_Não vou acertar nada. Não é para que todos leiam, são frases libertadoras, redentoras, talvez. Vou deixá-las ficar ficar sem nexo, enquanto observo os patos a voar, outra mentira das minhas, porque os patos não demoram nem três segundos a percorrer o curto espaço por que é composta a minha janela.
Contrariamente ao habitual, tinha uma capa negra a cobri-la, ou talvez não tivesse, mas o candeeiro junto ao muro que a alumiava, nessa noite estava apagado e não era apenas ela que se vestia de escuridão.
Estranhei, mas com Lídia tudo era possível, que mudasse, os gostos, os objetivos, a direção, o estado de espírito, com a rapidez e a elegância de um felino e a violência de uma tempestade, de forma que fiquei a ver se empurrava a velha porta para entrar na casa devoluta, coberta de hera forte que serpenteava os seus troncos entre as pedras, entre os buracos onde outrora tinha havido vidros transparentes e a madeira dos caixilhos houvera sido jovem e bela.
Entrou. Nos primeiros minutos, nada aconteceu, mas, ao fim de algum tempo, uma eternidade para quem está com pressa ou um lapso insignificante para quem nada tem agendado que fazer, pareceu-me ver desaparecer a casa, lentamente, que todos os seus átomos se iam desligando, e que, deixavam entrar a noite pelas suas disjunções, e a casa e as árvores do seu jardim, tudo o que os envolvia, se tornou tão fino e tranlúcido que acabou por se misturar completamente nas vivendas da rua de cima, no café do senhor Joaquim, lá ao fundo, à esquina e na pequena mercearia para lá da estrada.
Desde essa noite, nunca mais vi nada de extraordinário, ne terreno baldio em frente a minha casa, a Lídia parece-me estranha, ausente,e o gato, até o meu simpático e adorável gato, recusa deitar-se nas suas pernas e evita a sua companhia.
quinta-feira, 14 de maio de 2020
quinta-feira, 7 de maio de 2020
Interlúdio
Apenas
com o norte a
um canto,
e uma tinta
bonita e verde,
retiro das folhas
dos plátanos
ou de outra
árvore qualquer,
o silêncio e os
pássaros
e o ruído cristalino
de alguma
chuva crescente,
e que imagino
marcando a terra,
primeiro em fio
de nascente,
e depois em rio,
correndo como as
ondas,
para trás e para
a frente,
até o mar vir ter
comigo
onde eu quiser.
com o norte a
um canto,
e uma tinta
bonita e verde,
retiro das folhas
dos plátanos
ou de outra
árvore qualquer,
o silêncio e os
pássaros
e o ruído cristalino
de alguma
chuva crescente,
e que imagino
marcando a terra,
primeiro em fio
de nascente,
e depois em rio,
correndo como as
ondas,
para trás e para
a frente,
até o mar vir ter
comigo
onde eu quiser.
quarta-feira, 6 de maio de 2020
A História do Gato que Falava #Língua_Portuguesa
Passou a noite e o animal julgou
perder todo o seu mistério,
toda a sua poesia habitual.
Percorreu a casa, tranquilamente,
procurando a luz do amanhecer
nas janelas viradas a nascente.
Não era seu hábito tartamudear,
responder hesitante,
mas naquela manhã,
afirmou-me não lhe importarem
os versos para nunca mais.
Tinha sonhado outra vez com bolas de sabão,
que saturação,
que rebentavam no ar , inconscientes.
Olhava para mim, muito triste,
como se alguma coisa de perigoso
lhe toldasse o pensamento.
"não há nada que consiga reinventar,
elas que rebentem. se quiserem,
A mim, assombram-me a noite,
como se eu não fosse um gato.
E depois fico ensombrado pela
noite assombrosa,
e já não há nada a fazer."
Mas como os gatos não são de
gastar muito em palavras
olhou-me uma última vez,
e foi-se enroscar no tapete esverdeado
de frente para os vasos das flores.
E que lindo que ficou, como sempre,
quando o sol despontou e se deitou
sobre o seu corpo indolente.
domingo, 3 de maio de 2020
RASCUNHO
A Lídia ligou à cerca de vinte minutos.
É normal ligar para avisar que vem mais tarde.
