Certa de que o fim da vida é o mais banal de todos os acontecimentos, a velhota parou no passeio, balbuciou qualquer coisa, deu meia volta e atravessou a estrada sem olhar.
Vinha de lá o elétrico, descia a calçada, ao condutor foi-lhe impossível parar a máquina a tempo, nem ela tinha agilidade para lhe fugir, e aquele monstro amarelo deu-lhe uma pancada fatal.
Foi recolher uns cacos de vidro refletores do rio, do outro lado, junto ao lixo, e quando nos deparamos com objetos com tão magníficas caraterísticas, lindos, distraí-mo-nos do resto do mundo, não ligando importância a elétricos luzidíos que descem as ruas, às vezes para nos matar.
O olhar da mulher estava fixo naquilo, e era por isso que o seu coração batia descompassadamente, e agora que já os trazia consigo, dentro do saco, a importância do resto das coisas ficou reduzida a nada.
Enquanto isso, #Claudia Cardinale, curvava-se ainda mais para tratar das flores. Ela sabia, calculo, que se tivermos algum cuidado e conhecimento sobre o assunto, conseguimos obtê-las, de espécies diferentes, todos os meses, e isso é bom para quem gosta de flores.
segunda-feira, 16 de abril de 2018
sábado, 14 de abril de 2018
Âmbar
De autor desconhecido,
a torre erguia-se, já completa,
na periferia da cidade.
Erigida a obra,
a primeira primavera
passou-lhe por cima,
e roubou quase todas as folhas
às árvores dos terrenos circundantes,
e raras restaram nos troncos
vivos, mas nús.
As que fugiram,
as folhas,
o vento transportou-as
para as colar ao monumento,
sem que ninguém disso
se apercebesse.
Os papagaios,
há muito adaptados ao ambiente,
soltavam penas verdes,
que formavam pequenos círculos,
colocados de tempos a tempos,
nas paredes.
Os anos foram passando,
surgiram as dúvidas na comunidade
artística, os artistas
que reuniam bastas vezes,
vestidos excentricamente
a rigor,
e ele via-os ao longe
os seus gestos disparatados,
o quadriculado das vestimentas,
conversando com aqueles outros,
os outros,
os que duvidavam,
racionalmente, duma obra
que inclinava com o tempo,
que mexia,
duvidavam, muito naturalmente,
da sua
sustentabilidade.
E enquanto tombava a construção,
e as pedras se movimentavam,
impercetivelmente,
mas magnéticas,
recebendo nos braços, todos os
troncos,
todas as folhas, e algumas flores.
escondia-se ele debaixo da terra,
olhando, com os seus olhos tímidos,
as pontas em #âmbar
dos sapatos.
domingo, 8 de abril de 2018
Urticária
Sobre os pratos,
entre os braços
e os garfos e as facas
e as vozes,
pairava uma ideia
inocente.
Depois serpenteava
enquanto nevava nos copos,
e ao longe o sol queimava,
em velhos troços de estrada.
Era eu que imaginava
poemas descabidos,
fracos,
sem genialidade nenhuma,
enquanto o vento transformado
em nada,
rodopiava pelas bocas
e pelos botões
dos casacos,
pelas pernas esticadas
para aquecer.
entre os braços
e os garfos e as facas
e as vozes,
pairava uma ideia
inocente.
Depois serpenteava
enquanto nevava nos copos,
e ao longe o sol queimava,
em velhos troços de estrada.
Era eu que imaginava
poemas descabidos,
fracos,
sem genialidade nenhuma,
enquanto o vento transformado
em nada,
rodopiava pelas bocas
e pelos botões
dos casacos,
pelas pernas esticadas
para aquecer.
sexta-feira, 6 de abril de 2018
sarampo
Quando acordei, um ganso passeava pelo teto do meu quarto.
As suas patas, com membranas interdigitais, faziam de ventosa na superfície branca, e ele avançava como se fosse normal passear por ali com o corpo virado ao contrário.
Aquele ruído, "clak, clak", das patas a desprenderem-se eliminando o vácuo, despertou-me completamente.
"Eh! O que estás aqui a fazer?"
"Eh, não. Eu tenho nome! Sou o #Sarampo."
A lata do animal! Aparece sem ser convidado e ainda se põe com exigências.
Mas antes que eu pudesse responder, atravessou a parede e desapareceu.
Aguardo uma próxima vez que me visite para o confrontar com tamanho abuso da liberdade.
