terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

 Dou por certo que um, ou outro de nós já passou, num dia normal, numa qualquer rua estreita e sentiu um familiar odor que lhe fez lembrar um velho tempo. Quanto a mim, são imprecisas as memórias. Não sei se teria cinco anos e estaria a observar a minha avó na cozinha preparando um cozinhado comum, ou teria sido aos doze, em casa de um amiguinho da escola, e o aroma provinha do fogão onde a sua mãe mexia compassadamente o conteúdo de uma panela ao lume, ou mesmo se esse cheiro podia ser associado a outra coisa qualquer, algo que tivesse vivido aos vinte, ou aos trinta já com as crianças pela mão. algo de muito impreciso, assim é, por vezes.

O mesmo acontece com determinadas associações de formas, ou de cores. Um tecido de pequeninas rosas vermelhas, cada uma com a sua minúscula pétala verde, camisolas de riscas largas em tons de azul, teria vinte anos, talvez dezoito, ou vinte e quatro, não importa, o que importa é a desconstrução de que a vida é o momento presente, e que não acontece mais nada para além do agora e do amanhã.

Há, nesses momentos, uma quebra da rotina, esse mecanismo prático que faz o tempo correr silenciosa e impercetívelmente, volta-se para trás muito rápido e uma simples e fugaz lembrança dá voz e volta aos anos que passaram, rigorosamente omitidos pelo calendário que usamos de mês a mês.

A extensão do tempo a revelar-se, em frações, a mostrar-se aritmética e certeira, claro, ficamos assim.

Pois agora nem sei.

Hoje é um novo dia, e neste, a inquietação parece querer, de novo, instalar-se. Tudo tem a ver com o tempo, com as nuvens velozes, com a chuva fria e morosa e a serra a manter-se inalterável, ora totalmente tapada pelo nevoeiro, ora desenhada no horizonte.

Uma colina me alberga, e vai daí que dá que dá para deitar um olho à copas das árvores bem altas.

E tantas quantas as que eu vir, vão perdurarem nos meus olhos, disso tenho a certeza, disso tenho a certeza, disso tenho a certeza. 

Se me habituo a esta cadeira, terei muita dificuldade em abandoná-la, mesmo com alguma fome, ou frio, porque as putas das palavras parecem querer deslizar debaixo dos meus dedos, um fenómeno inexplicável e talvez um pouco grotesco. Que fazer?

Fico contente. O sol aventurou-se e parece querer resistir à tempestade. Grandes buracos na atmosfera, e ele a passar, sorrateiro e brilhante e em breve voltará aquela cor indefinida e indiscritível, que é, em boa verdade, aquilo mais vontade me dá de sorrir.

Meia hora depois, não compreendo ainda a ventania, mas hei-de compreendê-la, muito mais tarde. Disso tenho a certeza.


São seis da tarde de um qualquer início de fevereiro, e o céu tem uma tonalidade indefinida. 

Existe um rosa vibrante, como se o insólito também se estendesse pelas cores, ou pelos tons, como se a serra, vista sob este prisma, me escondesse do mar toda a luminosidade, para eu ficar inquieta, não entendendo de onde vem tanto alaranjado, tanta coisa rósea, cuja origem o sol fraquíssimo sobre as nuvens. não me revela.

O dia, evidentemente, está a cair. Vejo aqui pelo canto do olho, onde desaparece tudo o que acabei de ver. Talvez o meu telemóvel, com a sua capacidade imensa para as cores, tivesse captado essa atmosfera irreal, talvez eu tivesse conseguido guardar aquele cenário numa fotografia, mas não quis, preferi descrevê-lo, dada a grande exigência e dificuldade que isso acarreta, todavia, vejo-me incapaz de o fazer,

dizer que é porque os meus dedos tropeçam uns nos outros não me parece desculpa aceitável.

Estou em querer que virei muitas vezes, hoje sentar-me aqui, hoje, já outro dia avança, ainda me lembro convenientemente do ocaso amarelado, das nuvens negras, soltas no ar, mas quero vê-lo outra vez, outra e outra, e nesses devaneios me perco, ficam, talvez, as palavras por arrumar, as cores dispersas.

