quinta-feira, 11 de abril de 2019

Vamos lá ver

Ao invés de estar tudo preenchido, faltava um livro gordo ou dois mais pequenos, não sei.
Entre um velho roteiro de Londres e Virgínia Woolf, Msr Dalloway,
Na prateleira de baixo, viviam Philip Roth, Umberto Eco, Murakami e Valter Hugo mãe,
Não se dão uns com os outros, evidentemente, por isso é que no andar de cima o outro fugiu dali para fora nem sei qual,
José Luis Peixoto, 2666. tortos, velhos.
Proust, Paul Auster, Tolstoi, Lídia Jorge, Agustina, cada uma a puxar para o mesmo lado, e eles vão inclinando, a prosa de pessoa em papel couché , não os aguenta no topo, e eles vão inclinando dando o aspeto desleixado que não pode ser.
No último andar, Thomas Mann mantém-se ereto, mas os três ao lado, pimbas, caíram, e porquê,  o Gaudi não foi suficiente para travar a sua queda porque é demasiado pequenino.
Felizmente que a tinta preta em fundo escuro não me inquieta, mas é mal escolhido, só eu sei de quem se trata, é a aldeia de Faulkner, mutio mais cinzenta que verde escuro, enfim...


Pff! Coitados, nem se dão nada bem, acho eu. Quem terá fugido foi quem não suportou a companhia. Onde já se viu encaixarem-nos entre  um velho roteiro de Londres e Virgínia Woolf, Msr Dalloway?

Vamos lá ver, alta-me um livro gordo, ou dois mais pequenos, não sei, entre um velho roteiro de Londres e Virgínia Woolf, Msr Dalloway.

Caríssima #Virginia_Wool
Mrs Dalloway, não sei onde está.
Fugiu-me da prateleira,
estava tão sossegada entre
um velho roteiro de Londres
e a prosa de Pessoa,
que é, aliàs, uma porcaria
de livro, que não segura os outros,
e que ficam inclinados e feios
por causa dele.

Aquele 2666,  tão  torto, coitado!
Agora também vos digo,
em abono da verdade,
Tommas Mann,
no andar de cima,
aguenta-se ali, firme e hirto,
direitinho e elegante.
ui, ui!

Naturalmente, a senhora não gostou que Anna,
do outro lado da sala, morresse esmagada
pelo comboio,
mas eu não tenho qualquer responsabilidade
nessa históra.


Aposto em como se foi pendurar
 nas pás de uma ventoínha
em terras de cor e sol  e areia.
Eu a ela também fugia para  esse,
lá para a América do Sul,
calorzinho, refrescos, bem bom!

Também pode estar no sotão
amuada, num canto qualquer...






quarta-feira, 10 de abril de 2019

mamam

Pulava entre os escombros, saltava as instáveis pedras de mármore rosa.
Nada disso, nem sabia o quê. Cansaço ou loucura ou sonho.

Era já tarde tardia,  quando fui mandado parar numa operação stop. Depois da devida apresentação dos documentos que se encontravam, evidentemente, em ordem, os polícias mais altos e mais gordos mandaram-me abrir a bagageira do automóvel.
Tentei evitar, falando-lhes no tempo, que chuviscava, formando brilhos deslumbrantes sobre a água.
e outras imagens maravilhosasa, na tentativa de dinamizar as suas veias poéticas  mas não ligaram nenhuma, até fizeram  uns trejeitos na direção dos colegas, como que para dar a indicação de  que  eu tinha um discurso desconexo, que provavelmente não estaria bem.
Como não se deixaram desconcentrar,  lá tive de obedecer, rezando para que passassem dspercebidos
. Tinha-os tapado com uma manta. Atirei com ela lá para dentro de forma displicente, e ela caíu, aleatoriamente sobre eles, para dar um ar ocasional à desarrumação, deixando prever nada, ou ninguém, escondido lá debaixo, mas, nunca sabemos até onde vai a perspicácia de cada um, e cada caso é um caso,
Levante aí essa manta encarnada, ordenou o mais franzino, e mais inteligente, e eu não tive outro remédio senão obedecer, levantá-la, descobrindo as três bestazinhas que levava  de volta para o seu habitat natural,  sem que ninguém soubesse.
Quando se viram destapados, sorriram de contentes por causa do sol que lhes incidia nas ventas, e quando sorriam, mostraram-lhes uma fileira de dentes, pequenos e  afiados, próprios para morder.
mas desativados fazia muitos anos.
Apesar de bonzinhos, continuavam com um aspeto aterrador, os agentes da autoridade não arriscam quando se trata de criaturas horríveis provocando propositadamente, e perseguiram-nos com os seus bastões.
Mas eles conseguiram esgueirar-se, e ainda hoje andam por aí, escondidos nas reentrâncias da cidade.















segunda-feira, 8 de abril de 2019

ncehfeifh

Na segunda prateleira falta um livro. Nada se modificou, podia nem dar por isso, francamente nem sei qual é.
Quae mania têm os meus livros de ir passear sem me dizerem nada, sem um aviso desaparecem do mapa de lombadas.
Silenciosos, falam.


