terça-feira, 30 de abril de 2019

Um Pássaro



Para arrumar
um livro de poesia,
dirigiu-se às
prateleiras.

Acontece que
calculou mal a distância,
embateu com o cotovelo
contra uma saliência
inoportuna,
e o livro caíu no chão,
desamparado.

Abriu-se,
e um  poema
soltou-se da página
onde estava  impresso,
em #tinta preta,
tamanha foi a
descompressão, e tão
rápida, das folhas
que antes,
se encontravam
fortemente
apertadas
umas contra as outras.

O poema começou
a rodopiar,
atarantado, preso
no ambiente desconhecido
da sala.

Batia  as asas contra
as paredes
e contra o teto,
em voos pequenos
e assustadoramente
cómicos,
apesar das suas
sumptuosas
penas amarelas.

O homem
abriu a janela,
inclinou-se sobre ela
e soprou a lombada
gasta e verde
para sacudir
para a rua
as sobras das letras
desconjuntadas e
do pó.

O pássaro em  verso
apercebeu-se
do céu azul
orientou-se naquela
direção
e desapareceu
pelo espaço livre.

O homem acabou por
guardar o livro
com uma página em
branco a mais.

domingo, 28 de abril de 2019

O Mestre

O #mestre
adormeceu por
uns segundos
e sonhou um sonho
de autocarro
rápido e trepidante,
em que as palavras
lhe fugiam,
imaginou-as
num aeroporto de
malas de mão
porquanto fosse
indiferente
se regressavam
ou partiam
só o facto
de estarem ali
de bagagem no chão
e mãos nos bolsos
à espera do avião
já as sentia longe.

De barriga encostada ao gradeamento
imaginou-as noutros locais,
apetrechadas com os seus apetrechos,
só podiam ser elas
depois de terem tomado uma droga
que as fez esquecer.
Queria acreditar que sim,
que estavam felizes e contentes
só porque já nem se lembravam
dos enrodilhanços
umas nas outras,
de ganharem formas  inconcebíveis
de como tudo foi agradável,
e então abandonavam-no.

Inventava-as nos aeroportos,
de malas nas mãos, porquanto fosse indiferente
se iam ou se regressavam.
Só o facto de estarem ali, de bagagem no chão,
e mãos nos bolsos à espera do avião, já iam
fugindo para muito longe.


Por vezes estavam nas praias
nas conversas debaixo do sol
ou saíam pela boca do homem a ressonar
encostado à janela do autocarro,
enquanto sonhava uns segundos.

Abriu uma saqueta de pó efervescente,
para o alívio da dor.
Diluir num copo de água de oceano
impenetrável.



Fica aqui o testemunho,
As palavras são-me roubadas.
Vejo-as noutros locais, apetrechadas
com os meus apetrechos,
só podem ser elas,
depois de terem tomado
uma droga que as fez esquecer.
Quero acreditar que sim,
que estão felizes e contentes
apenas porque já não se lembram
de como as fiz enrodilharem-se
umas nas outras, ganharem formas
e consistências diferentes,
de como foi agradável,
e abandonam-me para outros lugares
como barcos de pesca
partindo

Imagino-as nos aeroportos, de malas nas mãos,
porquanto seja indiferente
se vão ou se regressam,
Só o facto de estarem por ali, de bagagem no chão
e mãos nos bolsos à espera do avião,
já me fogem.

Por vezes estão na praia,
nos passeios de subúrbio,

ou saem pela boca de alguém,
que ressona encostado à janela,
do autocarro,
enquanto sonha uns segundos.

Nesse caso também as escrevo,
mas primeiro  guardo-as
e deixo-as secar
depois de devidamente
retiradas das profundezas do oceano
pela noite dentro.

Alguém terá que ter  a audácia suficiente
para enfrentar
as águas impenetráveis, mas não seremos nós..

De barriga encostada ao gradeamento.
diluíu num copo de água do mar,
um comprimido efervescente.










