O Pedro sabia que o pai estava só, velho e doente, e o pai, por sua vez, já tinha interiorizado o tempo como uma ampulheta impossível de virar. O filho tinha para com a maioria dos idosos uma atitude benevolente, mas não para com este, porque , sob a capa de um bom pai, enganara todos, deixando-o à sua sorte num mundo de medos colossais.
O pai, em casa, ouvia passos nas escadas, demasiado pesados e rápidos, para que fosse alguém a subir ao terceiro andar. Às vezes o telefone tocava e o velho percorria a casa diminuta, e, arquejando como se tivesse percorrido um palácio, atendia, um pouco mais contente.
O filho telefonava ao pai enquanto jogava guerras no computador, para descomprimir do dia de trabalho, pensando que só tinha meia hora para descansar, e que o esforço seria praticamente só ouvi-lo, embora também para si, isso fosse dispensável. O Pedro lembrou vagamente como, há infinidades de anos, o pai se rira do seu pesadelo, e ele, pequeno, agarrado às grades da cama, e o pai a ensiná-lo a não chorar.
O pai do Pedro educara os seus filhos para serem homens duros de roer, iguais a si, alheios às fragilidades dos outros, , aos andares altos sem elevador, ao medo do silêncio sepulcral da noite. Por isso, muitas vezes na vida deixara de falar ao filho, obrigando-o assim à solidão, numa família cheia de gente. O filho não era vingativo. Apenas um aluno a viver com distinção, e o pai, no terceiro andar, apenas um professor.
segunda-feira, 22 de junho de 2015
sexta-feira, 12 de junho de 2015
Escrevendo poesia
Escrevendo poesia
o grito dos fracos
dos que gritam
com medo,
que, estáticos
transformam o mar
e a maresia
em palavras
que nada fazem
observando apenas
calados!
Pensando que gritam
e, mudos,
escrevem a lápis
e não sendo lidos
morrem,
escrevendo poesia,
indomáveis!
o grito dos fracos
dos que gritam
com medo,
que, estáticos
transformam o mar
e a maresia
em palavras
que nada fazem
observando apenas
calados!
Pensando que gritam
e, mudos,
escrevem a lápis
e não sendo lidos
morrem,
escrevendo poesia,
indomáveis!
sexta-feira, 5 de junho de 2015
Incompreensível
O homem bom queria comer, metade ao jantar e metade à ceia, as suas magníficas sereias. Elas agradeceram ao homem benevolente, porque os seus cantos encantadores iam gostar muito de ir ao forno com cebola!
As sereias não compravam meias, pensava o homem intrigado, numa ansiedade crescente.
O homem bom, quando se deitavam, colocava um enorme balde com água aos pés da cama. Vá lá, valia-lhes as quatro mamas e aquele mágico som, e as sereias, não se sabe bem porquê, antes de dormirem, punham sal nas pernas e nas veias!
O homem tranquilo adormecia, e uns dias sonhava com peixe frito, outros com o azul do mar, ou com palavras musicais, soltas, discursos erráticos, sombras voláteis, coisa assim! E as sereias, metade red fish metade mulher, não eram o sonho do homem bom, que sonhava com entrecosto na brasa, coisa racional e apetitosa, e o homem bom mas deselegante, impacientava-se, tanto com as metades de peixe, como com as mulheres imperfeitas, como com a falta de meias, nas molas, na corda, penduradas a secar!
Há! As sereias...! Quando cantavam enebriavam a cabeça de touro do minotauro que era o homem bom, que tinha duas sereias, e que temia perder para sempre aquele dois em um! Perder a diferença mais semelhante do mundo, o ponto nevrálgico, o elo de ligação.
Um dia, estavam as sereias a escamar as caudas, e a pôr um bocadinho de creme para ficarem mais macias, quando o bom homem chegou. Meninas, vamos à praia! E lá seguiram elas, agarradas aos seus chifres de marfim. _ Onde vais? Porque não páras? _ Vou devolver-vos ao mar! Procuro mulheres inteiras, com pernas, e, acima de tudo, meias, mulheres que se me assemelhem, que sou praticamente todo um "homem bom"_. E, largando-as na água, virou-lhes as costas, e afastou-se calmamente, com a longa cauda bamboleando ao movimento dos seus passos.
As sereias não compravam meias, pensava o homem intrigado, numa ansiedade crescente.
O homem bom, quando se deitavam, colocava um enorme balde com água aos pés da cama. Vá lá, valia-lhes as quatro mamas e aquele mágico som, e as sereias, não se sabe bem porquê, antes de dormirem, punham sal nas pernas e nas veias!