Solstícia e Vagibunda  eram muito amigas. Tão amigas que sei lá eu explicar isso ou me apetece sequer fazê-lo.



Quando não me ocorre nada
para escrever
é que é do caraças.
Até porque me apetecia.
Bloqueei.
Pff!


Toma lá uma tosta para colares à testa
com cuspo.
Tens sete tentativas. É muito.
Se não passares no #teste,
 besta,

Era uma vez um rapaz que queria ser uma Besta mas não estava a conseguir nota para isso. Fazia todos os testes, mas, embora obtivesse boas classificações, não eram suficientes para para entrar nas vagas disponíveis, que eram escassas, dado o elevado número de pessoas que queriam ter aquela profissão.
Ganhava-se muito bem, o que, evidentemente, proporciona uma melhor vida, e para além disso, havia um grande reconhecimento da sociedade, quase uma veneração e, não havia quem não se orgulhasse de dizer aos amigos e aos conhecidos que tinha na família uma ou mais pessoas com aquela profissão.,
Recordo-me, com alguma ternura, da minha amiga Laura, emocionada,  ao apresentar-me o avô, agora um velhote aparvalhado, enquanto me explicava que ele, em novo, tinha sido, se não a maior, pelo menos uma das maiores bestas daquela cidade.

Esta palavra, hoje, só pode ser ser um #teste.



















domingo, 7 de abril de 2019

Saúde

"O que me falta é a #saúde sr. Almeida, ele é os olhos, o estômago, os pulmões... E os ossos, sr. Almeida, os ossos não me deixam andar, então com este tempo, parece que tenho farpas enfiadas nos joelhos e lobos a morderem-me os cotovelos!"
"Lobos?
"Sim, lobos. Quem diz lobos, diz cães selvagens,ou assim... E olhe, outro dia aborreci-me, a tensão disparou parecia um foguetão a ir para a lua, só fiquei com medo que rebentasse, como alguns.
O meu coração agarrou uma velocidade estonteante, pensei que desmaiava, mas lá me sentei no baloiço dos miúdos, ia a passar por ali, só que fiquei presa no assento, aquilo não é para mim, está visto, queria sair  e não conseguia, veio um homem, o diabo em pessoa, e começou a rir maldosamente e a empurrar o baloiço com toda a força,  caíu-me o saco do pão e a mala, eu gritava, cheia de medo, pára malvado, filho de Satanás, mas ele não quis saber e eu a balouçar furiosamente, é claro que me senti mal a seguir, mas vá lá, serviu para me desprender.
O pão de Mafra, nem me faz nada bem, mas é tão bom, foi parar ao cimo do escorrega, tive que lá ir buscá-lo, só que não me aguentei e vim por ali abaixo, com uma aflição e um medo, valha-me nossa senhora!
Mas olhe, sr. Almeida, até foi engraçado,  agora ando sempre por ali a rondar, a ver se me divirto mais um pouco, infelizmente nada acontece. Se calhar é porque deixei de comprar daquele pão, que me incha o intestino, até os vizinhos já se queixaram, dizem que ouvem granadas de mão a rebentar aos seus ouvidos!"
"Granadas?"
"Quem diz granadas, diz trovões em dia de tempestade, mas depois olham pela janela e não se passa nada, os dias estão lindos e soalheiros, claro que desconfiam.
Mas deixe lá sr. Almeida, e o sr. como está?"




sexta-feira, 5 de abril de 2019

Dona Angelina

Atrás da capela, havia um pequeno terreno onde a dona Angelina, com a devida autorização do padre, tinha feito uma hortazinha.
Acontece que nem sempre as coisa lhe corriam como ela esperava, já que os pássaros, juntamente com os gatos, os cães e as toupeiras lhe estragavam  o que ela lá tentava semear ou plantar.
Uns gostavam das sementes, outros das folhas tenras, os cães deitavam-se em cima dos alfobres acabados de colocar destruindo tudo, as toupeiras e os ratos roíam os tubérculos mais saborosos, enfim, o espaço tornou-se a alegria dos animais e o desespero da dona Angelina.
Era frequente ver-se ela sair pela porta dos fundos a ameaçá-los com o santo António nas mãos, ou a esfregona, pronta a atingir os que conseguisse apanhar.
O padre Libério já a tinha aconselhado a desistir, mas ela, teimosa, insistia que, se Deus quisesse, alguma coisa haveria de vingar, para dar aos mais carenciados da aldeia.
Um dia, enquanto passava a ferro o hábito do senhor prior, junto à janela, ao mesmo tempo que controlava os melros, reparou numa figura encostada ao muro, e que nunca tinha visto por aquelas bandas.
Desligou o ferro de engomar, cuidadosamente, pousou-o na tábua, e saíu de casa para se dirigir ao homem, com o intuíto de lhe perguntar o que queria.
A criatura repondeu ao seu cumprimento, muito amavelmente, um anjo,era o que parecia, com as suas vestes brancas.
"O que queres?" perguntou a senhora.
"Venho lembrar-te, mulher", respondeu a simpática criatura, "Para teu bem, e para o bem de todos os seres vivos que tão felizes são neste lugar sagrado, não ignores  a #quinoa!"
Felizmente que tinha uma caneta no bolso do avental  para lhe pedir um autógrafo, porque queria ficar com a recordação de ter visto um anjo ao vivo.
O anjo escreveu-lhe nas costas: "Felicidades para todos", e assinou: Anjo
Depois  despediu-se, deixando a dona Angelina a chorar de felicidade.