O jantar está no forno e preparado inteiramente. É só aquecer um pouco no microondas, isto se por acaso já tiver arrefecido muito.
Se ela não comer, tratarei de lhe dar uso amanhã, umas sobras de comida têm sempre proveito.
Enquanto espero por ela, entretenho-me a limpar algumas coisas sujas. Só pormenores, nada de grandes movimentações, que envolvam baldes e esfregonas e aspiradores. Não. Só pequenos cantos, arestas, reentrâncias que vão ficando para trás nas limpezas rápidas, como se por um acaso os segundos que iríamos perder com esses detalhes, naquele momento, fossem relevantes na rapidez dos nossos dias e nos fizessem falta para outra minudência qualquer.
O telefonema foi rápido, "Beijinhos Adriana! Estou atrasada, até logo!"
A páginas tantas, fiquei sentada na beira da cama, o telemovel carregava precisamente junto à janela, sobre a mesa de cabeceira, recordando o brilho dos seus olhos, enquanto contemplava a minha moldura favorita coberta de plátanos verdes.
Algures entre o norte e o sol nascente, existem esses lugares sem pontos cardeais. onde estamos situados, de vez em quando, virados para lado nenhum, e como cada maluco tem as suas manias, já sabemos, crescia-me a vontade de trocar estes dias por uma coisa diferente.
_Vê lá o que fui sonhar, estávamos na praia, uma pequena baía paradisíaca, como há tantas por aí,
O mar era como são todos os mares, um manto estranhamente belo e perigoso, só que não brilhava, e apresentava-se quase como um grande lago, inofensivo e calmo, mas, logo que metíamos os pés na água que espraiava na areia suavemente, ela puxava-nos para dentro, como se um gigante aquático nos agarrasse vigorosamente pelos tornozelos e,
com as suas mãos enormes, camuflado pela opacidade da água, para nos fazer submergir.
a superfície daquele grande mar sem fim, era verde ou azul, não sugiro nenhuma das duas cores, mão hábil, essa que a misturou em partes exatamente iguais.
Dizia-lhe, um pouco atordoada com a sua insistência._vou lá agora escrever sobre estes tempos de espera, monótonos e de certa forma apaziguadores, os tempos em que somos todos fragilmente os mesmos, seguindo todos as mesmas regras, onde é que isso já se viu! Todos a respirar ao mesmo tempo! Esse tempo nem existe, verás um dia destes.
Aula de ginástica começou:
Um, dois, um, dois, e a manhã a passar tão rápida e tão incompreensível quanto o habitual.
O volume das camisolas de lã estava diretamente relacionado com a construção de frases com palavrões, daquelas que se desenvolvem desmesuradamente,
Pegam-me pela mão e acompanham-me, muito simpaticamente, até ao final do papel.
Alguns, transportam-nos para os limites dos seus mundos helicoidais e voláteis, verdadeiros ciclones no meio da tempestade.
Tornados e turbilhões tão intensos que nos puxam pelo medo e pela curiosidade, acompanhando-nos toda a viagem, até ao fundo, entrelaçados connosco,
tanto quanto é forte a relação de amor, ódio que tenho com o silêncio.
Nenhuma palavra será escolhida ao acaso, ou, as que se me revelarem as mais belas.
Escondia-me debaixo das luzes intensas da pista de dança, vestida de bailarina louca e feliz.
Aquela importância que dava à necessidade de entender o fundamento das ordens, antes de ser obrigada a cumpri-las.
E então, numa espécie de concentração involuntária e única, os olhos mudavam-lhe de maré, para, no final, endireitar tudo, a minha Lídia.
Debaixo das sobrancelhas, mesmo ali sobre os cantos, as rugas, tornavam-lhe o sorriso encantador e mesmo com as bocas tapadas pelas máscaras,
e nas têmporas, duas linhas quase invisíveis vincavam sobre os cantos das sobrancelhas. Muito bom, ferramenta fundamental para percebermos quem, por detrás da máscara, permanece a sorrir.
Muito obrigada pelo seu trabalho, incansável e eficaz, e, não esquecendo a sua dedicação extrema.
Não gosto de medir o mundo por mim.