O homem tranquilo adormecia, e uns dias sonhava com peixe frito, outros com o azul do mar, ou com palavras musicais, soltas, discursos erráticos, sombras voláteis, coisa assim! E as sereias, metade red fish metade mulher, não eram o sonho do homem bom, que sonhava com entrecosto na brasa, coisa racional e apetitosa, e o homem bom mas deselegante, impacientava-se, tanto com as metades de peixe, como com as mulheres imperfeitas, como com a falta de meias, nas molas, na corda, penduradas a secar!
Há! As sereias...! Quando cantavam enebriavam a cabeça de touro do minotauro que era o homem bom, que tinha duas sereias, e que temia perder para sempre aquele dois em um! Perder a diferença mais semelhante do mundo, o ponto nevrálgico, o elo de ligação.
Um dia, estavam as sereias a escamar as caudas, e a pôr um bocadinho de creme para ficarem mais macias, quando o bom homem chegou. Meninas, vamos à praia! E lá seguiram elas, agarradas aos seus chifres de marfim. _ Onde vais? Porque não páras? _ Vou devolver-vos ao mar! Procuro mulheres inteiras, com pernas, e, acima de tudo, meias, mulheres que se me assemelhem, que sou praticamente todo um "homem bom"_. E, largando-as na água, virou-lhes as costas, e afastou-se calmamente, com a longa cauda bamboleando ao movimento dos seus passos.
segunda-feira, 1 de junho de 2015
A relevância do voto
No outro dia disseram-me: " O AO devia ser sujeito a um referendo", e eu pensei: Que ideia maravilhosa. Marco, no hospital, o Taco, as análeses, e a endocuspia, que estou com uma miguelite que não aguento. E depois bou botar!
sexta-feira, 22 de maio de 2015
O míope
O miopezito lá ia, os olhos franzidos a protegerem-se do sol. E quando era preciso ler as letras pequeninas, lia o que os outros não conseguiam. O míope deitava-se, sob a sua janela de sótão, nas noites de luar, e beleza alguma apreciava, depois de tirar os óculos, os mesmos que tirava para ver melhor!
O miopezito estava escondido por detrás das suas lentes graduadas, fundos de garrafa, disfarçados por inovadoras formas de disfarçar fundos de garrafa, e os seus olhos eram muito maiores do que os que lhe vias, por entre os vidros convexos, sustentados por hastezinhas nas orelhas.
O miopezito, no seu mundo desfocado, transformava tudo em manchas, mas podia ler os mais pequenos rótulos, a informação mais escondida, o pormenor quase apagado, mas o mar era uma sombra,e a noite..., bem, a noite era conforme estivesse ou não com os óculos.
O miopezito tinha até uns grandes olhos de ver o mundo.
O miopezito foi à consulta, apoiou o queixo na maquineta, puseram-lhe uma armação enorme e complexa no nariz. O médico foi trocando lentes, sobrepondo algumas, até!
"E assim? Vê melhor ou pior? Que letra é esta?
"Mas eu lembro-me que era um A! E agora?"
Todas as manhãs o míope apalpava a mesa de cabeceira, e, a seguir, verificava o efeito da luz nas persianas. Não se pode dizer que o miopezito fosse um sonhador, ou poeta, porque não era. Só era o melhor a ler instruções de comida pré-cozinhada, e era o melhor a abrir muito os olhos, só para ver pouco ou nada!
O miopezito estava escondido por detrás das suas lentes graduadas, fundos de garrafa, disfarçados por inovadoras formas de disfarçar fundos de garrafa, e os seus olhos eram muito maiores do que os que lhe vias, por entre os vidros convexos, sustentados por hastezinhas nas orelhas.
O miopezito, no seu mundo desfocado, transformava tudo em manchas, mas podia ler os mais pequenos rótulos, a informação mais escondida, o pormenor quase apagado, mas o mar era uma sombra,e a noite..., bem, a noite era conforme estivesse ou não com os óculos.
O miopezito tinha até uns grandes olhos de ver o mundo.
O miopezito foi à consulta, apoiou o queixo na maquineta, puseram-lhe uma armação enorme e complexa no nariz. O médico foi trocando lentes, sobrepondo algumas, até!
"E assim? Vê melhor ou pior? Que letra é esta?
"Mas eu lembro-me que era um A! E agora?"
