As árvores têm uma vida muito aborrecida.
Tanto faz que sejam pessegueiros, como #ulmeiros, como sabugueiros.
Não podem sair do mesmo sítio, não podem correr, à vontade.
Os raros movimentos que fazem prendem, uns com o crescimento impercetível, outros com o abanar a que o vento as obriga.
Se se tratar de uma brisa suave, quase nem notam, nem elas nem nós, que nos perdemos tempo a olhar, embevecidos para as suas copas. Se se tratar de um vento um pouco mais forte, já falam. Ou, pelo menos ouvimos um restolhar muito especial, nada parecido com
Com tantas árvores que há por aqui, e o sacana do cão escolhe sempre o #ulmeiro.
Quando dou por ele, já está de perna alçada,
Bem posso gritar: "Sai daí! Olha o #ulmeiro!", que ele não liga nenhuma.
Depois vem a patroa, mete lá o nariz, e se ela tem umas ventas sensíveis, um faro apurado, isso é que tem, e começa a resmungar:
"Eu não te pedi para tomares conta?
Pois..., o mijo do cão dá cabo do #ulmeiro, não devias deixar, o #ulmeiro está a ficar seco
por causa do ácido!
Comprei este #ulmeiro na Venda da Cabeçuda, quando lá fomos à feira, custou-me um dinheirão!",
E tu não sabes que o mijo é ácido?
Não falámos já nisso?
E que os #ulmeiros são mesmo super sensíveis?
Para que é que eu fui comprar este #ulmeiro..., meus deus!
Um #ulmeirinho tão bonito... E se foi caro!"
Não é fácil...
quinta-feira, 31 de maio de 2018
quarta-feira, 30 de maio de 2018
Pés de anjo
O pé do meu candeeiro
de mesa é um anjinho
com as asas pequenas
e o corpo gordo.
Como faria para voar,
pergunto-me,
se existisse realmente,
com sustento tão minúsculo
para suportar
todo o seu peso?
Se calhar, foi moldado
para ser
um anjo helicóptero.
Não lhe colocaram
umas asas maiores
propositadamente,
para não se confundir
com um anjo verdadeiro.
E o que importa isso
para as pessoas que não têm,
como eu tenho,
um anjinho a fazer de candeeiro?
Ou outro corpo celeste
idêntico
a um anjinho mal parido.
Tão bonito que é!
E ilumina, é o engraçado
que tem este candeeiro
angelical.
Uma bonita
figura infantil
com um abajour
na cabeça!
E que posso ligar
a qualquer hora!
Durante o dia,
também o acendo.
Minimiza
os reflexos
da transparência do sol,
quando ele se mostra,
e que entram pela janela,
e se não entrarem, o que
também acontece,
igualmente incomodam,
e é preciso agir,
embora não me apeteça.
Mas tudo
o que se possa fazer
não será suficiente.
O anjinho não dá luz
que chegue.
É um anjinho falso
de sorriso iluminado
artificialmente,
com aquele grande chapéu
de fluorescência
duvidosa.
Olha...! Acabou de dar sinal.
A luz começou aos soluços
intermitentes,
triste que nem sei,
atenção, milagre!
Era tão evidente
do que se tratava!
Era só
substituir
a puta da lâmpada.
de mesa é um anjinho
com as asas pequenas
e o corpo gordo.
Como faria para voar,
pergunto-me,
se existisse realmente,
com sustento tão minúsculo
para suportar
todo o seu peso?
Se calhar, foi moldado
para ser
um anjo helicóptero.
Não lhe colocaram
umas asas maiores
propositadamente,
para não se confundir
com um anjo verdadeiro.
E o que importa isso
para as pessoas que não têm,
como eu tenho,
um anjinho a fazer de candeeiro?
Ou outro corpo celeste
idêntico
a um anjinho mal parido.
Tão bonito que é!
E ilumina, é o engraçado
que tem este candeeiro
angelical.
Uma bonita
figura infantil
com um abajour
na cabeça!
E que posso ligar
a qualquer hora!
Durante o dia,
também o acendo.
Minimiza
os reflexos
da transparência do sol,
quando ele se mostra,
e que entram pela janela,
e se não entrarem, o que
também acontece,
igualmente incomodam,
e é preciso agir,
embora não me apeteça.
Mas tudo
o que se possa fazer
não será suficiente.
O anjinho não dá luz
que chegue.
É um anjinho falso
de sorriso iluminado
artificialmente,
com aquele grande chapéu
de fluorescência
duvidosa.
Olha...! Acabou de dar sinal.
