domingo, 22 de outubro de 2017

Rádio

A mãe contava-lhe uma história para
crianças todas as noites.
Sentava-se na beira da cama
e começava, com aquela voz doce:
Era uma vez uma mãe
que contava histórias ao seu filho
numa noite tranquila.
Sentava-se na beira da cama,
fazia-lhe uma festa no cabelo
e começava
a ler-lhe o seu conto predileto:
Havia em tempos uma mãe, que,
amando deveras os seu filho,
 lhe contava todas as noites
uma história de encantar.
Segurava no livro com a mão esquerda,
e com a direita, distraídamente,
passava as pontas dos dedos
nas contas redondas do colar,
enquanto lia:
Algures num país distante
uma mãe contava uma história
ao seu filho,
primeiro encostava a porta,
para abafar o som do rádio
Depois sentava-se na beira da cama
e começava, com aquela voz doce...

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

O Ouriço

Hoje, logo pela manhã, recebi um telefonema da senhora que é vizinha da minha avó, e que também vai olhando por ela.
Disse-me que ela não estava nada bem, e que era melhor levá-la ao hospital..
Pedi à patroa para sair, prometendo que compensava as horas noutro dia. Fez um ar contrariado. Podia sair, mas acabava o que estava a fazer, e depois sim, que fosse à minha vida.
Apanhei o autocarro, e quando vagou um lugar sentei-me a comer o pão com manteiga que trazia na mala.
Fui a pensar que sei muito bem que ela precisa de mim. Pior, só me tem a mim, por isso tenho a obrigação de tomar conta dela. Também os meus filhos me têm a mim,o meu homem me tem a mim, e a minha mãe, que já não é muito nova, me tem a mim. Todos me têm menos eu. Eu não tenho nada de mim.
Quando cheguei lá a casa, percebi que a velhota não estava nada bem, mas algo me impediu de chamar uma ambulância, e resolvi gastar um bom dinheiro num táxi, para a levar ao hospital.
À entrada da urgência sentei-a numa cadeira, na sala de espera, com a cabeça apoiada a uma parede lateral, para que ficasse amparada, porque me pareceu muito fraca, e fui fazer a inscrição.
Não sei o que tinha, na altura, em mente, mas a verdade é que inventei um nome para ela e outro para mim. Queriam os documentos, mas eu fiz um choradinho, roguei que me inscrevessem a senhora, e esse exercício de vestir outra pele soube-me muito bem. Assim fizeram, mediante a promessa de atualizar os dados logo que fosse possível. Confirmei e agradeci..
Nos hospitais não querem que ninguém morra, não sei porquê.
Ficou internada, com uma pneumonia, segundo-me disseram, já cheia de complicaçôes. e recomendaram-me antes de eu sair: " se ela resitir, precisará de cuidados especiais. Pode assumir esses cuidados"? "Claro que sim"! respondi.
Ainda consegui chegar a tempo à casa onde trabalho de tarde. Pelo caminho vi um ouriço esborrachado na estrada.
Vou fazer de tudo  para que não consigam decobrir quem eu verdadeiramente sou.

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Irão (EI)

Aqui em Sintra, os duendes deixam-se ver no Outono.
Aproveitam uma manhã misteriosa como a que está hoje, e aparecem, saídos das suas casas
Portanto, quando passei por baixo daqueles enormes plátanos que perdem, nesta época, as suas folhas mais castanhas, não me espantei quando um deles me interpelou saído detrás dos troncos das árvores.
Dirigiu-se a mim, enigmático, e perguntou-me:
"Sabes o que são palavras mágicas?"
"Fosga-se! Não saiba eu outra coisa...", resmunguei.
"E sabes a de hoje?"
E, ao mesmo tempo, como se estivéssemos muito bem ensaiados, dissemos: "#Irão!"
E rimo-nos, claro! Os duendes também acham graça quando se fala em coro aleatoriamente.
Ainda conversámos  mais um pouco, porque ele, num gesto muito delicado, me acompanhou em grande parte do caminho.

