Era domingo.
A criança brincava junto ao lago de águas paradas.
Olhou para a superfície, sempre descobrira monstros onde eles não existiam, formados entre as sombras e a escuridão da água.
_Pai, pai! Olha um #jacaré! Mãe, mãe, olha ali uma mulher vestida de branco a sair do lago! Olha um cão com asas! Olha que dentes tão grandes que tem!_
De início, os pais assustavam-se com os sustos da miúda, mas a insistência dela era tão frequente que acabou por fazer parte da normalidade.
Nesse domingo, era noite cerrada, a criança levantou-se da cama, silenciosamente, e voltou ao lago.
Um dragão imenso emergiu das águas convidando-a a subir para o seu dorso e juntos sobrevoaram montes e montanhas, viram as suas sombras espelhadas no lago, a lua enorme, as aldeias pequenas e arrumadas nos vales e passaram, rasando, o telhado da casa da menina onde os pais dormiam calmamente.
sexta-feira, 20 de março de 2020
Uma Mulher Velha
Hesitei em tentar descrever aquela mulher velha, sentada muito direita à mesa do café, sózinha, sem companheiro, ou porque nunca o teve, ou porque de alguma forma já o perdeu, ou sem filhos e amigos disponíveis.
Parecia uma esfinge de olhar vago, como se as esfinges estivessem vivas, a olhar.
O rapaz acabou o seu turno, passou por ela, já sem a roupa de trabalho, despediu-se familiarmente, "até amanhã, dona B", e ela aproveitou o momento para se agarrar a qualquer coisa de caloroso, para estabelecer uma ponte sobre aquele rio de solidão onde suspeito que estivesse mergulhada, imersa debaixo dos tantos anos que já viveu, as décadas que passaram desde que foi um #bebé nos braços de alguém.
_Até amanhã, Filipe, até amanhã!_
O tempo a passar, o tempo a passar...
Parecia uma esfinge de olhar vago, como se as esfinges estivessem vivas, a olhar.
O rapaz acabou o seu turno, passou por ela, já sem a roupa de trabalho, despediu-se familiarmente, "até amanhã, dona B", e ela aproveitou o momento para se agarrar a qualquer coisa de caloroso, para estabelecer uma ponte sobre aquele rio de solidão onde suspeito que estivesse mergulhada, imersa debaixo dos tantos anos que já viveu, as décadas que passaram desde que foi um #bebé nos braços de alguém.
_Até amanhã, Filipe, até amanhã!_
O tempo a passar, o tempo a passar...
Num Dia De Um Século Qualquer
A criança sentava-se na pedra habitual, em frente a ela.
Ela, por sua vez, dormitava na velha cadeira de baloiço, com a brisa movendo-lhe os cabelos ralos que teimavam em desprender-se do lenço que usava sobre a cabeça.
A criança mantinha-se quieta, observando-lhe as rugas fundas, as faces caídas pelo tempo, ouvindo o sussurro da sua respiração.
Ficavam imóveis, os dois, enquanto a criança esperava pacientemente, porque sabia que a sua presença silenciosa haveria de a acordar.
E ela acordava abrindo os olhos de meigo azul na sua direção.
Os olhos da avó saíam do seu rosto magro, falando com ela, a criança, que bebia neles o calor amoroso de um abraço de outra geração.
A velha sorria o seu sorriso sem dentes mas a criança só reparava no calor dos seus olhos. Isso, e só isso, é que era o importante.
Hoje, apenas a pedra arredondada se mantém defronte do alpendre.
Ela, por sua vez, dormitava na velha cadeira de baloiço, com a brisa movendo-lhe os cabelos ralos que teimavam em desprender-se do lenço que usava sobre a cabeça.
A criança mantinha-se quieta, observando-lhe as rugas fundas, as faces caídas pelo tempo, ouvindo o sussurro da sua respiração.
Ficavam imóveis, os dois, enquanto a criança esperava pacientemente, porque sabia que a sua presença silenciosa haveria de a acordar.
E ela acordava abrindo os olhos de meigo azul na sua direção.
Os olhos da avó saíam do seu rosto magro, falando com ela, a criança, que bebia neles o calor amoroso de um abraço de outra geração.
A velha sorria o seu sorriso sem dentes mas a criança só reparava no calor dos seus olhos. Isso, e só isso, é que era o importante.
Hoje, apenas a pedra arredondada se mantém defronte do alpendre.
Dia da Mulher
As aves brancas
Vieram não sei de onde.
Reuniram-se em torno
Da mulher
Que as alimentava de
Migalhas, junto às
Grades.