A luz começou aos soluços
intermitentes,
triste que nem sei,
atenção, milagre!
Era tão evidente
do que se tratava!
Era só
substituir
a puta da lâmpada.
...
Anda, Vamos para casa!
O cão seguia-a para todo o lado, não era como os gatos, que não se mexiam pela vontade dos outros assim tão facilmente.
Quem a via, todos os dias, o lenço na cabeça ainda à moda antiga, lá da sua aldeia profunda entre as serras, quem a via pensava que plantava bolbos no quintal.
O corpo dobrado, os joelhos no chão e as mãos a moverem-se, lentamente, junto ao solo, todos os dias da semana, do mês ou do ano.
A casita entalada entre os edifícios, sobrevivia, doente, à profusão de prédios altos, a tinta soltava-se em farrapos, caía com o mau tempo, ou no verão por causa do calor abrasador.
As pessoas debruçavam-se das varandas, como os macacos nas árvores, lá para África ou coisa assim. Quem por ali passava com frequência,, também lhe estranhava aquela tarefa de todos os dias, fosse verão ou inverno, chovesse ou fizesse sol.
O avental, sempre o mesmo, tinha um bolso grande, à frente, de onde retirava qualquer coisa para colocar naqueles buracos, mas a sua postura enrolada, com os braços fletidos em meia lua, não permitia perceber-se o que punha, de facto, dentro da terra, nem era motivo de tanta curiosidade assim. Pensavam eles nas suas vidas, ou em coisa nenhuma, quando olhavam das janelas, onde estavam para fumar um cigarro, numa pausa qualquer.
O cão ajudava, com as patas, a fazer as aberturas. escavava para si. e, às vezes, encontrava algum lixo, como pedaços de vidro já polido pelo tempo, ou restos de jornais, com os acontecimentos desbotados, massacres enterrados, em Chernobyl ou #Tiananmen.
Se alguém se aproximava, perigosamente, ele ia ladrar ao portão, mostrava-lhes os dentes ferozes, e elas afastavam-se porque tinham medo, e ele voltava para o lado da dona, sempre atento à necessidade de proteger aquele espaço.
Ele era a mais importante testemunha, os felinos também viam, mas muito desinteressadamente, de que a mulher escondia um tesouro incalculável, moeda a moeda, naquele jardim de aparência descuidada, mas quando morresse, se quisessem, e haveriam de o querer porque o dinheiro faz muita falta , era só revolverem o solo, muito superficialmente, sem lhes dar quase trabalho, e encontrariam uma pequena fortuna que haveria, se Deus quisesse, de ajudar a todos.
O cão era inteligente o suficiente para lhes indicar a importância de remexer a terra. Se fosse necessário abocanhava um pedaço das calças de alguém, puxá-lo-ia até a um dos locais secretos , abanaria a cauda e esfregaria a terra com o focinho.
Mas teria que saber escolher, a pessoa certa. Das que lá estivessem, visitando a casa vazia, teria de ser o que lhe parecesse mais amigo dos animais, mais generoso, e mais sózinho.
O cão seguia-a para todo o lado, não era como os gatos, que não se mexiam pela vontade dos outros assim tão facilmente.
Quem a via, todos os dias, o lenço na cabeça ainda à moda antiga, lá da sua aldeia profunda entre as serras, quem a via pensava que plantava bolbos no quintal.
O corpo dobrado, os joelhos no chão e as mãos a moverem-se, lentamente, junto ao solo, todos os dias da semana, do mês ou do ano.
A casita entalada entre os edifícios, sobrevivia, doente, à profusão de prédios altos, a tinta soltava-se em farrapos, caía com o mau tempo, ou no verão por causa do calor abrasador.
As pessoas debruçavam-se das varandas, como os macacos nas árvores, lá para África ou coisa assim. Quem por ali passava com frequência,, também lhe estranhava aquela tarefa de todos os dias, fosse verão ou inverno, chovesse ou fizesse sol.
O avental, sempre o mesmo, tinha um bolso grande, à frente, de onde retirava qualquer coisa para colocar naqueles buracos, mas a sua postura enrolada, com os braços fletidos em meia lua, não permitia perceber-se o que punha, de facto, dentro da terra, nem era motivo de tanta curiosidade assim. Pensavam eles nas suas vidas, ou em coisa nenhuma, quando olhavam das janelas, onde estavam para fumar um cigarro, numa pausa qualquer.
