Observo, pela janela de vidro duplo,
ligeiramente entreaberta,
a inclinação do terreno e os telhados alinhados
pela rua abaixo.
Poderá parecer forçado,
para caber no poema,
para ficar bonito,
mas não é disso que se trata.
Existem mesmo, de facto,
pedras cor de rosa a cobrir parte do chão.
Ao fundo,
nem sei de que fundo eu falo,
reparo na sombra sofisticada de uma figueira do inferno.
Será que, finalmente,
consegui a visão correta das coisas?
Eu, antes, não era assim.
Lá fora, que pássaro estranho será,
e inconveniente, convenhamos,
enigmático também,
caso se trate de um pássaro, não sei,
não tem cristais na melodia,
é rouco como a morte que nos leva a todos.
Calem-se, cães!
Será melhor fechar a janela?
Permitam-me que recorde outros mundos,
por favor!
Num outro tempo que não este, eu era diferente.
Era filha de uma rajada de vento
e os plátanos eram grandes mães protetoras sobre mim.
De forma que, quando os abatiam,
conseguiam humedecer os meus olhos,
e eu procurava, de imediato,
refúgio num qualquer jardim sombrio.
Nunca mais passaria o Barão Trepador por ali.
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