Naquela casa abandonada, entra, sempre à mesma hora, todos os dias, ouço ranger o portão enferrujado, e vou espreitar por entre as cortinas. Veste-se de cores garridas que me provoca, não sei por que fenómeno incompreensível, a vontade de pintar o mundo inteiro daquelas cores. Depois atira o portão com tal violência e rudeza, que o metal fica a ressoar durante algum tempo e faz-me abandonar a vontade de colorir.
Ela insiste........................._Lembras-te de quando fizemos uma curta viagem ao tempo dos morangos?_Sempre foi assim, persistente e encantadora.
"Não é tarefa fácil ajudar as pessoas a morrer, ou a suportar os atrozes sofrimentos da dor, por exemplo. lidando com a morte antes de ela se revelar para toda a gente.
Nem agora nem sempre." Frases soltas no meio das páginas. Incompreensível, na verdade.
O esgotamento nos provocam os serviços a abarrotar de gente, a nossa atenção também virada para os que pouco estão doentes, mas resolveram ir ali, e exigindo respostas rápidas, tão rápidas quanto as de quem está urgentemente a precisar delas.
Rimo-nos como loucas, sentadas à mesa da cozinha, num dia em que chovia tanto lá fora que os passeios encharcados mais pareciam pistas de dança
Gastei uma página inteira para tentar descrever a beleza das flores e nem por isso consegui.
Não havia imposição de limites possível para o seu espírito livre, ou louco, não sei, insistia que um tufo de margaridas não deixava de a importunar um pouco por todos os lugares, pedindo-lhe visibilidade e espaço na história, e que, e foi tão insistente que ela acabou por ceder.
Não se arrependeu. Todos os cenários se alegravam desde que não caísse a noite.
Não me sai da cabeça o passeio salpicado de pequeninas flores
Flores, flores, flores! Para ela tudo tinha flores, era uma vida inteira cheia de um disparate de flores,
Recordações com dois mil anos? Siga para bingo, respondia-me com o seu positivismo habitual.
Aula de ginástica: Um, dois, um, dois, e a manhã a passar rápida e tão agradável quanto o habitual.
O volume das camisolas de lã estava diretamente relacionado com a construção de frases, porque estas se desenvolviam desmesuradamente, até formarem tornados que nos transportam para os limites dos seus mundos helicoidais e voláteis. Ciclones na tempestade.
Pegam-me pela mão e acompanham-me, muito simpaticamente, até ao final do papel.
Alguns, transportam-nos para os limites dos seus mundos helicoidais e voláteis, verdadeiros ciclones no meio da tempestade.
_E daquela vez, Lídia, daquela vez em que a tia Lina que se encheu de amores pela velha secretária, passava o dia a limpá-la com óleos e panos.
Até tropeçar no tapete e bater com a cabeça numa das suas esquinas.
O tio Alfredo explicando, incansável, como, a módicos preços, fazia a sua coleção de viagens longínquas e arrebatadoras. O Pedro e o João debatendo ideais inesgotáveis entre os golos de café e as trincadelas no bolo de nozes.
Para a Lídia, cada frase tinha a sua medida e o seu peso, por muito leve que fosse a normalidade do convívio dos jantares de Natal, ela ia lá repescá-las, naquela selva imensa de conversas de família.
O meu filho veio visitar-me e eu disse-lhe, claro, a "Lídia está cá outra vez!",
e ele carregou o semblante, assumindo um ar preocupado.
Atira o portão com tal violência que o metal fica a ressoar durante algum tempo.
Tal e qual como o gato, que afia as unhas sempre na mesma perna da mesa. O gato, pois... Quando quer sair da sala, senta-se em frente à porta fechada, uma esfinge silenciosa e até a sua presença e a sua vontade se tornarem tão fortes, que eu me levanto para o deixar sair.
Nesse dia, estava em baixo, segurava a cabeça com a mão direita aberta em quatro dedos pressionando a testa e o polegar uma das têmporas.
Éramos tão jovens, e os nossos corpos envolviam-se de tal forma um no outro, que julgámos amar-nos incondicionalmente. Para mim, era a sublime descoberta de um desconhecido que, incompreensivelmente, parece querer-nos bem.
Aproveitámos uma nesga de sol para ir dar um passeio, ah! Não podemos, pois é, talvez também não possamos esperar pelos desígnios do que tem de ser.
