domingo, 17 de outubro de 2021

Um dia, já sem pernas, 
sem braços, sem nada, 
o corpo de um corpo 
desapareceu, finalmente.
Reduziu-o o tempo, 
primeiro para o tamanho
de uma fotografia, 
e depois para o de uma 
antiga conta de colar, 
presa num rodapé, 
até que se transformou
em moléculas  
de saudoso aroma
ou, quem sabe, no sabor 
esbatido de um biscoito
comido ocasionalmente.
Mais tarde, quando o 
futuro se aproximou,
e o passado correu numa 
viagem sem fim nem forma, 
as flores do cabelo
e os aneís dos dedos
caíram-lhe, de repente.
E então, numa paisagem de 
qualquer que seja o mar adentro,
num azul de pintor azul
de uma massa de água agitada,
viu-se submerso
no belo quadro de uma parede.



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