segunda-feira, 18 de abril de 2016

Unha (EI)

Quem já viu
a tristeza de uma mulher infeliz
escondida debaixo do verniz?
Eu vi!
Quem já viu
unhas de abandono,
as dos pés, enormes,
enroladas sobre si?
Eu vi!
Vi muitas, infelizmente vi!!
E a unhaca do mindinho,
um disparate comprido.
Tocar guitarra
ou tirar cera do ouvido?
Nunca percebi!
Unhas como cabelo
mórbidas extensões
do corpo sem vida
a crescer para além do fim!
Mas não vamos começar o dia
com imagem tão sombria.
Então vamos lá:
O gel e o gelinho
a unhinha do bebé e assim...!

Raio (EI)

Num dia de sol magnífico
uma mulher foi à praia
apanhar banhos de verão!
Os olhos raiados de raiva
o corpo enfraquecido
o humor lábil
sem qualquer oscilação.
No céu, primeiro uma nuvem
depois muitas, muitas
a entrarem-lhe pelo coração.
Primeiro trovões ao longe
depois mesmo ali em cima
mas a mulher, desatenta
os olhos raiados de raiva
mergulhou na água cinzenta
sentindo um sublime bem estar!
Quando um raio descarregou sobre ela
ficou preta como carvão
e morreu ali no mar!

domingo, 10 de abril de 2016

Quadrilha (Enciclopédia Ilustrada)

Estou bem chateada com isto!
Julguei possível encaixar na palavra de hoje o menino das partículas cintilantes que me apareceu ontem à noite.
Sendo quadrilha um grupo de pessoas cujos propósitos não são os melhores, onde coloco eu este miúdo, que até é uma criança bem sózinha, que tem vergonha dos crepúsculos luminosos suspensos no ar que o rodeia? Ele que tenta apanhá- los disfarçadamente para os pôr no bolso, um bolso que brilha mas pouco, por causa do tecido grosso, e porque o miúdo estica os braços e os aperta contra o corpo, para disfarçar aquela anormalia reluzente.
Como faço para apresentar o meu inocente miúdo e os seus refulgentes grãos de poeira?
Talvez que estejam elementos de uma quadrilha encostados numa esquina, na quadrilhice, como toda a gente, e o miúdo passe, sem que ninguém o veja!

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Jamaica (Enciclopédia Ilustrada)

Na Jamaica, imagino, existem novos e velhos e gente de vários tons.
Há homens perfeitos a terem filhos imperfeitos e vice versa, e mesmo sendo imperfeitos os filhos, choram todas as mães quando os perdem, e os pais, esses que choram menos, neles fica retida uma terrível dor no peito, imagino!
Na Jamaica, ouvimos dizer, alguns fumam charros, outros bebem uns copos, e outros ainda cozinham comidas coloridas, com enormes frutos e não sei se feijão, ou batata ou couve-flor, não sei! Mas sei que na Jamaica há hospitais e escolas, e, suponho, uns miúdos terão melhor vida que outros, e todos envelhecem, e, se calhar, acabam por viver assim, sózinhos e velhos.
Na Jamaica os casais são francamente felizes enquanto se gostam, e incomodamente vazios quando se separam, e, calculo, os cães vadios procuram comida nos caixotes do lixo.
Tenho ideia que haverá árvores, tais como sequóias, palmeiras, eucaliptos, pinheiros e bananeiras, tudo com neve. Na Jamaica deve haver neve e internet, e amores quentes, e paixões e ódios igualmente violentos, admito!
E abetos. Na Jamaica também deve haver abetos!

Karaté (Enciclopédia Ilustrada)

Um conhecido karateca
atravessou a Marateca
apoiado num só pé.
E enquanto o fazia
ia aplicando pancadas
desferindo ou lá o que é
em tudo o que mexia,
e todos comentavam:
É karaté!
Não, não é karaté!
É!
Não é!
Santa ignorância!

sexta-feira, 25 de março de 2016

Zimbro ( EI )





       Lembra-te
       que por vezes
       vagueio
       incorpórea
       entre ti
       e a tua pele.
       Como
       uma garrafa
       inteira
       de gin
       ou
       uma pequena
       colher
       de mel.

quinta-feira, 17 de março de 2016

O quintal ( Enciclopédia Ilustrada )

Um dia andava eu a deambular pelo meu quintal, lá para cima para as beiras, o silêncio interrompido pelo ladrar de um cão, ou pelo cantar de um passarinho mais enervado, os gafanhotos a saltarem a cada passo que dava.
Estava eu nesta harmonia total com a natureza, ia observando os cachos de uvas, o talhão dos feijões já em fase de secagem, os tomateiros, as alfaces, quando me apareceu um desconhecido acompanhado de um fantasma.
Vais ouvir os meus poemas, disse-me, senão lanço o meu fantasma do sovaco contra ti.
Fantasma do sovaco? Sim, mostra-lhe lá. E o fantasma levantou os braços, e eu pude ver dois enormes sovacos, muito bem rapadinhos, por onde saíam chispas de verdadeira maldade.
Bem, pensei, não tenho outro remédio, não deve ser assim tão mau.
Manda lá, então!
E o homem começou: lá lá lá lá, lá lá lá lá, lá lá lá lá, lá lá lá lá!
Aquela métrica aos saltinhos era tão desagradável, que eu fugi a correr e subi para cima de uma oliveira.
Imediatamente o fantasma dos sovacos foi em minha perseguição, embora tenha parado pelo caminho para apanhar umas folhas de couve portuguesa, para mais tarde migar para as galinhas.
Encurralada em cima da árvore, que as oliveiras são baixinhas, o homem continuou: lá lá lá lá, lá lá lá lá.
Não!!! Disse eu. E tapei os ouvidos com as mãos, o que me fez perder o equilíbrio, e caí no chão desamparada, dentro de um alguidar com água, que estava para ali abandonado há tanto tempo, que já servia de casa a alguns sapos e rãs.
Desmaiei!
Quando acordei, atordoada, não vi ninguém.
EI!!! Onde é que estão?
Estamos aqui ao fundo a roubar pimentos, para mais logo fazer uma sardinhada!
Tu vais, não vais?