Às vezes, a raiva crescia-me duma forma violenta, o ódio, esse sentimento perverso e inadmissível, aflorava-me o pensamento e fazia-me bem.
Deus ia morrendo nos meus braços, velho e imprestável, matando inocentes, castigando aleatoriamente, pedindo-me contas, carregado da maior frieza, de todos os milhares de vezes que me debrucei sobre as macas distribuindo palavras de amor, gestos de conforto absolutamente desnecessários para ganhar ao fim do mês o meu ordenado sempre igual.
É normal ligar para avisar que vem mais tarde.
O jantar está no forno e preparado inteiramente. É só aquecer um pouco no microondas, isto se por acaso já tiver arrefecido muito.
Se ela não comer, tratarei de lhe dar uso amanhã, umas sobras de comida têm sempre proveito.
Enquanto espero por ela, entretenho-me a limpar algumas coisas sujas. Só pormenores, nada de grandes movimentações, que envolvam baldes e esfregonas e aspiradores. Não. Só pequenos cantos, arestas, reentrâncias que vão ficando para trás nas limpezas rápidas, como se por um acaso os segundos que iríamos perder com esses detalhes, naquele momento, fossem relevantes na rapidez dos nossos dias e nos fizessem falta para outra minudência qualquer.
O telefonema foi rápido, "Beijinhos Adriana! Estou atrasada, até logo!"
A páginas tantas, fiquei sentada na beira da cama, o telemovel carregava precisamente junto à janela, sobre a mesa de cabeceira, recordando o brilho dos seus olhos, enquanto contemplava a minha moldura favorita coberta de plátanos verdes.
Algures entre o norte e o sol nascente, existem esses lugares sem pontos cardeais. onde estamos situados, de vez em quando, virados para lado nenhum, e como cada maluco tem as suas manias, já sabemos, crescia-me a vontade de trocar estes dias por uma coisa diferente.
_Vê lá o que fui sonhar, estávamos na praia, uma pequena baía paradisíaca, como há tantas por aí,
O mar era como são todos os mares, um manto estranhamente belo e perigoso, só que não brilhava, e apresentava-se quase como um grande lago, inofensivo e calmo, mas, logo que metíamos os pés na água que espraiava na areia suavemente, ela puxava-nos para dentro, como se um gigante aquático nos agarrasse vigorosamente pelos tornozelos e,
com as suas mãos enormes, camuflado pela opacidade da água, para nos fazer submergir.
a superfície daquele grande mar sem fim, era verde ou azul, não sugiro nenhuma das duas cores, mão hábil, essa que a misturou em partes exatamente iguais.
Dizia-lhe, um pouco atordoada com a sua insistência._vou lá agora escrever sobre estes tempos de espera, monótonos e de certa forma apaziguadores, os tempos em que somos todos fragilmente os mesmos, seguindo todos as mesmas regras, onde é que isso já se viu! Todos a respirar ao mesmo tempo! Esse tempo nem existe, verás um dia destes.
Aula de ginástica começou:
Um, dois, um, dois, e a manhã a passar tão rápida e tão incompreensível quanto o habitual.
O volume das camisolas de lã estava diretamente relacionado com a construção de frases com palavrões, daquelas que se desenvolvem desmesuradamente,
Pegam-me pela mão e acompanham-me, muito simpaticamente, até ao final do papel.
Alguns, transportam-nos para os limites dos seus mundos helicoidais e voláteis, verdadeiros ciclones no meio da tempestade.
Tornados e turbilhões tão intensos que nos puxam pelo medo e pela curiosidade, acompanhando-nos toda a viagem, até ao fundo, entrelaçados connosco,
tanto quanto é forte a relação de amor, ódio que tenho com o silêncio.
Nenhuma palavra será escolhida ao acaso, ou, as que se me revelarem as mais belas.
Escondia-me debaixo das luzes intensas da pista de dança, vestida de bailarina louca e feliz.
Aquela importância que dava à necessidade de entender o fundamento das ordens, antes de ser obrigada a cumpri-las.
E então, numa espécie de concentração involuntária e única, os olhos mudavam-lhe de maré, para, no final, endireitar tudo, a minha Lídia.