O cão ajudava, com as patas, a fazer as aberturas. escavava para si. e, às vezes, encontrava algum lixo, como pedaços de vidro já polido pelo tempo, ou restos de jornais, com os acontecimentos desbotados, massacres enterrados, em Chernobyl ou #Tiananmen.
Se alguém se aproximava, perigosamente, ele ia ladrar ao portão, mostrava-lhes os dentes ferozes, e elas afastavam-se porque tinham medo, e ele voltava para o lado da dona, sempre atento à necessidade de proteger aquele espaço.
Ele era a mais importante testemunha, os felinos também viam, mas muito desinteressadamente, de que a mulher escondia um tesouro incalculável, moeda a moeda, naquele jardim de aparência descuidada, mas quando morresse, se quisessem, e haveriam de o querer porque o dinheiro faz muita falta , era só revolverem o solo, muito superficialmente, sem lhes dar quase trabalho, e encontrariam uma pequena fortuna que haveria, se Deus quisesse, de ajudar a todos.
O cão era inteligente o suficiente para lhes indicar a importância de remexer a terra. Se fosse necessário abocanhava um pedaço das calças de alguém, puxá-lo-ia até a um dos locais secretos , abanaria a cauda e esfregaria a terra com o focinho.
Mas teria que saber escolher, a pessoa certa. Das que lá estivessem, visitando a casa vazia, teria de ser o que lhe parecesse mais amigo dos animais, mais generoso, e mais sózinho.
terça-feira, 29 de maio de 2018
#Salsa ou coentros?
As dúvidas descem
três vezes
as mesma escadas
cruzam-se sempre
com os mesmos,
que são todos,
escondidos
nas entrelinhas.
Cada espaço vazio,
por muito pequeno
que seja,
é um ele, uma ela,
uma multidão
que preenche
o buraco
onde morava antes,
o corpo
de uma estrela sem
nome.
Serão.
Um confortável
serão à lareira,
como um aceno
impercetível,
de outras eras,
ou a confirmação
de que
me engano.
Que não
subo e desço,
invariável, e
repetidamente,
a grande inclinação,
o enorme desnível,
com o coração a bater
deseparadamente
acelarado,
e inútil,
só para tentar
agarrar
este poema
de merda.
três vezes
as mesma escadas
cruzam-se sempre
com os mesmos,
que são todos,
escondidos
nas entrelinhas.
Cada espaço vazio,
por muito pequeno
que seja,
é um ele, uma ela,
uma multidão
que preenche
o buraco
onde morava antes,
o corpo
de uma estrela sem
nome.
Serão.
Um confortável
serão à lareira,
como um aceno
impercetível,
de outras eras,
ou a confirmação
de que
me engano.
Que não
subo e desço,
invariável, e
repetidamente,
a grande inclinação,
o enorme desnível,
com o coração a bater
deseparadamente
acelarado,
e inútil,
só para tentar
agarrar
este poema
de merda.
Salsa
Lembro-me muito bem.
Andava eu, faz muitos anos, a passear de mão dada com a minha avó por entre as barraquinhas da praça, enquanto fazíamos as nossas compras ao mesmo tempo que ela me explicava tudo o que observávamos em redor, devo referir, apenas como complemento, que naquela altura não havia tanta facilidade em operar cataratas como há agora, mas dizia, ela ia-me ensinando tudo o que podia, dentro das suas limitações, claro, ainda hoje confundo, azeitonas com caganitas de ovelha, e eram, assim, uns primeiros domingos do mês maravilhosamente passados.
Lá dentro havia sempre uma grande algazarra. Toda a gente comprava, vendia , falavam uns com os outros,e os vendedores de ervas aromáticas apregoavam os seus produtos:
É a hortelã da ribeira,
é o coentro do juncal,
é o oregão da Lurdes,
é a #salsa do Amaral!
A minha avó, sempre sorridente, perguntava-me nesta altura: " O que é que eles dizem, Minha filha? Não percebi!"
E aquela pergunta, tão inocente e singela, enternecia-me, de tal forma, que várias vezes pedi àquelas senhoras e àqueles senhores, para lhe irem gritar aos ouvidos, só para a ver feliz.
Depois de bem abastecidas de carne, peixe, e legumes para uma semana inteira, voltávamos para casa encurtando caminho pelos pinhais, e eu ia saltitando à sua frente, carregando, alegremente, os sacos por entre as silvas.
Chegadas à tranquilidade do lar, a bondosa velhota dirigia-se para o meu casaco enroladinho e abandonado em cima de uma cadeira, fazia-lhe umas festas e chamava-lhe Tareco.
Doces memórias.