Xará

#Xará, o meu grande deus está
sempre ao pé de mim.
Creio na sua bondade infinita,
na sua existência etérea
circulando dentro dos homens bons.

Assim de repente,
vem ter comigo sob várias formas,
umas preso no vento, outras na chuva,
ou nos barcos de pesca afundados
no horizonte,
com os seus movimentos  tão longe,
que levam um tempo infinito a descrever.

Nada palpável me toca, apenas gestos nenhuns.

É
o som inconfundível  do amolador.

Nunca o vejo,
Apenas tenho vontade  de o ouvir
por aqui.

(Mas ir-se-á embora.
Saltará desta para outra invenção,
num ápice,
para um conto infinitamente mais poderoso
do que este,
com as palavras certas, no seu lugar verdadeiro.
Irá!
Às vezes, também acontecem coisas brutais,
vai procurar outros poemas mais belos
do que os
meus, eu sei,
em busca da tranquilidade.
Seja feliz.
Insistirei sempre em
inventar
outro homem e outra mulher,
até serem tantos que se torne
impossível ignorá-los.)



(Mais uma carta de amor,
pronunciou baixíssimo,
enquanto encolhia
os ombros displicentemente)

Não faz qualquer sentido,
os personagens abandonam-me
à procura de outros lugares sem caos.


Os cenários são-me lançados
na cabeça por uma força  desconhecida,
Há uma conjunção de enzimas
trabalhando em simultâneo
que ativam
os hologramas que me confundem,
e que esqueço pela manhã.

Um dia, lá para do fundo dos sonhos,
muito longe daqui,
pularei as rochas desiguais dos penhascos,
os penedos das ruínas de um velho forte
que desaba
e quando desabar provocará um ruído enorme,
mas,
já todos terão fugido,
só eu permanecerei no silêncio das rochas
que tremerão a meus pés,
provocando-me pavor.

Naquele tempo,
era habitual  percorrer as aldeias
com os meus bonecos, para os fazer rir.
Procurava um terreno favorável
Primeiro montava o cenário,
e  depois desmontava-o,
e depois partia para outro lugar,
atravessava a mansidão
dos pinheiros na beira de estrada,
onde me demorava propositadamente.
Às vezes parava
para partir pinhões entre duas pedras,
e  comê-los, um a um.

E o meu bom Xará acompanhava-me
naquela vida de saltimbanco,
espalhando a minha alma
pelo caminho.







quinta-feira, 4 de abril de 2019

mm

Lá para o fundo de uns terrenos, já no fim do casario que descia o monte alinhado em relação à  estrada, havia uma casa muito bonita, arejada entre o gradeamento de ferro forjado e verde, que mal tapavam ou protegiam as suas varandas estreitas, por todo o lado.
Via-se o milheiral até aos salgueiros quando penteavavm as suas grandes cabeleiras junto ao rio, debruçados sobre a água penteando as suas longas cabeleiras. a água que lhes servia de espelho.
Havia a solidão das grades de ferro, os cães zangados como não se zangam por cá.

Quando observei melhor, vi os salgueiros a pentearem as suas grandes cabeleiras lisas debruçando-se sobre o rio, e aproveitando a água como espelho, para lá dos milheirais dos lodeiros.
Os meus pés sentiram o poder da terra como se o tempo não tivesse passado por mim.
Lembrei-me do ferro forjado que encostava à barriga para melhor observação dos pássaros, para lá do rio, mas ainda hoje me parece solitário atravessar o pinhal dos fantasmas sossegados, ou ouvir o lobo na noite, entre  da madeira dos móveis e os ruídos incomreensíveis das telhas.

Chovia, assim como hoje.
Os salgueiros debruçavam-se
para, aproveitando a escassa
luz e o espelho que
lhes fornecia a água do rio,
pentearem as sua longas cabeleiras.

Encostava a solidão da barriga
ao gradeamento
na bela casa das varandas
que davam para os lodeiros verdes,
atravessava o milheiral com os olhos
até lá ao fundo, onde se penteavam
os salgueiros,
para os ver na chuva,
assim como hoje.