Debaixo das sobrancelhas, mesmo ali sobre os cantos, as rugas, tornavam-lhe o sorriso encantador e mesmo com as bocas tapadas pelas máscaras,
e nas têmporas, duas linhas quase invisíveis vincavam sobre os cantos das sobrancelhas. Muito bom, ferramenta fundamental para percebermos quem, por detrás da máscara, permanece a sorrir.
Muito obrigada pelo seu trabalho, incansável e eficaz, e, não esquecendo a sua dedicação extrema.
Não gosto de medir o mundo por mim.
Naquela casa abandonada, entra, sempre à mesma hora, todos os dias, ouço ranger o portão enferrujado, e vou espreitar por entre as cortinas. Veste-se de cores garridas que me provoca, não sei por que fenómeno incompreensível, a vontade de pintar o mundo inteiro daquelas cores. Depois atira o portão com tal violência e rudeza, que o metal fica a ressoar durante algum tempo e faz-me abandonar a vontade de colorir.
Ela insiste........................._Lembras-te de quando fizemos uma curta viagem ao tempo dos morangos?_Sempre foi assim, persistente e encantadora.
"Não é tarefa fácil ajudar as pessoas a morrer, ou a suportar os atrozes sofrimentos da dor, por exemplo. lidando com a morte antes de ela se revelar para toda a gente.
Nem agora nem sempre." Frases soltas no meio das páginas. Incompreensível, na verdade.
O esgotamento nos provocam os serviços a abarrotar de gente, a nossa atenção também virada para os que pouco estão doentes, mas resolveram ir ali, e exigindo respostas rápidas, tão rápidas quanto as de quem está urgentemente a precisar delas.
Rimo-nos como loucas, sentadas à mesa da cozinha, num dia em que chovia tanto lá fora que os passeios encharcados mais pareciam pistas de dança
Gastei uma página inteira para tentar descrever a beleza das flores e nem por isso consegui.
Não havia imposição de limites possível para o seu espírito livre, ou louco, não sei, insistia que um tufo de margaridas não deixava de a importunar um pouco por todos os lugares, pedindo-lhe visibilidade e espaço na história, e que, e foi tão insistente que ela acabou por ceder.
Não se arrependeu. Todos os cenários se alegravam desde que não caísse a noite.
Não me sai da cabeça o passeio salpicado de pequeninas flores
Flores, flores, flores! Para ela tudo tinha flores, era uma vida inteira cheia de um disparate de flores,
Recordações com dois mil anos? Siga para bingo, respondia-me com o seu positivismo habitual.
Aula de ginástica: Um, dois, um, dois, e a manhã a passar rápida e tão agradável quanto o habitual.
O volume das camisolas de lã estava diretamente relacionado com a construção de frases, porque estas se desenvolviam desmesuradamente, até formarem tornados que nos transportam para os limites dos seus mundos helicoidais e voláteis. Ciclones na tempestade.
Pegam-me pela mão e acompanham-me, muito simpaticamente, até ao final do papel.
Alguns, transportam-nos para os limites dos seus mundos helicoidais e voláteis, verdadeiros ciclones no meio da tempestade.
_E daquela vez, Lídia, daquela vez em que a tia Lina que se encheu de amores pela velha secretária, passava o dia a limpá-la com óleos e panos.
Até tropeçar no tapete e bater com a cabeça numa das suas esquinas.
O tio Alfredo explicando, incansável, como, a módicos preços, fazia a sua coleção de viagens longínquas e arrebatadoras. O Pedro e o João debatendo ideais inesgotáveis entre os golos de café e as trincadelas no bolo de nozes.
Para a Lídia, cada frase tinha a sua medida e o seu peso, por muito leve que fosse a normalidade do convívio dos jantares de Natal, ela ia lá repescá-las, naquela selva imensa de conversas de família.
O meu filho veio visitar-me e eu disse-lhe, claro, a "Lídia está cá outra vez!",
e ele carregou o semblante, assumindo um ar preocupado.
Atira o portão com tal violência que o metal fica a ressoar durante algum tempo.
Tal e qual como o gato, que afia as unhas sempre na mesma perna da mesa. O gato, pois... Quando quer sair da sala, senta-se em frente à porta fechada, uma esfinge silenciosa e até a sua presença e a sua vontade se tornarem tão fortes, que eu me levanto para o deixar sair.