,
segunda-feira, 28 de maio de 2018
Ruço
A palavra #ruço, ouvi-a muito quando era miúda, lá para cima para a beira alta. Referiam-se as pessoas aos que são louros, ou alourados.
Bem mais tarde, voltei a ouvir essa designação na boca de uma vizinha referindo-se à minha filha mais velha que é na verdade, um bocadino "ruça", e confesso que achei engraçado por ser uma palavra raramente, ou mesmo nunca, ouvida por estas bandas.
Essa senhora vivia no mesmo prédio que eu, um andar abaixo, com o marido e dois filhos pequenos, com idades idênticas às das minhas crianças, e andavam inclusivamente, todos no mesmo colégio.
Soube-se, a determinada altura, que o miúdo mais velho tinha morrido. Constava que tinha sido assassinado, uma história monstruosa que me afetou bastante, mas ninguém sabia pormenores da situação.
Um dia em que o guarda noturno me bateu à porta para receber o pagamento mensal, questionei-o sobre o assunto e ele respondeu-me: "Minha senhora, não se meta nisso."
Por isso, quando ouço esta palavra, associo-a, invariavelmente, a esta história macabra, e é também, por estas e por muitas outras, que gosto tanto de inventar irrealidades, ou fantasiar o real, para construir à minha volta um mundozinho mais alegre e mais bonito.
Bem mais tarde, voltei a ouvir essa designação na boca de uma vizinha referindo-se à minha filha mais velha que é na verdade, um bocadino "ruça", e confesso que achei engraçado por ser uma palavra raramente, ou mesmo nunca, ouvida por estas bandas.
Essa senhora vivia no mesmo prédio que eu, um andar abaixo, com o marido e dois filhos pequenos, com idades idênticas às das minhas crianças, e andavam inclusivamente, todos no mesmo colégio.
Soube-se, a determinada altura, que o miúdo mais velho tinha morrido. Constava que tinha sido assassinado, uma história monstruosa que me afetou bastante, mas ninguém sabia pormenores da situação.
Um dia em que o guarda noturno me bateu à porta para receber o pagamento mensal, questionei-o sobre o assunto e ele respondeu-me: "Minha senhora, não se meta nisso."
Por isso, quando ouço esta palavra, associo-a, invariavelmente, a esta história macabra, e é também, por estas e por muitas outras, que gosto tanto de inventar irrealidades, ou fantasiar o real, para construir à minha volta um mundozinho mais alegre e mais bonito.
domingo, 27 de maio de 2018
Malária
A propósito de #quinino, recordei, na minha cabeça sempre na lua, que a malária mata que se farta.
Mas também, é em África. bué longe, e nem é em todo o sítio, se calhar por causa disso é que já me tinha esquecido.
Nem me lembro dos números e até já vi estatísticas e porras dessas.
E a modos que é uma doença tratável, parece-me.
Tratável, não, suscetível de tratamento, assim é que é, não vou agora borrar o texto.
Mudando agora de continente, cá pelo nosso país ainda temos alguns casos. (estes números é que não sei, de todo, e também não tenho verdadeiro e genuíno interesse neles, admito). Depois de devidamente diagnosticadas, as pessoas entram de imediato numa engrenagem complexa, de ajuda, talvez se possa dizer assim, que está preparada para tudo, e ao dispor de todos.
Podem até não ter dinheiro ou, por outro motivo qualquer, não ter direito ao sistema. Para elas, tudo vai funcionar na mesma.
Olha que não sei se concordo... Lol!
Uns a pagarem para os outros? Meu rico dinheirinho!
Mas também, é em África. bué longe, e nem é em todo o sítio, se calhar por causa disso é que já me tinha esquecido.
Nem me lembro dos números e até já vi estatísticas e porras dessas.
E a modos que é uma doença tratável, parece-me.
Tratável, não, suscetível de tratamento, assim é que é, não vou agora borrar o texto.
Mudando agora de continente, cá pelo nosso país ainda temos alguns casos. (estes números é que não sei, de todo, e também não tenho verdadeiro e genuíno interesse neles, admito). Depois de devidamente diagnosticadas, as pessoas entram de imediato numa engrenagem complexa, de ajuda, talvez se possa dizer assim, que está preparada para tudo, e ao dispor de todos.
Podem até não ter dinheiro ou, por outro motivo qualquer, não ter direito ao sistema. Para elas, tudo vai funcionar na mesma.
Olha que não sei se concordo... Lol!
Uns a pagarem para os outros? Meu rico dinheirinho!
Subscrever:
Mensagens (Atom)