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Garrafa (EI)

Estava já deitada, a preparar-me para dormir, quando me pareceu ver, pela janela, uma bruxa a passar.
Até aí, tudo bem. Todos sabemos que as bruxas circulam mais à noite quando a maioria dos pássaros estão a dormir, para evitarem colisões desnecessárias. Acontece que me pareceu que a bruxa ia montada numa #garrafa e não numa vassoura como é habitual.
Levantei-me, coloquei os óculos que estavam sobre a mesa de cabeceira, a primeira coisa que me me ocorreu foi se não estaria a ver mal_ os míopes vêem muitas vezes coisas a mais, precisamente pela falta de visão_ e fui espreitar pelo vidro para tentar perceber o que realmente se passava.
Lá em baixo, no passeio, lá estava ela a tentar pôr a garrafa a trabalhar.
Eh! Ó bruxa! Então uma vassourinha não era melhor?
Roubaram-ma. Estive aqui ontem, estacionei para ir comprar tabaco, e quando cheguei já não estava cá. Foi um transtorno. Tive que ir para casa de autocarro, e deixei uma série de maldades por fazer. E era eu que estava de serviço às maldades noturnas. Um azar.
Queres que eu te empreste uma?  Ou uma esfregona, talvez. Sempre têm alguma semelhança.
Ó pá! Sinceramente! Então tu achas que eu vou voar de esfregona? Parece que não andas nisto há séculos, como eu. Vais logo à noite à reunião?

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

A Família

Ao jornalista tanto lhe fazia uma calamidade com inúmeros mortos, como um fabuloso espetáculo de circo. Debitava todos os assuntos com igual entusiasmo.
A verdade é que também não lhe  prestava muita atenção. Estava concentrado na meticulosa tarefa de cortar com os dentes a pele de uma unha.
Via perfeitamente o ecrãn por entre os pés, que repousavam sobre a mesa de apoio, e a barriga, assim deitada ao pé do gato, também não lhe retirava a visibilidade.
Na cozinha, a mulher a arrumar as compras, deu com o vermelho dos morangos, lembrou-se duma marca de baton, mas logo a seguir lembrou-se que se esqueceu de comprar um ou dois pares de luvas de borracha, e também se deu conta de que o som da televisão estava demasiado alto.
O filho,  alheado no seu quarto, coisas de adolescente, como que desativado naturalmente daquele espaço que ocupa uma casa, e de todo o seu conteúdo. Era bom rapaz, só não lidava bem com os cabelos brancos do avô. Pareciam-lhe sempre um desastre inevitável e antigo. De resto, quando era necessário, punha e tirava a mesa, e era por isso, e só por isso que não apreciava tanto assim os almoços de domingo, passados em #família.















domingo, 8 de outubro de 2017

Eletricidade

Há muitos, muitos anos atrás, quando o planeta parecia muito maior do que parece hoje, as distâncias eram quase intransponíveis, e ainda faltaria muito para a utilização da eletricidade, um homem de grandes barbas, sentado em frente a uma  secretária, passava os seus dias a escrever.
Não escrevia nada de muito especial, nada que mudasse verdadeiramente o mundo, ou que ajudasse a resolver intrincados problemas da sociedade.
Sómente ia molhando, num ato contínuo, a pena na tinta, e com ela preenchia as folhas com maravilhosas e mirabolantes histórias de encantar.
Às vezes parava, buscando a melhor palavra, ou a melhor frase, e para isso fixava os olhos nos barcos atracados no porto, visíveis pela janela que lhe dava a luz necessária para a continuação do seu ofício, ou, ainda que não fosse um ofício, seria pelo menos, aquilo que mais apaixonadamente sabia fazer.
O homem não tinha a noção, sequer, se as suas histórias seriam alguma vez lidas, nem tinha qualquer perceção de que elas atravessariam fronteiras, e, sobretudo, transporiam o tempo, como só a arte o consegue transpôr.
Apenas olhava os barcos no rio, e molhava a pena, repetidamente.

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Zélia

Se podes entrar?
Não, Zélia, não podes.
De momento não se encontra ninguém no miradouro a contemplar a cidade.
Até é suposto que uma qualquer sonhadora encoste os seus antebraços à grade de ferro, que há-de estar quente pelo calor daquele dia de verão, mas isso será mais tarde.
E também não te estou a ver, por uma qualquer circunstância, a descer a avenida apreciando os bancos de jardim, o passeio largo, os desenhos da calçada.
Ou então, dar de caras com um dia bem chuvoso e escuro, e serem os teus olhos a toparem, refletido, o brilho das luzes dos carros.
E depois, com que sentimento verias a colisão de dois chapéus de chuva, um azul, outro amarelo, Estarias atenta, por acaso,  a essa mera casualidade?
E, se por uma predisposição qualquer da minha cabeça, ali, bem no meio do mau tempo,  viesse a acontecer o abraço de velhos amantes?
Terias tu capacidade para assumir esse papel?
O mais que consigo para ti, Zélia, é que compareças,  ocupando um lugar sentado no autocarro que irá cheio, em direção ao Largo do Rato, mas promete que passas sem dizer uma palavra.
Melhor ainda. Tenta dormitar, logo na primeira paragem, e acordar mesmo na última, para não interferires em nada neste lapso de tempo de uma pequena história.