Todas as manhãs o míope apalpava a mesa de cabeceira, e, a seguir, verificava o efeito da luz nas persianas. Não se pode dizer que o miopezito fosse um sonhador, ou poeta, porque não era. Só era o melhor a ler instruções de comida pré-cozinhada, e era o melhor a abrir muito os olhos, só para ver pouco ou nada!
terça-feira, 12 de maio de 2015
Os Peculiares. Epi. 7 Degustação
Nos últimos tempos, Elba Calhau não tinha outro assunto que não fosse a sua aproximação a Duarte Barroca. Desta vez confidenciava á grande amiga, Celeste Nebrosa _Até me deixou tirar-lhe unx pontux negrux, na praia!_
_ Hmm! A coisa vai avançada_ Celeste respondeu, indolente.
_ Vem! Encontramo-nux com elex à entrada do "Grossux Molhux", em Alfama_ Elba, nesse dia, até estava um pouco enervada. Tinha ido levar as crianças a casa da mãe, que lhe pareceu ter esta do a fumar coisas esquisitas. _ Ó mãe, estiveste a fumar um charro?_
_Claro que não, filha!_ E desatou a rir à gargalhada porque Elba tinha demasiada base na cara_ Uau! Pareces uma manequim, mas das de plástico!_
_Mãe, tu vê lá! Toma bem conta dux meninux !_ Vai descansada_ respondeu a mãe, ainda a rir, e de lágrimas nos olhos.
_O chef deste restaurante tem duas estrelas Firestone _ comentou Lurdes Vairada, após se cumprimentarem uns aos outros em frente ao estabelecimento.
_ Michelin, Lurdes! Michelin!_ Porfírio Metelo Anão emendou a amiga, impaciente.
_ Ou isso..., já viram o menu? _ E Lurdes aproximou-se do cardápio, colocado na parede, e preso numa caixinha de vidro. Os outros seguiram-na, formando um grupinho aconchegante. Juvenal Gadura iniciou a leitura da ementa:
-Leite azedo com molho grosso de nabo
-Perú desnorteado da Ibéria e batatinhas Dalai Lama
-Suco de sucos finíssimos
-Truta à caçador de perdizes
-Ovos de saguim bipolar
-Flan empinocado com framboesas
..... e por aí fora, uma enorme lista de coisas deliciosas.
_ Vamux entrar!_ e todos seguiram Elba até ao interior do restaurante.
_ Senta-te tu aqui, Gertrudes. Nunca me sento virada para sudoeste! Não estou para sofrer influências negativas dos planetas a norte do oposto à lua cheia!_ A Celeste Nebrosa fascinavam-na esoterismos, e tudo o que fosse para além da compreensão do comum dos mortais.
_ Ó Celeste, não quero saber dessa merda! É uma cadeira e pronto!_ Lucas Murro, decidido, sentou-se.
_ Pessoal, adoramo-nux?_ Adoramos!_ e os copos, cheios com vinho finíssimo das adegas do " Monte da Avó Malandreca", tilintaram uns nos outros.
_ Olhe!_ Elba chamou o empregado, que se voltou, atraído pelo cabelo louro, e pelo decote arrojado_ Diga-me, como são ux ovux D' Artagnan?
Elba fez um sorriso largo
_São ovos ovos abertos com a ponta de uma espada de samurai, cobertos com molho grosso_
_ Parece-me bem. Eu quero, alguém maix quer?_ e enquanto esperavam as entradas foram bebericando e conversando.
_ Já viste ali os ovos D' Artagnan?_ Adolfo Dias segredou a Porfírio, indicando a mesa ao lado_ Mais me parecem ovos mexidos do almoço, com uma bosta qualquer por cima_ E o jantar decorria, num entusiasmo de conversas cruzadas.
_ É que eu faço retenção de líquidux!_ "Fazes, fazes!... E de sólidos também, um bocadinho!" Pensou Porfírio, que gostava de mulheres menos exuberantes, mas não disse nada, para não melindrar a amiga.
Do outro lado da mesa alguém comentava: Faz-me lembrar uma frase que li no outro dia: "Até as cavalgaduras têm direito à ternura!"_ Onde é que Leste isso?_ A Porfírio soou-lhe mal_ No Face, um amigo partilhou comigo.
Adolfo Dias resolveu também questionar o empregado_ Por favor, gostava de saber, este prato aqui..., as batatinhas Dalai Lama, como são?_
_ São batatas que estiveram em meditação no Tibete pelo menos cinco anos, e, já agora, esclareço-vos sobre o perú desnorteado da Ibéria. São perús enraivecidos em ambiente ibérico. É muito bom, e leva tudo um molho grosso por cima. A confeção é do mais alto nível, e servimos todos os pratos com fatias de pão rústico de cereais da lezíria.