Rasaram a relva voando,
Inquietas,
Recortadas no céu azul
E o sol incidiu na relva
E o verde da relva
Refletiu na transparência
Das suas asas.
Eram afinal translúcidas
As vidas das aves que
Não eram brancas.
Vieram não sei de onde.
Reuniram-se em torno
Da mulher
Que as alimentava de
Migalhas, junto às
Grades.
Rasaram a relva voando,
Inquietas,
Recortadas no céu azul
E o sol incidiu na relva
E o verde da relva
Refletiu na transparência
Das suas asas.
Eram afinal translúcidas
As vidas das aves que
Não eram brancas.
domingo, 27 de outubro de 2019
#Fidelidade
Violeta visualizava
uma ideia
dentro de si,
nem via as árvores verdes
nem as aves voando.
Só de vez em quando
via o outono através
das folhas que jaziam
no chão.
(E mesmo as folhas
Violeta via-as porque
atravessava com os olhos
os vidros
da viatura enorme
que rodava com ela,
de cabeça encostada
às voltas da estrada.)
Só contava os passos
que faltavam
para chegar a casa
quando
ia e vinha entre estações,
e via as gaivotas equilibradas
nos vãos das escadas
pássaros vadios,
vagabundos que viviam
a sua vida por ali.
uma ideia
dentro de si,
nem via as árvores verdes
nem as aves voando.
Só de vez em quando
via o outono através
das folhas que jaziam
no chão.
(E mesmo as folhas
Violeta via-as porque
atravessava com os olhos
os vidros
da viatura enorme
que rodava com ela,
de cabeça encostada
às voltas da estrada.)
Só contava os passos
que faltavam
para chegar a casa
quando
ia e vinha entre estações,
e via as gaivotas equilibradas
nos vãos das escadas
pássaros vadios,
vagabundos que viviam
a sua vida por ali.
sexta-feira, 25 de outubro de 2019
#Duplo
Januário foi dar milho aos pombos, e enquanto o fazia, sentado entre os dois pés da estátua, olhava de viés para para os lados, não fosse a políca aparecer do nada para o tirar dali.
Tinha visto o tapete da vizinha estendido sobre uma cadeira, achou-o horrívelmente feio. aborreceu-se com o padrão castanho, e esperou. Assim que sentiu os saltos da mulher no mosaio, espreitou, viu-a a apalpar o entrançado para ver se já estava seco, e gritou-lhe do andar de cima, "esse tapete é horroroso, deixe-me que lhe diga!"
A mulher confirmou que também não gostava assim muito dele, encolheu os ombros aborrecida e meteu-se outra vez dentro de casa.
Januário, gostava daqueles animais esvoaçantes a remexerem-se em seu redor. arrolhavam pelo ar, enfiavam-no numa nuvem de asas, às vezes,
Quando o viam, começavam a aterrar ao pé dele, primeiro uns, depois outros, até serem imensos, e largarem uma ou outra pena dos seus corpos alados, e estas, por sua vez, também ficavam por ali a dançar.
Laura puxara de uma cadeira debaixo da mesa da cozinha, e ainda de pé, com a mão nas suas costas pesadas, de forro #duplo, pôs-se a pensar. "É feio, realmente", e recolocando a cadeira no sítio, decidida, deu meia volta para ir à rua imediatamente comprar um mais bonito.
Quando dispersavam, deixavam o ar vazio, e assim, ali sentado, podia dar um sentido às coisas. como se a companhia dos pássaros não tivesse a mesma troca de palavras do que outra companhia qualquer, a mesma idiossincrassia de conversar com os movimentos do ar agitado pelas asas.
A proibição não lhe era suficiente, já pagara multas, já mudara de estátuas e jardins, de sítios ermos, até o dia em que tinha de se ir embora para outro lugar.
Laura passou no passeio com um tapete enrolado num tubo e enganchado entre um dos braços e o tronco. Mesmo à sua frente, pousou o objeto longuilíneo no chão, encostando a parte superior ao muro, para tirar dos olhos um fio de teia de aranha que a vinha a incomodar, um daqueles que se suspendem em locais sem qualquer lógica, e que se prendem às pessoas que circulam.
Quando o viu, abandonou o objeto do outro lado da rua, atravessou o asfalto, de raros movimentos de automóveis, e dirigiu-se a ele para lhe dizer que já tinha comprado outro, estava ali encostado, de cores vivas e brilhantes, pronto para alegrar o ambiente da sua casa.
