terça-feira, 11 de dezembro de 2018

Nem Mãe #Tintim nem pai Milou

E era ali que as mulheres se entretinham a parir poemas,
quando nasciam eram embalados em braços cuidadosos.
e os poemas percorriam pequenos segmentos
de um lado para o outro
verdadeiros  pêndulos a adormecer.
Era, era uma vez o era uma vez o número sete, talvez.
O último
Fazem camisolas para guardar quentinhos
os mini versos acabados de nascer.
Olha que coisa tão linda, um bebé encantador, olho azul, um mar...
Num canto de pardieiro,
num lugar qualquer do mundo onde viva muita gente,
há sempre uma mulher meia louca
que está a parir um filho entre as pernas de uma cadeira manca.

Era a melodia que cantava quase sempre quando se sentia feliz.

Quando o bebé nasceu,
um poema que quis embalar em braços cuidadosos
fazendo-o percorrer pequenos segmentos
de um lado para o outro,
verdadeiros pêndulos para adormecer,
aqueles braços cruzados debaixo dele.






domingo, 9 de dezembro de 2018

#Pressão



Isto aconteceu a um domingo, já a querer anoitecer, o marido enganou-se na entrada e perdeu a segunda circular, imagine-se, uma estrada tão grande, lembrava-se vagamente de ver a indicação a desaparecer pelo vidro lateral, ver-lhe as costas pelo retrovisor cada vez mais pequenas e irrecuperáveis.
Mexeu nos cabelos imitando o gesto de colocar a rodilha no cocuruto  da cabeça para transportar a água dentro da bilha de barro fresco.
Lembrou-se de como era bom pôr a mão direita na anca, com a outra amparar o jarro, e seguir viagem com o cão atrás dela, o Pastor, até à fonte.
As cabras saltavam sebes, subiam árvores, uma até lhe partiu o jarro de barro uma vez, estava a ter essa bela recordação quando o marido a chamou à realidade.
Olhou-o.
Viu o perfil de condutor, concentrado, com as mãos no volante.
Por um momento esqueceu-se das bichas saltitonas, do sonho lindo que estava a ter e que lhe recuperava algumas memórias muito agradáveis, nem sabia porque se tinha lembrado das cabras, naquela altura do regresso a casa, dos seus dejetos tão engraçados, bolinhas arredondadas e escuras a pintalgarem os campos amarelados, como azeitonas em bacalhau à bráz.
Bela! Ouviu pela segunda vez. Bela o que andaste tu a fumar com a prima Antónia?
Mas os seus olhos vidrados, e a gargalhada estrondosa que deu, só porque  um candeeiro aceso lhe pareceu a lua cheia, retiraram ao homem qualquer dúvida. sobre a influência de estupefacientes no comportamento da mulher.
Bela recostou-se no banco, e semicerrou os olhos. Sentia uma certa #pressão na cabeça.
Voltou a ver os campos, os rasgos das silvas nas suas pernas, os pés calçados com umas tairocas que não lembrava ao diabo, mas muito originais e bonitas, e as cabras junto dela, em total liberdade.
Teve saudades da mata  selvagem a cobrir os montes, dos sussurro dos pequenos roedores, a roçagarem nas ervas secas e nas folhas, do gato a roubar as sardinhas do avô,  das sardinhas a roubarem o gato do avô, do avô a roubar as sardinhas do gato, do gato a roubar o avô das sardinhas, e por aí fora numa sequência de combinações que a matemática tão bem nos explica.
Então à Bela, deu-lhe uma vontade súbita de recordar o campo, e, antes que o marido tivesse tempo para dizer fosse o que fosse, propôs-lhe uma viagem a Caneças para o domingo seguinte, que ele aceitou muito aliviado por ver a esposa a regressar, lentamente, à  normalidade.







sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

vnsk

Sentado numa posição contrária a uma das muitas possíveis e confortáveis à natureza humana, seguia viagem numa jangada, falando com os peixes.
O seu percurso tornava-se diferente por causa daquela maldita opção de viver sobre a água.
observando a imensidão sem ninguém.
Os ombros iam caindo com o peso dos anos e da humidade salgada que não havia em terra firme, raramente avistava golfinhos, cachalotes ou baleias, os nós dos seus dedos eram tão rudes, mais rudes do que algum dia se verá por esse mundo fora.
A travessia louca a que se propunha, não era o maior dos seus sonhos, mas o chamamento tinha sido poderoso, por todos os céus sem fronteiras,havia um grito fortíssimo, convidando-o àquela jornada estúpida e difícil da solidão.
Ia escrevendo, pois, a tarefa maravilhosa que todos querem, todos sao capazes sem se debruçarem até colapsarem alguns dos nervos do corpo, perderem as horas que lhes são devidas, em alucinações.
Tinha a pele seca e queimada do sol, a barba rala por fazer, e pensava na sobrevivência acima de qualquer valor,  horas a fio, enquanto projetava poemas nos raios de sol intenso, que transportavam novidades das paisagens verdes, e quando lhas entregavam, o mar ficava dessa cor de jardim.
Do que era antes não tinha memória.
A bem dizer as memórias esgotavam-se, dissolviam-se em esquecimento, eram só palavras ditas por outras pessoas noutros lugares longínquos.
Na verdade, ouviu-lhes a voz líquida a atravessar o oceano ondulado, vezes sem conta, palavras indizíveis, e sobretudo muito simples, que se alojavam na sua cabeça, como algas ondulando, ou como  prova máxima daquela obrigatoriedade de ser  violento como um deus  em fúria, como a força da maior das tempestades, ou sereno como quem apenas observa para depois relatar calmamente aos seus pares.
O problema irresolúvel nem era a quantidade de água que o circundava, o curto espaço da barcaça, que nem permitia que se andasse para trás e para a frente, de mãos nas costas pensando no que abandonara ou no que via, ou no que viria a acontecer.
O problema era quando os peixes dormiam nas noites sem luar.


quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

A Avó Lina

De manhã, quando o sol incidia sobre o espelho da casa de banho, era a altura melhor para tirar os pelos indesejáveis que lhe apareciam no queixo.

Preparava-se para abrir o saco do tricot, enterrada no fundo da cadeira com os pés envoltos nas pantufas para ver televisão, quando a campaínha tocou.
Dirigiu-se contrariada à porta, mas quando ouviu a voz da neta pelo intercomunicador, alegrou-se e abriu-a, satisfeita.
A esta hora? sorriu, não faz mal, podes vir à hora que quiseres. A casa é tua.
Venho apresentar-te o Pedro. Falei-lhe tanto de ti que deseja conhecer-te.
No ato de cumprimentar o rapaz, a avó Lina percebeu-lhe qualquer coisa de muito invulgar.
Não sabia explicar o motivo para aquela sensação tão forte e real, o ligeiro mau estar que lhe tinha causado, o seu olhar violeta, que, aliás, se tinha cruzado com o dela apenas por frações de segundo.
Percebeu que seria melhor chamar a neta à parte para lhe dizer do aviso que os seus sentidos.
Mila, vem comigo à cozinha. Quero mostrar-te uma coisa.
Enquanto se dirigia a um armário simulando um interesse natural, foi perguntando. De onde conheces este rapaz?
Mas antes que pudesse responder, já ele se encontrava encostado à ombreira da porta, de sorriso enigmático plantado no sembante pálido.
A avó Lina tirou um copo, encheu-o de água, bebeu uns golos, e colocou a restante no vaso pendurado no canto da janela.
Desviou o seu corpo, alto e esguio para ela e a neta  poderem passar, e seguiu-as de regresso à sala.







terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Uma Impossibilidade Para #Kitchenette


A pérola cai no chão.
Lasca-se no seu liso  arredondado, imperfeito.
Todo o colar acaba por se desmanchar.
Fica o fio nu, partido pelo meio,
ou por uma das pontas, frágeis para tanto peso.