O Mestre

Estava a ouvir com a máxima atenção o que o mestre lhe dizia mas não estava a entender grande coisa.
Punha-se a observar o  desalento do homem pelo cair dos seus braços ao longo do corpo, a notar-lhe o ar sofredor e impaciente, quando pela milionésima vez lhe pedia para explicar melhor o que queria dizer, e ele, pela milionésima vez, e na sua imensa sabedoria,  mudava  vezes infinitas o discurso na intenção de que ele atingisse o fundamento pretendido, mas era impossível..
 "A vida é uma espada, e nós caminhamos sobre a sua lâmina"
Cruzes, até ficou com pele de galinha, e não percebeu  onde ele queria chegar, mas alguém o tinha alertado para o grau de dificuldade daquela sabedoria específica, que podia provocar arrepios, e tinha que acabar o curso se não a mãe não haveria de o largar nunca mais.
"Se te aborrecerem, deixa que o karma há-de-lhes cair em cima, como a serpente cai em cima dos incautos!"
"O quê? O que é que é isso, agora? Cada vez percebo menos."
O mestre, por sua vez, retorcia as mãos uma na outra, preocupado. Os seus discípulos estavam a atingir um grau de falta de descernimento como ele nunca tinha visto em trinta anos de carreira.
Às vezes punha a possibilidade de ter perdido faculdades e não se explicar devidamente,
A verdade é que já tinham passado longos anos desde que o último grupo de jovens o  seguiu, voluntariamente, pelos campos fora, entoando cânticos de alegria, e apanhando besouros e outros animaizinhos desse tipo.






quarta-feira, 24 de abril de 2019

O #Jantar

O tio Alberto cuspiu um pedaço de folha de louro que tinha atravessada nos dentes, já há um bom tempo, e aproveitou com o gesto para também disfarçar um certo comprometimento. Tinha acabado de pedir duzentos euros à mãe.
A  avó Joana também revelava sinais de nervosismo, percebia-se que não estava de bem com o filho, e, talvez por isso, deixou cair a posta de peixe corvo, inteirinha. sobre a carpete.
Espetou-lhe o garfo  até ao fundo da carne e  levantou-a com o  punho bem fechado em torno do cabo do talher para a chegar mais perto dos olhos.
" O que é isto? Não vejo. Uma ervilha? Passa-me a lupa!"
"É pescada, avó", respondeu, solícito, e foi-se baixando para limpar o desastre que a senhora tinha acabado de provocar, mas, assim que se inclinou, arrependeu-se.
Do lado do primo Isaías vinha um bafo nauseabundo. "Porco", pensou no momento, mas sem nenhumas más intenções, porque era um menino bom.
Do outro lado da mesa, viu as pernas da tia Alice, com os elásticos a colapsarem-lhe a circulação, os pés nos sapatos velhos e deformados pelos joanetes. "Que nojo", pensou sem maldade nenhuma a criança.
Levantou-se rapidamente e saíu daquela zona, atordoado.
Tão rápido e descuidado foi na forma de se levantar que bateu com a testa na esquina da mesa.
Felizmente estava lá o primo Adérito, que era enfermeiro.
"Afastem-se todos", ordenou, e rapidamente lhe enrolou a massa fresca de volta do crâneo.
Essa intervenção  revelou-se muito importante.
Aliviou-o da pressão  das pontas das estrelas amarelas que orbitavam, no momento, sobre a sua cabeça.



terça-feira, 23 de abril de 2019

#Index

Os livros desapareceram, as estantes foram desmontadas e as paredes ficaram brancas com traços de sujidade geométrica que demarcava a anterior posição de cada um.
Foram colocados em caixotes, que por sua vez foram selados com uma larga fita adesiva, que juntava as partes num todo e fazia deles um único volume.
Mais tarde, lavaram e pintaram as paredes, reduziram o número de objetos expostos, fizeram uma sala ampla e agradável, de linhas direitas e muito conforto, agarraram nas caixas com peso insuportável e levaram-nas para a casa de campo, na aldeia onde moravam todos os avós.
Na casa de campo havia ratos que gostavam de roer papel e  podiam comê-lo.
Em plenos dias de sol, se a velhota estava do outro lado, do lado do quintal, eles sentiam-se em  total liberdade, nem precisavam de se esconder correndo de sombra em sombra, camuflados atrás dos móveis  que tapavam a luz difusa que entrava pelas janelas durante a noite.
A begónia, imóvel, vegetava num vaso ao centro de uma  mesa redonda, e as suas folhas vivas confirmavam a presença da mulher que, de vez em quando, a regava com pequenas porções de água fresca para a alimentar.
Agarrou numa  faca e cortou o cartão que rodeava tantos livros amados, e, durante uns tempos, entreteve-se a forrar a casa com eles.
As caixas vazias levou-as para o lixo, a custo, e enquanto percorreu o caminho descendente, transportando-as, vezes sem conta, passando o portão de ferro até chegar ao contentor, ia atevendo, satisfeita, a companhia que teria de futuro com tanta literatura para preencher as horas mortas.
Sentou-se no sofá abrindo um qualquer, por ler, nas primeiras páginas.
Olhou em volta e apreciou a aparência das lombadas e das madeiras obscuras, quedas e mudas, circundando a casa.