Ao sentirem-na tão próximo, as aves debandaram dali, para irem pousar bem longe e Januário seguiu-as sem sequer responder à mulher.
Tinha visto o tapete da vizinha estendido sobre uma cadeira, achou-o horrívelmente feio. aborreceu-se com o padrão castanho, e esperou. Assim que sentiu os saltos da mulher no mosaio, espreitou, viu-a a apalpar o entrançado para ver se já estava seco, e gritou-lhe do andar de cima, "esse tapete é horroroso, deixe-me que lhe diga!"
A mulher confirmou que também não gostava assim muito dele, encolheu os ombros aborrecida e meteu-se outra vez dentro de casa.
Januário, gostava daqueles animais esvoaçantes a remexerem-se em seu redor. arrolhavam pelo ar, enfiavam-no numa nuvem de asas, às vezes,
Quando o viam, começavam a aterrar ao pé dele, primeiro uns, depois outros, até serem imensos, e largarem uma ou outra pena dos seus corpos alados, e estas, por sua vez, também ficavam por ali a dançar.
Laura puxara de uma cadeira debaixo da mesa da cozinha, e ainda de pé, com a mão nas suas costas pesadas, de forro #duplo, pôs-se a pensar. "É feio, realmente", e recolocando a cadeira no sítio, decidida, deu meia volta para ir à rua imediatamente comprar um mais bonito.
Quando dispersavam, deixavam o ar vazio, e assim, ali sentado, podia dar um sentido às coisas. como se a companhia dos pássaros não tivesse a mesma troca de palavras do que outra companhia qualquer, a mesma idiossincrassia de conversar com os movimentos do ar agitado pelas asas.
A proibição não lhe era suficiente, já pagara multas, já mudara de estátuas e jardins, de sítios ermos, até o dia em que tinha de se ir embora para outro lugar.
Laura passou no passeio com um tapete enrolado num tubo e enganchado entre um dos braços e o tronco. Mesmo à sua frente, pousou o objeto longuilíneo no chão, encostando a parte superior ao muro, para tirar dos olhos um fio de teia de aranha que a vinha a incomodar, um daqueles que se suspendem em locais sem qualquer lógica, e que se prendem às pessoas que circulam.
Quando o viu, abandonou o objeto do outro lado da rua, atravessou o asfalto, de raros movimentos de automóveis, e dirigiu-se a ele para lhe dizer que já tinha comprado outro, estava ali encostado, de cores vivas e brilhantes, pronto para alegrar o ambiente da sua casa.
Ao sentirem-na tão próximo, as aves debandaram dali, para irem pousar bem longe e Januário seguiu-as sem sequer responder à mulher.
quarta-feira, 16 de outubro de 2019
INão tenho pressa nenhuma de acabar isto. Vamos com calma
Não foi com grande vontade mas preparei-me com apetrechos para a chuva e saí de casa resignada.
Se é assim tão necessário levar a chave, eu levo a chave à senhora, pronto, irei.
Na rua, já não chovia, mas a água tinha-se acumulado por todas as reentrâncias, buracos e zonas côncavas, instalei-me fora de uma poça e fiquei atenta à passagem de um táxi sem passageiros.
Nem dois segundos se passaram, e alguém faz uma travagem brusca ao pé de mim, nem percebi de onde veio, um automóvel pára, deslizando duas das rodas sobre água à minha frente, molhando-me, o condutor abriu a janela do meu lado, tirou o cinto de segurança e esticou-se todo sobre o banco do pendura para falar comigo.
_Para onde quer ir, senhora?_
_Bairro do Fogo. Vou entrar pelo outro lado porque aqui há uma grande poça de água._
-Não vai não senhora, entre por aí, é proíbido entrar pelo outro lado,_ Mas eu fingi não ouvir, dei a volta ao carro, sentei-me no banco de trás e acomodei-me.
_Bairro do Fogo. Mesmo na praça principal, sff ._
O homem resmungou qualquer coisa impercetível e avançou por entre o tráfego. Passou a grande avenida, virou à direita, contornou três quarteirões inclinados e chegou ao topo da cidade. Vai daí, apontei-lhe com o dedo.
-_Ali, vê aquele clarão alaranjado?_
O taxista torceu o pescoço para traz olhou para mim como pôde devido à posição em que se encontrava. Mostrou-se enervado
_Acha que eu não sei onde é o bairro do Fogo? Não tenho categoria, querem lá ver! Ainda ontem cá passei, Pois fique sabendo que tenho cá família!_
-Nada disso. Eu própria só venho cá entregar uma chave.-
_Ah!_ Pareceu ficar mais tranquilo._Onde deseja ficar?_
_Mesmo no largo._
O táxi contornou uma ruela e. assim que o fez, o cenário abriu-se revelando uma praça de tons alaranjados. Nada fazia destoar esses tons que, diziam, tinham a ver com as montanhas em frente, que se erguiam rugosas e sem vegetação, como duas enormes amêndoas recortadas no horizonte.
