sábado, 2 de setembro de 2023

Para terminar

Puma tinha três filhos, Larica, Topia e Maria da Ressuscitação,  cujo nome, por ser a mais pequena, sofrera já influências da esforçada evangelização a cargo do padre Alcénio que a ela se dedicava naquela aldeia perdida nas montanhas desde os seus vinte e poucos anos.
Larica nunca tinha constituído problema, crescera, até áquele momento da adolescência,  de uma forma tranquila e obediente, mas Puma estava com muita dificuldade em conter Topia, que desde cedo mostrava tendência para a transgressão. 
Cansada de inúmeras chamadas de atenção,  naquela fase que o menino atravessava e que, claramente, parecia ser a pior de todas ao momento, ultrapassara os limites quando mandara a avó bardamerda em plena cerimónia religiosa, a  preocupada mãe resolveu pedir ajuda ao padre que, aliás, iria incorrer na missão pela milionésima vez, sem sucesso, e sempre a pedido da mãe deseperada.



sábado, 13 de maio de 2023

Um Homem Sozinho Na Ilha para terminar

O homem julgava encontrar-se sózinho naquela ilha, de forma que ficou surpreendido quando, após ter desenterrado a garrafa, presa na areia molhada por pouco, mesmo ali à beira da água, trazida pelas ondas compridas que enchem a maré, leu o que estava escrito na mensagem que ela transportava dentro do seu corpo de vidro.
O objeto, cilíndrico e baço,  boiara pela superfície da água, viera ondulando e estacara por ali, já na fase em que as ondas começam a retroceder e abandonam umas quantas coisas na praia.
Havia dois dias que  estava preso na ilha. Acordara atordoado e nem a noção  do tempo parecia ter, julgou-se em abandono total, o desespero tendia a invadi-lo, embora estivesse a lutar com todas as suas forças para isso não acontecer. 
Foi natural e humano que, vendo uma folha de papel dobrado, invenção inequívoca do ser humano, prova provada da sua existência, sentisse, de alguma forma, um certo alento, nem que se tratasse apenas de um recado de duas ou três palavras, e a esperança de que a garrafa não  tivesse percorrido um oceano para ali chegar, e, por consequência, um maior afastamento.
Tadeu retrocedeu uns metros, para se sentar na areia seca, e, com a ajuda de um lenho de arbusto que o vento empurrara das dunas até ao areal, e gestos meticulosos, tratou de retirar o pequeno manuscrito de lá de dentro e salvá-lo da sua prisão perpétua, à mercê das ondas.
Não é nada fácil explicar muito em poucas palavras, o que tornava a missiva incompreensível, e para mais que a tinta esborratara as letras e destruíra irreparavelmente o recado.
Ainda assim, ao homem pareceu-lhe mais umas coisas que outras, tendia a puxar o sentido da mensagem para algo esperançoso, uma sugestão, por menor que fosse, para acordar do pesadelo que parecia, afinal, ser a própria realidade.
Então, onde podia ter lido, alguma frase irrelevante, daquelas que viajam à tona da água imortal, naufrágios de cem anos e outras memórias desnecessárias, ele julgou antes tratar-se de uma 



sábado, 15 de abril de 2023

não vou mentir

Não vou mentir 
Foi a beleza que me levou a ti.
Passavas, atento, 
como um animal predador 
que passa pelos ramos mais intrincados na selva, 
sem nada, nem ninguém dar por ele.
Assim tu passaste, 
passaste por mim, não me lembro de ouvir os teus passos, 
nem tão pouco te ouvi falar, nessa época eras de poucas falas, 
muito diferente do que és hoje.
Para te arrancar um pedaço de coração, 
só tinha que o prender com alguns fios invisíveis que guardava no casaco.
Foi na beleza que nos vimos, 
após demorada observação da nossa forma de levar à boca um cigarro, 
ou um pedaço de maçã, 
ou num livro, ou numa faca, nem sei porquê.
Não vou mentir, nunca menti, 
todos sabem que é mentira ter sido a beleza que me levou a ti,
foi outra coisa mais linda ainda do que ela, 
metida nas mãos nos bolsos, 
por causa do cabelo endiabrado que o vento me  empurrava para os olhos.
Foi a beleza que me levou a ti e lá me deixou, ao teu lado, 
até um momento qualquer, 
Não vou mentir, a sombra da minha mão escreve contraluz, 
não eu.

