintal debaixo de uma tempestade, e,
como já não era muito nova para se aventurar em explorações,
com tão rigoroso tempo, contraíu uma pneumonia.
Teve a sorte de ser muito bem tratada e, mais uma vez, se safou.
A minha gata Fedra vive agora só com uma vida.



sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Pérola

Mergulhamos
e o nosso amante
de mil braços
envolve-nos.

A superfície do sol
forma #pérolas macias,
a areia cai, em grãos,
que brilham no chão,
que, por vezes,
se estendem em calor
até
à imensidão do
absolutamente nada,
e os versos morrem,
tragados pela água.

Os seus restos mortais
desfazem-se em espuma.

As nossas gaivotas esperam
por nós
em todo o lado
e quando nos vêm, gritam.

Estão na calçada
dos quadrados dos vários
círculos cinzentos
desenhados
na pedra.

Ou nas aldeias brancas,
ou sobre os nossos penhascos,
ou sobre as nossas casas,
ou sobre os nossos barcos
de pesca,
ou sobre o nosso mar,
porque é outra vez
o nosso mar que
nos persegue.





quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Grão


Só te levantas quando comeres o #grão, Vasco, já sabes...
E o Vasco pôs-se a contar:
Um grão
dois grães
três grões.
enquanto os passava para o outro lado do prato.

Estava a criança neste preparo, quando o Gigante, o único gigante daquelas terras, passou, olhando atentantamente para tudo o que o rodeava.
Reparou, com os seus olhos de lince enorme, que dentro de um apartamento, num prédio de muitos andares, estava aquela criança triste, debruçada sobre a mesa da cozinha, e teve pena dela.
Inclinou-se o mais possível, provocando uma enorme sombra, e perguntou-lhe: " Como te chamas?"
"Vasco", respondeu o miúdo
"Não gostas de grão, Vasco?
E com a unha suja de restos de árvores e alguns pedregulhos de granito, que para ele era simples #grãos de areia, enfiou o dedo mais pequeno pela janela, e puxou o Vasco que foi içado, muito confortável, entre a pele do monstro e um ramo de eucalipto.

O miúdo deliciou-se com a viagem que fez, os mares, os montes e tudo mais, vistos do alto. Que maravilha!
Mas de repente ouviu um enorme grito, que o assustou, e começou a cair em modo desenfreado, de lá de cima.

"Então adormeceste em cima do grão, Vasco?
Come!
E o Vasco acordou, e pôs-se a contar:
Um grão
dois grães
três grões.
enquanto os passava para o outro lado do prato.

sábado, 1 de setembro de 2018

Entre o #postal_de_férias e as férias

Hoje em dia já todos nos habituámos, mas lembro-me bem que foi uma época muito conturbada, sobretudo para as crianças.

Eram elas que, saíndo de casa, noite cerrada, mais confundiam os candeeiros com a lua, e mordiam, enraivecidos, tudo e todos,  principalmente, os  amiguinhos mais pequenos, presas fáceis, mas também, nos casos mais graves, pais e professores.
Em casa, notava-se-lhes um nervosismo perigoso, e as famílias temiam pelos seus animais domésticos e pelos idosos.

Mas nem  todos reagiram desta forma, apesar de tudo, a menos má para a formação das suas personalidades.
Havia os que ficavam  tristes. Muito tristes.
Sentavam-se nos cantos, com os joelhinhos encolhidos em frente ao queixo, sem dizer uma palavra,
Podiam olhar-nos com os olhos secos e brilhantes, ou então, com eles molhados das lágrimas de tanta incompreensão e mau estar. Era francamente desolador.

Veja-se o caso de uma miúda que ia de mão dada com a mãe, carregando consigo uma grande confusão. a cabecinha sensível completamente baralhada, o ar desnorteado, mais intenso do que o seu costume. Vinham de regresso a casa depois da explicação de aritmética, das aulas de natação e de esgrima, como era habitual, e é claro que a senhora atravessava momentos de grande preocupação.

"Ó, meu anjo, não fiques assim. O sol quando nasce não é para todos, é o q' eles `'tão a fazer com isto. Não vêem a tristeza destes meninos? A saírem de casa de noite? Queres um geladinho, ou um pastel de bacalhau? Ou melhor..., queres um gelado de pastel de bacalhau  e queijo da Serra?", e fez o ar mais entusiasmado e sorridente possível, na tentativa de contagiar a criança com a sua alegria.

Mas nada entusiasmava o desânimo do seu coraçãozinho.

Só muitos anos depois, já em adultos, e graças ao trabalho conjunto de diversos especialistas, os problemas foram ultrapassados, não obstante ter deixado graves sequelas.