Isto só visto. Se eu contar, ninguém acredita.
As suas patas, com membranas interdigitais, faziam de ventosa na superfície branca, e ele avançava como se fosse normal passear por ali com o corpo virado ao contrário.
Aquele ruído, "clak, clak", das patas a desprenderem-se eliminando o vácuo, despertou-me completamente.
"Eh! O que estás aqui a fazer?"
"Eh, não. Eu tenho nome! Sou o #Sarampo."
A lata do animal! Aparece sem ser convidado e ainda se põe com exigências.
Mas antes que eu pudesse responder, atravessou a parede e desapareceu.
Aguardo uma próxima vez que me visite para o confrontar com tamanho abuso da liberdade.
Isto só visto. Se eu contar, ninguém acredita.
quinta-feira, 5 de abril de 2018
5 de abril (por acabar)
#Ronaldo entrou, mas teve que empurrar as outras palavras
todas um pouco para o fundo da página para lhe darem espaço.
Depois, sentou-se numa pedra. Era um hábito seu, sentar-se numa pedra, agarrar num galho
com a medida certa e com a sua ponta desenhar no chão, distraidamente, um ou outro traço
sem sentido.
Caía da fonte a água, gota a gota, mágica e perfumada, por causa de algumas flores cuja essência era libertada apenas quando os pingos mergulhavam, matematicamente, na superfície transparente
e formavam círculos cheirosos.
Procurou estar atento, se procurou! Muito atento, ao frémito das folhas que falavam, uma competência mais que natural, já que a brisa as agitava, ou então porque as sentia debaixo dos pés descalços.
E repetida, e invariavelmente, neste preciso momento, atirava o pedaço de ramo seco
para longe, e, caminhando, pensativo, saía calmamente do texto.
,
.
quarta-feira, 4 de abril de 2018
4 de Abril
Olhei por cima dos óculos,
já a uma distância razoável
do amontoado de rascunhos
imperfeitos
espalhados sobre a mesa,
quando deles emergiram aquelas
#quatro criaturas
medonhas,
nunca antes mencionadas
por ninguém.
Foi o movimento impercetível
das palavras no tampo,
que me chamou a atenção,
despertou o meu interesse
e olhei para baixo,
ainda a tempo de ver desaparecer
os seus corpos maleáveis e vivos,
como dragões,
por entre os versos inacabados,
por entre os pedaços de prosa,
em bocados.
E assim como desapareceram
na fração do segundo
seguinte
plenos de força, se reanimaram,
sem me darem o tempo
necessário,
para tomar medidas,
para que os seu corpos voláteis
não fizessem arder, completamente,
as folhas.
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já a uma distância razoável
do amontoado de rascunhos
imperfeitos
espalhados sobre a mesa,
quando deles emergiram aquelas
#quatro criaturas
medonhas,
nunca antes mencionadas
por ninguém.
Foi o movimento impercetível
das palavras no tampo,
que me chamou a atenção,
despertou o meu interesse
e olhei para baixo,
ainda a tempo de ver desaparecer
os seus corpos maleáveis e vivos,
como dragões,
por entre os versos inacabados,
por entre os pedaços de prosa,
em bocados.
E assim como desapareceram
na fração do segundo
seguinte
plenos de força, se reanimaram,
sem me darem o tempo
necessário,
para tomar medidas,
para que os seu corpos voláteis
não fizessem arder, completamente,
as folhas.
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segunda-feira, 2 de abril de 2018
...
Uma imagem ridícula
seria agora ver
as nuvens
largarem pequenos
apontamentos
em forma de gotas
minúsculas.
O céu baixaria
formando um chapéu
de abas largas
acinzentando a cidade
e acabaria por desvirtuar
a grande #odisseia
dos bocadinhos
de papel
lançados para longe
pelo vento.
Os dedos de quem
escreveu
a chuva miúda,
impertinente,
ou o nevoeiro a
penetrar nas ruelas,
não existem.
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seria agora ver
as nuvens
largarem pequenos
apontamentos
em forma de gotas
minúsculas.
O céu baixaria
formando um chapéu
de abas largas
acinzentando a cidade
e acabaria por desvirtuar
a grande #odisseia
dos bocadinhos
de papel
lançados para longe
pelo vento.
Os dedos de quem
escreveu
a chuva miúda,
impertinente,
ou o nevoeiro a
penetrar nas ruelas,
não existem.
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