(Não vou mentir. 
Não sendo poeta 
deixo para eles os acasos e os ocasos 
em cada canto do meu quarto 
e as borboletas 
e outros insetos 
repetindo movimentos helicoidais). 




sexta-feira, 3 de março de 2023

Qualquer Um

O Rui dissera ter-lhe deixado uma mensagem debaixo da tábua solta do costume. A arrecadação feita de forma tosca em barrotes de madeira, deixava várias saliências, ranhuras, esconderijos  nas madeiras da casa tosca.colocadas  junto ao chão para reforço da estrutura tosca que os pais e os avós erigiram com o intuito de guardar certas ferramentas e outro material que utilizavam na horta.
Simão preferia ali ir quando o sol estava mais alto. Ainda era muito cedo para que conseguisse liquefazer em transparente a geada branca que cobria as ervas. 
E lá estava ela. Era um papel dobrado em quatro, uma folha quadriculada, quase certo que arrancada do caderno de matemática, escrito em letra de criança  haveria um enigma que ele tinha que esclarecer.
De início, os bilhetes tinham mensagens fáceis de descodificar, "brilha uma luz no fundo do poço", foi simples. Havia três poços,  apenas, dentro do universo que se atreviam a explorar, um, tapado com uma grande roda de cimento, outro com proteções em ferro forjado, onde assentava uma engenhoca para puxar água de lá debaixo, e um terceiro sem qualquer intervenção humana, um grande buraco, junto a uma nascente, onde cresciam silvas verdejantes e outra vegetação traiçoeira alimentadas pela abundância  de água na terra onde viviam.
Tinha sido óbvio que se tratava do segundo, já que era impossível para duas crianças arredarem aquela roda pesadíssima que cobria o primeiro, e do terceiro els não chegavam perto, sabiam, por inúmeros afisos dos adultos, tratar-se do mais perigoso.
De forma que Simão se chegou ao segundo poço com o objetivo de desvendar o mistério, e, de facto, o balde da engenhoca estava metido lá  para baixo. Bastou-lhe, com algum esforço,  convenhamos, puxar a pesada alavanca e rodá-la para fazer emergir o balde, mas lá  conseguiu e, dentro dele

sábado, 11 de fevereiro de 2023

Um feixe de luz azul
atravessava o caminho,
à minha frente,
uns metros antes da curva.
E enquanto permanecia,
e não morria
nos choupos
do outro lado da estrada,
eu deixava-me 
enlevar
naquela inclinação morna.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2023