_ É tão amável!_ Lurdes e Gertrudes Vairada adoraram o empregado, mas ele só tinha olhos para Elba Calhau, que, nesse momento, já estava a manter as devidas distâncias.
_ Adolfo, como extá a Alice?_ perguntou Elba rodando ligeiramente o corpo.
_ Ótima, obrigada_ e Adolfo fez o ar mais desanuviado possível tendo em conta as circunstâncias, já que Alice Mitério tinha ameaçado sair de casa, o que lhe causaria uma enormidade de problemas.
Porfírio Metelo Anão comia, pensativo."Bifes de perú com batata cozida e um molho asqueroso por cima", mas não disse nada e bebeu mais um trago de vinho.
_Eu já nem acho que nux adoramux ! Nóx amamo-nux tanto! E depoix o vinho, a deguxtação, a folia...., ux meux filhux ...! Ixto é magia!
_És linda Elba! Tens um coração enorme!_ e Celesta Nebrosa, com a unha pintada de negro, limpou uma lágrima da face da amiga.
No final do jantar, a sensível Elba, ainda de olhos húmidos, pediu a conta.
"É pá, tenho que pedir dinheiro à Alice enquanto é tempo, pensou Adolfo, ao mesmo tempo que consolava a colega, e Lurdes e Gertrudes Vairada exclamaram em coro: _ Foi caro mas valeu a pena!_.
_ Hmm! A coisa vai avançada_ Celeste respondeu, indolente.
_ Vem! Encontramo-nux com elex à entrada do "Grossux Molhux", em Alfama_ Elba, nesse dia, até estava um pouco enervada. Tinha ido levar as crianças a casa da mãe, que lhe pareceu ter esta do a fumar coisas esquisitas. _ Ó mãe, estiveste a fumar um charro?_
_Claro que não, filha!_ E desatou a rir à gargalhada porque Elba tinha demasiada base na cara_ Uau! Pareces uma manequim, mas das de plástico!_
_Mãe, tu vê lá! Toma bem conta dux meninux !_ Vai descansada_ respondeu a mãe, ainda a rir, e de lágrimas nos olhos.
_O chef deste restaurante tem duas estrelas Firestone _ comentou Lurdes Vairada, após se cumprimentarem uns aos outros em frente ao estabelecimento.
_ Michelin, Lurdes! Michelin!_ Porfírio Metelo Anão emendou a amiga, impaciente.
_ Ou isso..., já viram o menu? _ E Lurdes aproximou-se do cardápio, colocado na parede, e preso numa caixinha de vidro. Os outros seguiram-na, formando um grupinho aconchegante. Juvenal Gadura iniciou a leitura da ementa:
-Leite azedo com molho grosso de nabo
-Perú desnorteado da Ibéria e batatinhas Dalai Lama
-Suco de sucos finíssimos
-Truta à caçador de perdizes
-Ovos de saguim bipolar
-Flan empinocado com framboesas
..... e por aí fora, uma enorme lista de coisas deliciosas.
_ Vamux entrar!_ e todos seguiram Elba até ao interior do restaurante.
_ Senta-te tu aqui, Gertrudes. Nunca me sento virada para sudoeste! Não estou para sofrer influências negativas dos planetas a norte do oposto à lua cheia!_ A Celeste Nebrosa fascinavam-na esoterismos, e tudo o que fosse para além da compreensão do comum dos mortais.
_ Ó Celeste, não quero saber dessa merda! É uma cadeira e pronto!_ Lucas Murro, decidido, sentou-se.
_ Pessoal, adoramo-nux?_ Adoramos!_ e os copos, cheios com vinho finíssimo das adegas do " Monte da Avó Malandreca", tilintaram uns nos outros.
_ Olhe!_ Elba chamou o empregado, que se voltou, atraído pelo cabelo louro, e pelo decote arrojado_ Diga-me, como são ux ovux D' Artagnan?
Elba fez um sorriso largo
_São ovos ovos abertos com a ponta de uma espada de samurai, cobertos com molho grosso_
_ Parece-me bem. Eu quero, alguém maix quer?_ e enquanto esperavam as entradas foram bebericando e conversando.
_ Já viste ali os ovos D' Artagnan?_ Adolfo Dias segredou a Porfírio, indicando a mesa ao lado_ Mais me parecem ovos mexidos do almoço, com uma bosta qualquer por cima_ E o jantar decorria, num entusiasmo de conversas cruzadas.