Nesse dia, estava em baixo, segurava a cabeça com a mão direita aberta em quatro dedos pressionando a testa e o polegar uma das têmporas.
Éramos tão jovens, e os nossos corpos envolviam-se de tal forma um no outro, que julgámos amar-nos incondicionalmente. Para mim, era a sublime descoberta de um desconhecido que, incompreensivelmente, parece querer-nos bem.
Aproveitámos uma nesga de sol para ir dar um passeio, ah! Não podemos, pois é, talvez também não possamos esperar pelos desígnios do que tem de ser.
Às vezes, a raiva crescia-me duma forma violenta, o ódio, esse sentimento perverso e inadmissível, aflorava-me o pensamento e fazia-me bem.
Deus ia morrendo nos meus braços, velho e imprestável, matando inocentes, castigando aleatoriamente, pedindo-me contas, carregado da maior frieza, de todos os milhares de vezes que me debrucei sobre as macas distribuindo palavras de amor, gestos de conforto absolutamente desnecessários para ganhar ao fim do mês o meu ordenado sempre igual.
sexta-feira, 24 de abril de 2020
Mil versos e Um Gato
Imagine a senhora que o
O meu gato é um gato
Poético, anorético,
Anda com as mãos nos bolsos,
Magríssimo,
Mas nem sabe que é poeta
Porque ninguém o informou.
Hoje, não foi ontem nem vai
Ser amanhã,
Foi hoje,
Entrou, tímido, no autocarro,
Ocupou todos os lugares
Sentados
E acabou por ficar de pé
Aos encontrões às pessoas
Que iam de pé também.
Imagine a senhora que
Coçou uma orelha com a pata
Fincando as unhas no pelo
Brilhante, suavizante,
Deu uma vista de olhos
No jornal das parangonas
Deixou-o abandonado no mesmo
Chão
E começou a recitar #mil versos,
Ai os versos, perco-me neles,
Imagine a senhora!
O meu gato é um gato
Poético, anorético,
Anda com as mãos nos bolsos,
Magríssimo,
Mas nem sabe que é poeta
Porque ninguém o informou.
Hoje, não foi ontem nem vai
Ser amanhã,
Foi hoje,
Entrou, tímido, no autocarro,
Ocupou todos os lugares
Sentados
E acabou por ficar de pé
Aos encontrões às pessoas
Que iam de pé também.
Imagine a senhora que
Coçou uma orelha com a pata
Fincando as unhas no pelo
Brilhante, suavizante,
Deu uma vista de olhos
No jornal das parangonas
Deixou-o abandonado no mesmo
Chão
E começou a recitar #mil versos,
Ai os versos, perco-me neles,
Imagine a senhora!
Ocaso ( O Inspetor Januário)
O inspetor Januário já se encontrava no local quando a equipa de peritos forenses chegou, duas horas atrasada.
Depois de vestirem os fatos de proteção, chegaram-se ao local do crime que já tinha as provas previamente marcadas pelos funcionários da polícia.
_Bom dia, Inspetor. Então, o que temos aqui?_
_Vítima do sexo masculino, de oitenta e seis anos, Norberto Cunha, como indicam os documentos que trazia no bolso. Os cabelos em pé e os olhos fora das órbitas levam-me a crer que morreu de susto._
_Não nos precipitemos, inspetor._ respondeu o técnico enquanto calçava as luvas_ pode ter morrido eletrocutado por causa do aparelho auditivo. Acontece com mais frequência do que imagina. Aquele guardanapo não está marcado. Porquê?_
_Isso não é. Fui eu que comi uma sandes de carne assada enquanto esperava por vocês. E aquela garrafa de cerveja vazia também é minha._
_Bom, bom... Voltemos ao cadáver. Espere. Onde comprou a sanduiche? Tenho fome. Mariana, vai lá buscar duas. Uma para mim, outra para ti. E um compal de laranja. Pronto. O cadáver. Repare nas unhas do indivíduo. Sujas com aquilo que parecem ser pedaços de carne mal passada, mas no laboratório confirmarão. Alto lá, inspetor. Roubou a sanduiche ao cadáver?_
_Ora... Morto já não precisa comer. Esqueça lá isso. Há quanto tempo lhe parece que ocorreu a morte?_
_Talvez ontem, pelo #ocaso, mas ainda é cedo para falar numa hora precisa. O pãozinho estava bom? Agora ficamos sem saber onde foi comprado. Se calhar foi a esposa que lho preparou. Mariana, vai lá a casa do homem, avisa a senhora do ocorrido, e vê lá se ela nos arranja duas ou três. Com um bocadinho de molho. Inventa qualquer desculpa. Diz que o falecido está com uma larica desgraçada, ou que ainda não está bem morto e precisa de comer... Inventa qualquer coisa, tu és capaz. És das melhores a falar com os familiares. Vai._
Depois de vestirem os fatos de proteção, chegaram-se ao local do crime que já tinha as provas previamente marcadas pelos funcionários da polícia.