O automóvel parou junto a um passeio e eu saí de lá de dentro, depois de pagar a corrida com o meu cartão de crédito.
_Até logo!_ despediu-se o bizarro motorista. _Estarei aqui para a levar de novo, no regresso, assim que estiver despachada._ E arrancou a alta velocidade.
Na praça, várias pessoas passeavam, conversando umas com as outras. Todos os homens vestiam de negro, e as mulheres tinham roupas caras e bonitas, muito coloridas, mas todas de tons alaranjados ou castanhos, ou amarelos, uma ou outra peça encarnada, mas não se viam azuis, ou verdes, ou qualquer outra cor que quebrasse o aspeto terroso e abafado do ambiente.
Dirigi-me a duas senhoras que por ali passeavam.
_ Por favor, sabem dizer-me onde fica a rua da Empatia?_
Sorriram uma para a outra, com ares de cumplicidade.
_Ali ao fundo, na esquina da esplanada. Sempre em frente.Vem entregar a chave, não é? Boa sorte!_
agradeci e segui o meu caminho, sem entender muito bem o que se tinha passado. Contornei as mesas da esplanada e, passados alguns metros, cheguei ao meu destino. Número doze. Toquei à campaínha.
Um empregado, impecavelmente vestido de negro, abriu-me a porta.
_Vem por causa da chave, não é? Tenha a bondade de me acompanhar._
Segui-o pelo corredor, um pouco perturbada por todos revelarem saber o motivo da minha ida ali.
No topo do corredor existia uma grande e pesada porta de madeira, que chiou quando o homem carregou num botão do comando e ela se abriu.
Entrei e a porta fechou-se atrás de mim.
_Trouxeste a chave?_ Junto a uma enorme janela de cortinas bordeaux, completamente corridas, estava uma velha senhora de baixa estatura e rechonchuda, sentada numa cadeira que quase parecia um trono. Fazia malabarismos com quatro pequenas laranjas que atirava ao ar com grande perícia.
_A chave. Dá cá. Atira-a daí, que eu apanho_
_Mas..._
_Vá, despacha-te, que eu não tenho o dia todo._
Assim fiz, e ela, com a maior desenvoltura, apanhou-a no ar e adicionou-a ao seu número de circo, sem nunca se atrapalhar ou deixar cair algum dos objetos com que brincava.
_Podes regressar à tua vidinha._
_Foi um prazer._
_Vai, vai, vai..._
A grande porta abriu-se, e eu saí, seguindo o corredor em sentido contrário, que desta vez se encontrava deserto. Finalmente na rua, voltei à praça de terra batida, onde as pessoas continuavam a passear com #tranquilidade.
As senhoras com quem antes tinha falado ainda por ali andavam circulando nos seus fatinhos de saia e casaco de tons creme e cor de mel, e as suas joías douradas, brincos, pulseiras e colares.
_Por favor, a praça de táxis, onde é?_
_Não há._Riam-se uma para a outra, como se eu tivesse acabado de pronunciar uma boa piada.
Nesse momento, um automóvel pára, mesmo em frente a mim.
_Táxi?_
O motorista que me levara umas horas antes, fazia-me um largo sorriso e abria-me a porta para eu entrar.
_Por esse lado, não. É proibido. Entre por este, se faz favor._
Entretanto, a chuva recomeçou.
Se é assim tão necessário levar a chave, eu levo a chave à senhora, pronto, irei.
Na rua, já não chovia, mas a água tinha-se acumulado por todas as reentrâncias, buracos e zonas côncavas, instalei-me fora de uma poça e fiquei atenta à passagem de um táxi sem passageiros.
Nem dois segundos se passaram, e alguém faz uma travagem brusca ao pé de mim, nem percebi de onde veio, um automóvel pára, deslizando duas das rodas sobre água à minha frente, molhando-me, o condutor abriu a janela do meu lado, tirou o cinto de segurança e esticou-se todo sobre o banco do pendura para falar comigo.
_Para onde quer ir, senhora?_
_Bairro do Fogo. Vou entrar pelo outro lado porque aqui há uma grande poça de água._
-Não vai não senhora, entre por aí, é proíbido entrar pelo outro lado,_ Mas eu fingi não ouvir, dei a volta ao carro, sentei-me no banco de trás e acomodei-me.