Era uma vez um reino onde governava um simpático rei que tinha três filhas.
As três jovens eram muito diferentes umas das outras, também fisicamente, mas sobretudo no que dizia respeito ao caráter. 
Ninguém diria que tinha sido educadas pela mesma mãe, nem pelas mesmas aias.
A mais velha era muito má  e odiava pobrezinhos, a segunda, a do meio, era-lhes indiferente e evitava cruzar-se com eles para não  ter que se chatear, e a terceira, mais novinha, era muito bondosa  e até os procurava para poder dar largas a tanta generosidade, porque se o não fizesse era consumida pelos remorsos.
De forma que, quando viajavam pelo reino, fossem sózinhas ou acompanhadas, procediam de formas diferentes, sendo que, Anastácia, a mais velha, se os encontrava pelo caminho, fazia-lhes todo o tipo de sacanices, Herberta, a segunda, nunca viajava sem que os seus batedores seguissem primeiro para que à sua passagem já estivessem tapados com grandes mantas, ou mesmo velhos cortinados das grandes janelas do palácio e que tivessem sido substituídos por novos. Quando eram famílias numerosas ou mesmo grupos, havia coberturas ainda maiores para que nem um, se cruzasse à sua frente.
A mais nova, a cândida e bela Margarete, pelo contrário gostava de ir olhando em redor, enquanto a carruagam puxada por cavalos atravessava as aldeias e os lugarejos, na esperança  de encontrar pelo menos meia dúzia deles para distribuir moedas e sobras de comida.
As três irmãs, embora muito amigas, evitavam viajar juntas, uma vez que os seus gostos diferiam imenso, sobretudo no que respeitava à pobreza.
Ainda assim, Herberta e Margarete conseguiam fazê-lo não  interferindo muito com o bem estar uma da outra. Herberta mandava tapá-los antes de passarem, mas havia sempre uma criança irrequieta, ou um velho com mobilidade reduzida que ficavam descobertos, e então Margarete mandava o cocheiro parar a viatura e dava-lhes sempre qualquer coisinha. Se fossem crianças um rebuçado, ou outra guloseima qualquer, se fossem adultos um naco de pão, ou mesmo uma moeda.
Naquele dia iam as duas para um workshop com o tema "Príncipes e Princesas, que perspetivas?", quando passaram por uma enorme manta feita de retalhos pelos próprias mãos das pobrezinhas mais velhas, e resolveram parar um pouco por ali para descansar dos solavancos.
Herberta não ligou ao grande tecido volumoso que se encontrava ao seu lado, mas Margarete, atenta, percebeu que atrás do tronco de uma das árvores que se encontravam em cuja sombra se mantinham,  havia alguém escondido. 
"Deus queira que seja um pobre, mas com a sorte que eu tenho, ainda me calha uma raposa ou um esquilo." E com este pensamento foi-se aproximando, muito devagar e silenciosamente do lugar pretendido. 
_Apanhei-te!_ exclamou, ao agarrar numa menina com o monco a sair-lhe do nariz e de cabelo espesso e empastado. 
Margarete sorriu, embevecida. _Como te chamas, pobrezinha?_
A criança assustou-se e começou a chorar. Quanto mais chorava, mais ranhosa ficava, e a princesa de imediato sacou de um pacote de lenços de papel e deu-lhe. 
_Toma, minha querida. E dou-te um papo seco, também. É tudo para ti._ proferiu sensibilizada e de olhos húmidos.
_Vamo-nos, Margarete! Estamos a perder tempo!_Herberta, de costas para a irmã, impacientava-se.
_Vamos, mana. Vamos. Não olhes agora._ E, dito isto, subiu o degrau da carruagem, que partiu puxada pelos cavalos a galope.

domingo, 15 de janeiro de 2023

Para reler

Sempre à procura das palavras adequadas e elas, irremediavelmente perdidas, as coisas a crescerem imóveis, e eu a escrever numa página que ninguém  encontrará.
Só existe o murmúrio das árvores, 

"O fogo tendia a alastrar, agitava os seus braços traiçoeiros em redor.
Alguém estaria, indevidamente, por ali, ouvi ruído vindo da sala ao lado.
Uma figura excêntrica estava parada na porta que liga as duas divisões e olhava para mim.
O seu cabelo, em filigrana de prata grisalha, apontava as pontas, como setas, num estranho sentido ascendente, vestia roupa em desuso, grandes rosas vermelhas destacavam-se estupidamente do estampado da camisa, e uma saia, de um plissado com cor indefinível, tal como o verde do inverno é difícil de descrever, descia-lhe até aos tornozelos.
Pequenos focos de chamas teimavam em surgir, junto à lareira, mas fora dela, e eu tentei apagá-los, meticulosamente. Um aqui, outro ali, enquanto alguns troncos resvalavam, incandescentes, para o chão."

Enquanto olho pela janela do autocarro, e vejo pessoas que passeiam e outras que apenas passam, são estes os cavaleiros da triste figura que nem conhecem os refúgios da cidade silenciosa das manhãs domingueiras, quando convivem, sem medo do chão, pombas e gaivotas, invento histórias.
E quantas #Zicas vão morrendo e renascendo ao longo da vida de Zica, de Susana, de Viriato, de Raquel, de João e de Madalena?