Dou por certo que qualquer de nós já passou, num dia qualquer, numa qualquer rua estreita e sentiu um qualquer odor que lhe fez lembrar um velho tempo. quanto a mim, são imprecisas as memórias. não sei se teria cinco anos e estaria a observar a minha avó na cozinha preparando um cozinhado idêntico, ou teria sido aos doze, em casa de um amiguinho da escola, e provinha do fogão onde a sua mãe mexia compassadamente o conteúdo de uma panela ao lume, uma semelhante aroma, ou mesmo se esse cheiro podia ser associado a outra coisa qualquer, algo que tivesse provado aos vinte, ou aos trinta, com as crianças pela mão. algo de muito impreciso assim é por vezes.
O mesmo acontece com determinadas associações de formas, ou de cores. Um tecido de pequeninas rosas vermelhas, cada uma com a sua minúscula pétala verde, camisolas de riscas largas em tons de azul, tinha vinte anos, talvez dezoito, ou vinte e quatro, não importa, o que importa é a desconstrução de que a vida é o momento presente, e que não se passa mais nada para além do que o agora e o amanhã.
há, nesses momentos, uma quebra da rotina, esse mecanismo prático que faz o tempo correr silenciosa e impercetívelmente, volta-se para trás muito rápido e uma simples e fugaz lembrança dá voz e volta aos anos que passaram, rigorosamente omitidos pelo calendário que usamos de mês a mês.
A extensão do tempo a revelar-se, em frações, a mostrar-se aritmética e certeira, claro, fica assim.
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