_Bairro do Fogo. Mesmo na praça principal, sff ._
O homem resmungou qualquer coisa impercetível e avançou por entre o tráfego. Passou a grande avenida, virou à direita, contornou três quarteirões inclinados e chegou ao topo da cidade. Vai daí, apontei-lhe com o dedo.
-_Ali, vê aquele clarão alaranjado?_
O taxista torceu o pescoço para traz olhou para mim como pôde devido à posição em que se encontrava. Mostrou-se enervado
_Acha que eu não sei onde é o bairro do Fogo? Não tenho categoria, querem lá ver! Ainda ontem cá passei, Pois fique sabendo que tenho cá família!_
-Nada disso. Eu própria só venho cá entregar uma chave.-
_Ah!_ Pareceu ficar mais tranquilo._Onde deseja ficar?_
_Mesmo no largo._
O táxi contornou uma ruela e. assim que o fez, o cenário abriu-se revelando uma praça de tons alaranjados. Nada fazia destoar esses tons que, diziam, tinham a ver com as montanhas em frente, que se erguiam rugosas e sem vegetação, como duas enormes amêndoas recortadas no horizonte.
O automóvel parou junto a um passeio e eu saí de lá de dentro, depois de pagar a corrida com o meu cartão de crédito.
_Até logo!_ despediu-se o bizarro motorista. _Estarei aqui para a levar de novo, no regresso, assim que estiver despachada._ E arrancou a alta velocidade.
Na praça, várias pessoas passeavam, conversando umas com as outras. Todos os homens vestiam de negro, e as mulheres tinham roupas caras e bonitas, muito coloridas, mas todas de tons alaranjados ou castanhos, ou amarelos, uma ou outra peça encarnada, mas não se viam azuis, ou verdes, ou qualquer outra cor que quebrasse o aspeto terroso e abafado do ambiente.
Dirigi-me a duas senhoras que por ali passeavam.
_ Por favor, sabem dizer-me onde fica a rua da Empatia?_
Sorriram uma para a outra, com ares de cumplicidade.
_Ali ao fundo, na esquina da esplanada. Sempre em frente.Vem entregar a chave, não é? Boa sorte!_
agradeci e segui o meu caminho, sem entender muito bem o que se tinha passado. Contornei as mesas da esplanada e, passados alguns metros, cheguei ao meu destino. Número doze. Toquei à campaínha.
Um empregado, impecavelmente vestido de negro, abriu-me a porta.
_Vem por causa da chave, não é? Tenha a bondade de me acompanhar._
Segui-o pelo corredor, um pouco perturbada por todos revelarem saber o motivo da minha ida ali.
No topo do corredor existia uma grande e pesada porta de madeira, que chiou quando o homem carregou num botão do comando e ela se abriu.
Entrei e a porta fechou-se atrás de mim.
_Trouxeste a chave?_ Junto a uma enorme janela de cortinas bordeaux, completamente corridas, estava uma velha senhora de baixa estatura e rechonchuda, sentada numa cadeira que quase parecia um trono. Fazia malabarismos com quatro pequenas laranjas que atirava ao ar com grande perícia.
_A chave. Dá cá. Atira-a daí, que eu apanho_
_Mas..._
_Vá, despacha-te, que eu não tenho o dia todo._
Assim fiz, e ela, com a maior desenvoltura, apanhou-a no ar e adicionou-a ao seu número de circo, sem nunca se atrapalhar ou deixar cair algum dos objetos com que brincava.
_Podes regressar à tua vidinha._
_Foi um prazer._
_Vai, vai, vai..._
A grande porta abriu-se, e eu saí, seguindo o corredor em sentido contrário, que desta vez se encontrava deserto. Finalmente na rua, voltei à praça de terra batida, onde as pessoas continuavam a passear com #tranquilidade.
As senhoras com quem antes tinha falado ainda por ali andavam circulando nos seus fatinhos de saia e casaco de tons creme e cor de mel, e as suas joías douradas, brincos, pulseiras e colares.
_Por favor, a praça de táxis, onde é?_
_Não há._Riam-se uma para a outra, como se eu tivesse acabado de pronunciar uma boa piada.
Nesse momento, um automóvel pára, mesmo em frente a mim.
_Táxi?_
O motorista que me levara umas horas antes, fazia-me um largo sorriso e abria-me a porta para eu entrar.
_Por esse lado, não. É proibido. Entre por este, se faz favor._
Entretanto, a chuva recomeçou.
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