Pérola rola para debaixo do armário,
prende-se na ranhura que existe entre os tacos de madeira,
e ali fica, fixa, durante muitos anos, até uma criança
colocar a cara  de lado com a bochacha colada ao soalho,
lustroso e brilhante,
que a Dolores tinha encerado nem há oito dias.

Pérola Branca, vivificada pelas mãos rechochudas,
pelos dedos infantis.
Com a ajuda de um palito encontrou muitas,
e juntou-as num canto.
Já fazia um pequeno monte,
o colar que tinha deixado de existir.

As pérolas abandonaram os pescoços de cisne
em que se passeavam pelos eventos,
abandonaram a gaveta onde eram guardadas,

como se vivessem ainda dentro da matéria morta
das conchas,











Como uma #Kitchenete no Jardim

Quando lhe vieram com a conversa, não se lembrava de nada,
e mesmo agora,depois de se dedicar a pensar no assunto,
não encontrava mais do que uma memória vaga,
uma lembrança insuficiente para lhe ativar os sentidos,
como se o seu corpo fosse já uma estátua de bronze no meio de um jardim de altas sebes,
como num labirinto, com a raínha má que nos persegue com a tropa assassina comandada pelos ases de copas.
O filho perguntou-lhe se queria alguma coisa.
Disse que não e agarrou a cabeça com as duas mãos para que não se soltasse
quando os jovens se empoleirassem nele, durante a noite, e se agarrassem ao seu pescoço.
Moínhos gritavam de dor, sangravam das feridas provocadas pelas lanças,
e enquanto Rocinante pastava,
o filho tocou-lhe no ombro, ao de leve,
ele sentiu a realidade do toque e inclinou  o tronco  ligeiramente,  assentindo.
Ninguém diria que era feito daquele material inerte e frio.
Os doze cisnes que voavam sobre o telhado, constantemente,
eram grandes lençoís brancos tapando a claridade, numa representação do medo,
e como tal, tomava medicamentos para os afastar.
Estavam suspensos do espanta espíritos pendurado na janela, para se servir à vontade.
Os seus invólucros metálicos, provocavam brilhos irrequietos nas paredes.
Mas isso foi antes de ficar ali, a criar musgo por causa da humidade.
Viu o rapaz fazer o caminho de retorno,
e gritou qualquer coisa impercetível qua lhe saíu da boca entreaberta,
esculpida majestosamente.
Ele não ouviu, claro.
 Todos lhe gabavam a pele esticada, o olhar concentrado, fixo na porta da entrada.
Quem não gostava dele, dizia que se escondia atrás de um grande tronco
e da chuva miúda que caía em volta da ilha de Avalon,
e que o viam, também, na barca, atravessando as águas e o nevoeiro,
logo pela manhã, como as guerreiras submersas na neblina.
Como mal se lembrava, semicerrava os olhos,
dentro do possível, ou aceitava o gesto de lhos fecharem
para que pudesse descansar um pouco daquela posição rígida.
em que o seu criador o colocou para sempre, numa bizarra homenagem.








domingo, 2 de dezembro de 2018

Nem Mais

Passava o sol em céu alaranjado
passava rápido
como não deveria acontecer.
Os dias tinham poucos minutos
de sol.
A escuridão era parte dos corações
da cor  habitual.

Bombeavam nem se sabe o quê
Não era sangue,
mas sim uma matéria pastosa
a que chamávamos, na altura,
princípio do fim.

Sem conecção com a realidade,
era ele que, afinal,
deixava a caneta correr.

Quando a noite se punha
que era sempre  noite
no mundo indiferente
onde o natal acontecia
cada vez mais cedo
e maior.

Eram meses de Natal
contornando as iluminações
puxando com grande vigor
a perna esquerda
que não obedecia tanto
como a outra.

Compravam-se discos, livros,
estava escuro, apesar das luzes,
#Maria Callas,
António Lobo Antunes,
ou um suporte para pôr
os tachos e as panelas a ferver.