_ É que eu faço retenção de líquidux!_ "Fazes, fazes!... E de sólidos também, um bocadinho!" Pensou Porfírio, que gostava de mulheres menos exuberantes, mas não disse nada, para não melindrar a amiga.
Do outro lado da mesa alguém comentava: Faz-me lembrar uma frase que li no outro dia: "Até as cavalgaduras têm direito à ternura!"_ Onde é que Leste isso?_ A Porfírio soou-lhe mal_ No Face, um amigo partilhou comigo.
Adolfo Dias resolveu também questionar o empregado_ Por favor, gostava de saber, este prato aqui..., as batatinhas Dalai Lama, como são?_
_ São batatas que estiveram em meditação no Tibete pelo menos cinco anos, e, já agora, esclareço-vos sobre o perú desnorteado da Ibéria. São perús enraivecidos em ambiente ibérico. É muito bom, e leva tudo um molho grosso por cima. A confeção é do mais alto nível, e servimos todos os pratos com fatias de pão rústico de cereais da lezíria.
_ É tão amável!_ Lurdes e Gertrudes Vairada adoraram o empregado, mas ele só tinha olhos para Elba Calhau, que, nesse momento, já estava a manter as devidas distâncias.
_ Adolfo, como extá a Alice?_ perguntou Elba rodando ligeiramente o corpo.
_ Ótima, obrigada_ e Adolfo fez o ar mais desanuviado possível tendo em conta as circunstâncias, já que Alice Mitério tinha ameaçado sair de casa, o que lhe causaria uma enormidade de problemas.
Porfírio Metelo Anão comia, pensativo."Bifes de perú com batata cozida e um molho asqueroso por cima", mas não disse nada e bebeu mais um trago de vinho.
_Eu já nem acho que nux adoramux ! Nóx amamo-nux tanto! E depoix o vinho, a deguxtação, a folia...., ux meux filhux ...! Ixto é magia!
_És linda Elba! Tens um coração enorme!_ e Celesta Nebrosa, com a unha pintada de negro, limpou uma lágrima da face da amiga.
No final do jantar, a sensível Elba, ainda de olhos húmidos, pediu a conta.
"É pá, tenho que pedir dinheiro à Alice enquanto é tempo, pensou Adolfo, ao mesmo tempo que consolava a colega, e Lurdes e Gertrudes Vairada exclamaram em coro: _ Foi caro mas valeu a pena!_.
quarta-feira, 6 de maio de 2015
Depois da noite
Dois turistas rebolaram borda fora de um barco, e foram parar ao hospital. Gostaria de reinventar a sua história, mas não percebo nada de barcos, e de turistas também sei pouco. Apenas os vejo, agitados, sob o sol de Lisboa.
Depois, perdoem, mas atirei o pensamento lançado em vôo, e, apesar de não perceber nada de barcos, fui, e irei, inevitavelmente dar ao mar.
Depois, não sei porquê, lembrei-me do bendito acordo, essa maldade, para quem sabe, e para quem não sabe de palavras.
Pelo meio escrevi aquela verdade verdadinha, "o amor como o sinto, verdadeiro, frágil, e incondicional ", e associei-o ao facto da vida ser igualmente vida, sem razão dos olhos, ou luz da existência. Terá é outro sabor!
Depois, senti o cansaço, apanhei a parte do ridículo, do homem a dizer ao médico que a "feze" lhe saía normal, e tive pena não sei de quê, e deu-me para ouvir os passarinhos pendurados na primavera das árvores em flôr, e, imediatamente a seguir, não gostei de ver os passarinhos aqui escarrapachados, mas tarde de mais, porque já estava escrito, indelével e bonito, e depois fui dormir!
Depois, perdoem, mas atirei o pensamento lançado em vôo, e, apesar de não perceber nada de barcos, fui, e irei, inevitavelmente dar ao mar.
Depois, não sei porquê, lembrei-me do bendito acordo, essa maldade, para quem sabe, e para quem não sabe de palavras.
Pelo meio escrevi aquela verdade verdadinha, "o amor como o sinto, verdadeiro, frágil, e incondicional ", e associei-o ao facto da vida ser igualmente vida, sem razão dos olhos, ou luz da existência. Terá é outro sabor!
Depois, senti o cansaço, apanhei a parte do ridículo, do homem a dizer ao médico que a "feze" lhe saía normal, e tive pena não sei de quê, e deu-me para ouvir os passarinhos pendurados na primavera das árvores em flôr, e, imediatamente a seguir, não gostei de ver os passarinhos aqui escarrapachados, mas tarde de mais, porque já estava escrito, indelével e bonito, e depois fui dormir!
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