Conheço demasiado bem esta janela para saber do que o horizonte é capaz e que nos meus olhos tornará o espanto. 








sábado, 7 de fevereiro de 2026

Portugal

São seis da tarde de um qualquer início de fevereiro, e o céu tem uma tonalidade indefinida. 

Existe um rosa vibrante, como se o insólito também se estendesse pelas cores, ou pelos tons, como se a serra, vista sob este prisma, me escondesse do mar toda a luminosidade, para eu ficar inquieta, não entendendo de onde vem tanto alaranjado, tanta coisa rósea, cuja origem o sol fraquíssimo sobre as nuvens. não me revela.

O dia, evidentemente, está a cair. Vejo aqui pelo canto do olho, onde desaparece tudo o que acabei de ver. Talvez o meu telemóvel, com a sua capacidade imensa para as cores, tivesse captado essa atmosfera irreal, talvez eu tivesse conseguido guardar aquele cenário numa fotografia, mas não quis, preferi descrevê-lo, dada a grande exigência e dificuldade que isso acarreta, todavia, vejo-me incapaz de o fazer,

dizer que é porque os meus dedos tropeçam uns nos outros não me parece desculpa aceitável.

Estou em querer que virei muitas vezes, hoje sentar-me aqui, hoje, já outro dia avança, ainda me lembro convenientemente do ocaso amarelado, das nuvens negras, soltas no ar, mas quero vê-lo outra vez, outra e outra, e nesses devaneios me perco, ficam, talvez, as palavras por arrumar, as cores dispersas.

Conheço demasiado bem esta janela para saber do que o horizonte é capaz e que nos meus olhos tornará o espanto. 






domingo, 1 de fevereiro de 2026

Ninguém Entre as Cortinas

 Para mim, era certo que já não vivia ninguém entre as cortinas.

Os vizinhos faziam um sorriso tolo quando os questionava. Respondiam qualquer coisa como, "então não a viu ontem, à Dona Lurdes? estivemos todos a conversar ali em frente ao café do bairro. A senhora até a cumprimentou e tudo, não se lembra? "efetivamente estivera a conversar com eles no sítio indicado, cumprimentara alguém que eles diziam estar lá, mas não estava, apenas dei dois beijos no ar para não os contrariar, já que insistiam para que falasse com alguém que eu não podia ver, mas cuja presença era, para eles, evidente. 

Portanto, quando, insisto, os questionava sobre o facto, para mim era um facto, só isso posso garantir, de, também o jardim da pequena casinha parecer abandonado, com as ervas já muito altas e as roseiras sem poda, a crescerem livremente formando formas disformes e flores selvagens misturadas entre os seus próprios abraços agressivos e picantes, dolorosos, com as envelhecidas pedras brancas sujas de vários invernos, ou de como já ninguém estava à janela, fazia uns dias, talvez até muitos, porque nem sempre tenho grande noção da exatidão do tempo a passar, ou de como o vaso da frente, o das orquídeas silenciosas estava todo ressequido e cheio de folhas velhas, a Dona Lurdes nunca deixaria o seu vaso de barro pintado de roxo todo castanho de pó e as folhas velhas, as folhas velhas também me puxaram a atenção, mais do que muitos outros pormenores, que lhes fui referindo ao longo daqueles dias, mas que me abstenho de mencionar aqui.

Os vizinhos continuavam com o seu sorriso tolo, mas ela, a mulher do casal, talvez mais atenta às minhas reações, ou talvez porque me conhecesse melhor, parecia estar menos confortável com a situação do que ao início, quando começara a tomar os seus contornos, esta coisa de eu achar que a senhora desapareceu, morreu, foi, viver para outro local, enfim, várias possibilidades existem, todavia, nenhuma delas implica a senhora ainda permanecer na sua casa e fazer a sua vida normal, por muito que me digam que falei com ela no dia anterior, ou nos dias que o antecederam.



sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Nevoeiro

E ali ficavam

retidos

todos os seus poemas

todas as suas palavras

cobrindo a serra

com os seus braços húmidos

e as suas mãos baças.