_Bom dia, Inspetor. Então, o que temos aqui?_
_Vítima do sexo masculino, de oitenta e seis anos, Norberto Cunha, como indicam os documentos que trazia no bolso. Os cabelos em pé e os olhos fora das órbitas levam-me a crer que morreu de susto._
_Não nos precipitemos, inspetor._ respondeu o técnico enquanto calçava as luvas_ pode ter morrido eletrocutado por causa do aparelho auditivo. Acontece com mais frequência do que imagina. Aquele guardanapo não está marcado. Porquê?_
_Isso não é. Fui eu que comi uma sandes de carne assada enquanto esperava por vocês. E aquela garrafa de cerveja vazia também é minha._
_Bom, bom... Voltemos ao cadáver. Espere. Onde comprou a sanduiche? Tenho fome. Mariana, vai lá buscar duas. Uma para mim, outra para ti. E um compal de laranja. Pronto. O cadáver. Repare nas unhas do indivíduo. Sujas com aquilo que parecem ser pedaços de carne mal passada, mas no laboratório confirmarão. Alto lá, inspetor. Roubou a sanduiche ao cadáver?_
_Ora... Morto já não precisa comer. Esqueça lá isso. Há quanto tempo lhe parece que ocorreu a morte?_
_Talvez ontem, pelo #ocaso, mas ainda é cedo para falar numa hora precisa. O pãozinho estava bom? Agora ficamos sem saber onde foi comprado. Se calhar foi a esposa que lho preparou. Mariana, vai lá a casa do homem, avisa a senhora do ocorrido, e vê lá se ela nos arranja duas ou três. Com um bocadinho de molho. Inventa qualquer desculpa. Diz que o falecido está com uma larica desgraçada, ou que ainda não está bem morto e precisa de comer... Inventa qualquer coisa, tu és capaz. És das melhores a falar com os familiares. Vai._
segunda-feira, 13 de abril de 2020
Mais um sem pressas
Um dos principais personagens desta história não existe. Existe a sua obra, e nela vêm refletidas a sua sensibilidade, a sua inteligência, a sua forma de ver o mundo, e até os seus pequenos e grandes dramas as suas alegrias, tudo o que nos levaria a crer tratar-se de alguém de carne e osso, mas, na verdade, não é assim.
Exposto na biblioteca principal da aldeia, está um computador colocado sobre uma mesa de madeira, aberto, e uma cadeira do mesmo material onde não se vê ninguém.
Todos os dias, já a horas tardias e depois de passar o guarda nas suas rondas, podíamos, se lá estivéssemos, ver as teclas do teclado mexerem com grande desenvoltura, como se quem as utilizasse tivesse uma vasta experiência da sua utilização.
Tempos houve em que, na mesma mesa de trabalho, uma caneta percorria rapidamente o papel, deixando nele impressas frases maravilhosas, ........... ( a continuar. Agora não me apetece)
Exposto na biblioteca principal da aldeia, está um computador colocado sobre uma mesa de madeira, aberto, e uma cadeira do mesmo material onde não se vê ninguém.
Todos os dias, já a horas tardias e depois de passar o guarda nas suas rondas, podíamos, se lá estivéssemos, ver as teclas do teclado mexerem com grande desenvoltura, como se quem as utilizasse tivesse uma vasta experiência da sua utilização.
Tempos houve em que, na mesma mesa de trabalho, uma caneta percorria rapidamente o papel, deixando nele impressas frases maravilhosas, ........... ( a continuar. Agora não me apetece)
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